O mundo fora dos autos

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‘Sunderland até morrer’: futebol, capitalismo e Direito

Série sobre queda do tradicional time inglês mostra limites da mercantilização da vida

Uma das primeiras pinturas de futebol do mundo, Thomas M.M. O "Sunderland x Aston Villa 1895", de Hemy, também intitulado "A Corner Kick", descreve uma partida entre as duas equipes inglesas mais bem-sucedidas da década. O local é o terreno da Newcastle Road em Sunderland, e o jogo terminou em 4-4. Atualmente, esta pintura é exibida (atrás de um vidro) no Estádio da Luz de Sunderland. Wikimedia Commons

Eu e meu filho Lucas somos grandes fãs do futebol inglês. Passamos os fins de semana vidrados na Premier League, e acompanhamos até algumas partidas da segunda divisão. Por isso, vimos com enorme empolgação o incrível documentário “Sunderland Até Morrer”, a história espantosa da derrocada de um dos mais tradicionais clubes ingleses, narrando o drama de jogadores e torcedores na queda livre rumo à terceira divisão.

A série da Netflix, em oito episódios, nos induz a refletir sobre como a dimensão emocional da vida afeta e é afetada pela máquina de fazer dinheiro que é o futebol moderno, justamente no país onde a indústria deste esporte conhece o mais avançado desenvolvimento econômico, alavancado pelo capitalismo transnacional. E, além disso, o documentário é interessante para pensar como o Direito faz a mediação dos conflitos entre tradição e modernidade, através de soluções jurídicas nem sempre satisfatórias.

Os ingleses inventaram o futebol nas suas abastadas universidades e o esporte era praticado inicialmente pelos jovens aristocratas que tinham condição de acessar a elite do ensino superior. Mas, ao contrário de outros esportes que permaneceram por longo tempo sendo o passatempo de ricos (como o tênis, o golfe e o polo), o futebol rapidamente foi incorporado pelo populacho, pois os industriais perceberam como essa forma de lazer poderia ocupar e distrair o operariado das fábricas, tornando-o mais saudável e o afastando dos movimentos sindicais.

Além disso, era um esporte barato, que dependia apenas de um balão de couro e um campinho de terra, como também de traves que poderiam ser improvisadas com alguns pedaços de madeira.

Muitos times foram, por isso, fundados a partir de “associações de trabalhadores”, como o Manchester United, criado para operários da linha de trem Lancashire and Yorkshire Railway, o Arsenal, formado por empregados do Woolwich Arsenal Armament Factory e o West Ham, dos metalúrgicos do estaleiro Thames Ironworks; o fenômeno foi replicado por empresas no Brasil que sofreram a influência da administração inglesa, como o Clube Atlético Bangu do Rio de Janeiro (ligado à fábrica de tecidos homônima) e o Operário Ferroviário de Ponta Grossa (PR), que estão aí até hoje.

Embora tenha surgido como atividade meramente recreativa e associativa, o futebol começou a mudar quando as pessoas se juntavam para assistir e apostar nos jogos.

O cheiro do dinheiro apareceu e os clubes passaram a disputar o “passe” de atletas habilidosos, que começaram a receber salários, especialmente os originários do proletariado que não podiam se dedicar exclusivamente ao esporte sem prejuízo de seu sustento.

O futebol, portanto, começou a se “juridificar” a partir do Direito do Trabalho, seja pela sua função de contenção dos conflitos industriais, seja porque os clubes começaram a funcionar na lógica capitalista do labor assalariado. Na virada do século XIX para o XX, a Federação Inglesa de Futebol já estava estabelecendo teto salarial para evitar a concorrência desleal entre as equipes. Era o fim do amadorismo no futebol, mas o esporte nas ilhas britânicas ainda levaria muito tempo até se tornar a indústria bilionária de hoje, com investimentos, salários e lucros astronômicos.

A virada ocorreu no início dos anos 1990. Na segunda metade da década de 1980 o futebol na Inglaterra enfrentava a maior crise de sua história. Clubes endividados, estádios decrépitos e inseguros, hooliganismo no seu auge: depois da tragédia de Heysel, que levou à morte de 39 torcedores provocada por tumultos causados em um confronto entre a torcida do Liverpool e da Juventus na Bélgica, os clubes ingleses foram banidos de disputar competições europeias por cinco anos.

Para piorar as coisas, em 1989 outra tragédia abala o futebol inglês: noventa e seis torcedores morrem imprensados no Estádio Hillsborough, do Sheffield Wednesday, devido a excesso de lotação. Um relatório governamental é elaborado para evitar novas tragédias, recomendando, dentre outras coisas, modernização dos estádios, lugares marcados, maior controle do público e medidas antihooliganismo.

Para superar essa crise de credibilidade, os clubes da primeira divisão se reúnem, rebelam-se contra a federação, passam a administrar o campeonato e a negociar os direitos de TV: nascia a multimilionária Premier League, onde o salário médio mensal de um jogador saltou de 6.250,00 libras na temporada inaugural 1992/1993 para as atuais 250.000,00 libras (temporada 2018/2019) . O Sunderland Association Football Club não estava entre os membros fundadores da Premier League, mas ascenderia ao grupo de elite do futebol inglês poucos anos depois.

Sunderland é um importante porto setentrional das Ilhas Britânicas, no gélido litoral nordeste da Inglaterra, não muito distante da fronteira com a Escócia. O clube de futebol que ostenta o nome da cidade foi fundado em 1879 por modestos professores e é um dos grandes orgulhos de seus concidadãos, que são simplesmente doentes e fanáticos pelo time alvirubro. O Sunderland AFC foi seis vezes campeão inglês e ganhou duas Copas da Inglaterra (FA Cup). Tradicionalmente, disputa a primeira divisão, mas na temporada 2016/17 veio o desastre: o time caiu para a segundona com uma campanha pífia, no último lugar, com ridículos 24 pontos.

Na temporada 2017/18, a torcida não abandonou o time e todos esperavam a redenção. Uma equipe de documentaristas teve uma grande ideia: registrar o renascimento do Sunderland a partir das cinzas, no que todos imaginavam seria a volta triunfal à primeira divisão.

Mas ocorreu o que ninguém imaginava: o time desandou de vez e simplesmente ficou em último lugar, descendo de forma vexaminosa para a terceira divisão (que na Inglaterra recebe o nome falsamente glamoroso de “League One”), onde se encontra atolado até os dias de hoje.

O documentário acompanha a trajetória do time na segunda divisão (lá denominada “EFL Championship”), focando essencialmente na visão dos torcedores, dirigentes e atletas. É nesse plano das emoções pessoais que se revelam as tensões entre as dimensões afetiva e mercantil do esporte bretão. O clube precisa dar lucro aos investidores e o retorno à primeira divisão é urgente.

Mas as decisões no futebol são quase sempre incertas. A escolha do técnico revela-se uma decisão errada. Alguns jogadores que caíram têm garra, identificam-se com os torcedores, mas são postos no banco de reservas. Há indecisão sobre o melhor goleiro depois de uma sucessão de frangos e falhas dos keepers que compõem o elenco e o clube decide então trazer um outro da Holanda, que acaba tendo uma contusão séria.

O time sofre derrotas inacreditáveis em casa e os torcedores se desesperam, fazem cobranças sobre os dirigentes e atletas. Os empregados que trabalham para o clube em funções de suporte (cozinheiros, porteiros, vendedores de planos de sócio) angustiam-se: uma queda para a terceira divisão significará cortes na folha de pagamento. Um clube de futebol na Inglaterra precisa ser um investimento rentável, mas não é uma fábrica de pneus: as relações entre o empreendimento e a comunidade são fundamentais para o sucesso da empreitada.

Isso fica evidente em uma cena muito emblemática: o clube convoca uma reunião com um grupo de torcedores associados que compram ingressos para toda a temporada (season ticket holders). Estão presentes membros da diretoria, o técnico e alguns atletas.

A reunião ocorre em um pub, e entre goles de cerveja eles dão explicações e sofrem cobranças, inclusive relativas à uma suposta falta de empenho do elenco.

Mesmo sendo um empreendimento puramente capitalista, os diretores do documentário ressaltam os limites da mercantilização da vida: o clube, além de ser uma empresa, tem profundos vínculos com a comunidade, e são ilustrativas dessa tensão as imagens de uma missa na igreja católica local, onde padre e fiéis (alguns vestidos com a camisa do Sunderland) oram por um milagre que salve o time da queda para a terceirona.

O novo técnico contratado, de grande carisma, apanha uma pá e ajuda a remover a neve do campo de treinamento. Em uma vitória improvável, torcedores confraternizam em um bar e vão às lágrimas na celebração do raro momento. Em outro trecho, torcedores fanáticos acompanham a equipe em todos os jogos fora de casa e, em um momento de fúria causada por mais uma derrota, acabam agredindo os próprios documentaristas!

Os dramas pessoais dos jogadores são igualmente tocantes e percebemos nessa dimensão psicológica como a relação clube-atleta transcende o aspecto meramente jurídico de um contrato de trabalho típico: o goleiro que luta contra a insegurança para retomar o posto de titular; o jogador que veio de fora, vive sozinho e se sente deprimido; o ídolo encrenqueiro em má fase que é relegado à reserva, enche a cara e se envolve num bizarro acidente de carro; os jovens promissores que acabam de sair das categorias de base e são lançados na fogueira da crise; o jogador mais caro do elenco que ganha uma fortuna e está encostado sem perspectiva de jogar. Vemo-nos diante de trabalhadores que fazem a engrenagem impiedosa do milionário futebol inglês, diante da incerteza tortuosa do mundo esportivo.

A indústria do futebol move bilhões de libras na Inglaterra, mas ela não seria possível sem a mediação do Direito para conciliar tradição e modernidade, o que aliás é um dos traços mais distintos do caráter inglês, como nos mostra a monarquia de Windsor que até hoje sobrevive com grande popularidade naquele país.

Dos 44 times da primeira e segunda divisões, 43 tem mais de cem anos e 34 foram fundados no século XIX (inclusive o Sunderland). Todos eles se transformaram em empresas e seu primeiro objetivo é dar lucro. Mas isso não seria possível sem a paixão dos seus torcedores e sem um conjunto enorme de regras estatais e não estatais que adaptaram o futebol ao mundo capitalista, a despeito de todas as tensões que esse experimento implica.

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Agradeço ao meu filho Lucas Cramer Casagrande pela ajuda na pesquisa sobre alguns elementos da história do futebol inglês.


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