O mundo fora dos autos

O Mundo Fora dos Autos

Robert Frank, o artista que retratou as contradições da sociedade americana

Fotógrafo nascido na Suíça e naturalizado americano morreu semana passada aos 94 anos

Foto "Trolley - New Orleans", 1955 Foto: Robert Frank / Reprodução NYT

No ano de 1955, o fotógrafo suíço de origem judia Robert Frank, radicado em Nova Iorque, embarcou em um Ford velho, partindo de sua cidade sem um destino preciso, mas com a ideia de rodar todos os Estados Unidos para produzir um trabalho documental. Vivia-se o auge da literatura beat; artistas e vagabundos de todos os tipos sonhavam, como fonte de inspiração para as suas obras, com aquele tipo de aventura “pé na estrada”, cujo grande paradigma acabaria por ser representado no livro “On The Road”, de Jack Kerouac (esse autor underground inovador e controverso escrevera o seu livro em 1951, mas somente conseguiria um editor que bancasse a publicação em 1957).

A década de 1950 começara com grande otimismo nos EUA, devido à liderança política e econômica que o país alcançara como resultado de sua participação decisiva na Segunda Guerra Mundial. As imagens autorreferenciais que a mídia em geral produzia da nação, especialmente nas populares revistas semanais ilustradas, eram bastante edulcoradas, mostrando a prosperidade do american way of life, frequentemente representado nas lindas moças brancas sendo conduzidas em automóveis novos, coloridos e reluzentes, por bem apessoados e educados rapazes, igualmente brancos.

Nas páginas dessas revistas, abundavam propagandas de eletrodomésticos acessíveis a toda classe trabalhadora, mostrada quase sempre à mesa da cozinha, reunida para um lauto breakfast ou um farto almoço dominical, com um gigantesco peru ao centro da mesa.

Mas por detrás do lindo sonho americano de riqueza e conforto acessíveis a todos os que trabalhavam duro e cumpriam a lei, algumas rachaduras eram visíveis e abalavam o edifício da ordem social aparentemente sólida; feridas antigas e não remediadas começavam adoecer o corpo político. O horizonte, subitamente, se tornava sombrio e turvo.

Alguns meses antes do início da viagem de Robert Frank rumo às profundezas dos EUA, a Suprema Corte julgara o caso Brown v. Board of Education of Topeka 347 U.S. 483 (1954), no qual declarou inconstitucional a legislação de segregação racial no sistema escolar, adotada nos Estados do sul. Os líderes políticos estaduais segregacionistas se sentiam ultrajados pelo que consideravam uma intervenção federal em sua autonomia política e prometiam resistir. Os líderes negros mobilizavam-se em larga escala para repudiar o sistema racista de apartheid que inviabilizava os seus direitos civis e as autoridades federais estavam decididas a acabar com aquela nódoa que as envergonhava perante as nações estrangeiras, em momento crucial da Guerra Fria. Os EUA, apesar de todo o seu progresso material inquestionável, eram um barril de pólvora prestes a explodir.

Ninguém melhor do que Robert Frank capturou esse espírito do tempo. Com seu olhar estrangeiro registrou poeticamente, e com impressionante linguagem fotográfica inovadora, o país dividido, fato que a maioria dos americanos teimava em querer ignorar.

Seus instantâneos retratam de forma tocante não apenas as tensões raciais, mas também as divisões de classe e gênero nos Estados Unidos. O resultado deste trabalho documental foi reunido no livro “The Americans”, que é, sem sombra de dúvida, uma das mais importantes obras pictóricas produzidas nos Estados Unidos durante o Século XX.

O conjunto de fotografias (apenas 83 selecionadas entre as 27 mil que ele tirou) era tão sutilmente provocador que Frank teve dificuldades em conseguir um editor que bancasse a publicação do trabalho nos EUA. O artista suíço-americano não produziu um soco no estômago, não se deixou levar por um populismo imagético fácil das cenas de violência explícita que a segregação racial oferecia com frequência (como nas conhecidas fotos de linchamentos e de reuniões da Klan, que corriam a imprensa mundial). A sua grande sacada foi tocar o coração e atingir a consciência das “pessoas de bem”, de forma delicada mas incisiva, mostrando como o absurdo da divisão racial era chocantemente absorvido na normalidade do cotidiano, como algo absolutamente banal.

A fotografia escolhida para ilustrar a capa do livro era a de um bonde segregado em New Orleans, Louisiana, na qual se destacam em perfeita composição simétrica as janelas do veículo, sendo as da frente ocupadas por brancos (o condutor, passageiros mulheres e crianças elegantemente trajados), e as de trás por negros com roupa de trabalho. Possivelmente, a opção não foi uma coincidência.

O precedente judicial que estabelecera a constitucionalidade da segregação racial (fixando a doutrina separados mas iguais, “separate but equal”), fora decidido pela Suprema Corte dos EUA em fins do século XIX, no funesto caso Plessy v. Ferguson 163 U.S. 537 (1896), e os fatos daquele caso tratavam exatamente da separação entre passageiros brancos e negros no sistema de transporte público em New Orleans. A imagem era, portanto, emblemática e de um profundo apelo político, pois evidenciava que a despeito da então recentíssima decisão da Suprema Corte no julgamento Brown, haveria ainda um longo caminho a percorrer até que a nova ordem constitucional fosse, de fato, implementada.

Charleston, Carolina do Sul”, 1955 – “The Americans” Foto: Robert Frank / Reprodução NYT

Robert Frank era um adepto da street photography, ou seja, a fotografia em ambientes públicos, improvisada, subreptícia, sem contato prévio com os fotografados, que exige enorme capacidade técnica, oportunismo e descaramento. Não é um trabalho fácil e por vezes pode ser arriscado.

Frank visitou desde os altos clubes de ricos em Nova Iorque até as espeluncas mais sórdidas nos rincões do Novo México, das ruas cheias de aposentados da Flórida às fábricas de automóveis de Detroit, mostrando assim as contradições da vida americana e dos modos de vida de seus habitantes.

Ele não se ocupou do país ora ensolarado, ora branco de neve, sempre acolhedor dos anúncios de outdoors. Trabalhando em preto e branco, aproveita-se quase sempre da luz artificial dos interiores e mesmo nas fotografias em espaços abertos o tempo parece sempre encoberto, a luz diáfana e sufocante, em perfeita harmonia com o sentido angustiante da divisão social retratada pelo falecido artista.

É sob esse embaçamento que vemos a dureza e a fadiga da vida da classe trabalhadora, a rotina entediante dos cafés e lanchonetes com seus indefectíveis jukebox, o aborrecimento das estradas desertas e sem fim, o sufocamento do trabalho duro nas fazendas inóspitas e nas minas brutais.

Robert Frank lembra a todos americanos nesta obra que a produção dos eletrodomésticos e automóveis maravilhosos tem o seu custo humano.

Essa crueza na abordagem da vida social americana não foi bem recebida pela crítica quando a obra foi lançada nos EUA (ela saiu antes na França), em 1959. Alguns de seus detratores ficaram enfurecidos com o que lhes pareceu uma forma muito depreciativa de expor a sociedade americana em momento especialmente tenso da Guerra Fria (aliás, Frank chegou a ser detido numa cidadezinha do Tennessee quando produzia as fotos, sendo indagado por um policial a responder se não era um “judeuzinho comunista”).

Apesar dos percalços iniciais, a obra começou a granjear admiradores nos anos 1960 e 1970, até ser finalmente reverenciada como icônica. O prefácio da obra de Robert Frank na sua edição original havia sido produzido por outro artista “maldito” que, também criticado no início da carreira, acabaria incensado unanimemente pela posteridade: ninguém menos do que o próprio Jack Kerouac, cuja palavras a respeito do livro publicado por Frank foram bastante proféticas: “Que poema temos aqui, que poemas poderão ser escritos sobre esse livro de fotografias algum dia, por algum novo jovem escritor, iluminando com a luz de uma vela essas imagens, descrevendo-as, a cada detalhe misterioso em cinza, esse filme acinzentado que capturou cada pingo do sangue vermelho da humanidade”.

Robert Frank se foi na semana passada, aos 94 anos. A sua obra e algumas das candentes realidades sociais que ele retratou permanecem vivas.


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