O mundo fora dos autos

O mundo fora dos autos

Paulo Leminski na faculdade de Direito

Breve memória de uma longínqua noite etílica com o escritor paranaense

Crédito: Dico Kremer/Divulgação

Entrei na Faculdade de Direito de Curitiba no início de 1985, exatamente no momento em que Tancredo agonizava em seu leito de morte. A política ainda não estava contaminada pelo ódio. Apesar do infausto destino do presidente eleito no colégio eleitoral, eram tempos de esperança e fé na democracia, uma grande época para começar a estudar direito. No mesmo ano fui arrastado por alguns veteranos para a política estudantil, que era então uma atividade bastante agradável, sem o autoritarismo e o cartorialismo que dominam hoje a UNE e quejandos. Os estudantes realmente lutavam por melhores condições concretas de ensino, pois a política era essencialmente local, sem vinculação com DCEs e Uniões estaduais ou nacionais. Afinal, tratava-se de uma pequena faculdade privada, com cerca de 800 alunos. O Diretório Acadêmico Clotário Portugal não era a “seção” de um partido e na mesma chapa conviviam peemedebistas, brizolistas, socialistas, petistas e até mesmo alguns liberais. Também não havia ainda a praga do “coletivismo”: o diretório tinha presidente, vice-presidente e eu, eleito com a chapa para a gestão 1986, ocupava o cargo de “diretor cultural”.

Juntamente com meu grande amigo Sigurd Roberto Bengtsson (hoje Desembargador do TJ-PR), então “diretor de imprensa”, criamos uma programação cultural para o Diretório, cujo objetivo era levar para o debate da Faculdade de Direito pessoas de fora do mundo jurídico. O evento se chamava “Encontro Informal”. Resolvemos convidar para a primeira edição do evento ninguém menos que Paulo Leminski. Poeta já consagrado em todo o Brasil, no auge da sua trajetória, imaginamos que ele talvez não iria aceitar bater papo-furado com estudantes de direito, tão distantes do seu universo – embora ele tenha sido, também, um estudante de direito; aliás, o “polaco” escreveu um poema sobre o seu inconcluso curso jurídico, que está na coletânea “Caprichos e Relaxos”:

então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.

Lembro que conseguir o telefone dele foi uma verdadeira panaceia, pois a essa altura ele levava uma vida meio eremita na sua casa do Pilarzinho. Obtivemos o número de um jornalista da Gazeta do Povo. Feito o contato, para nossa surpresa, ele aceitou prontamente o convite, porém fez uma única exigência: teríamos que buscá-lo e levá-lo de volta para casa, pois ele não dirigia. Mais um problema, já que nem eu nem Sigurd tínhamos automóvel, então recrutamos para a missão nossa “diretora social” e proprietária de veículo automotor, Cláudia Cristina Pereira (hoje Desembargadora do TRT-PR). Fui junto com Cláudia até a casa de Leminski, enquanto Sigurd ficou responsável por organizar as “acomodações” do evento, na própria sede do Diretório (um cafofo pequeno, numa espécie de sótão na faculdade, onde caberiam talvez 30 ou 40 pessoas, contando as esparramadas pelo chão).

Bem, assim que chegamos na frente de sua casa, na Rua Antonio Cézar Casagrande, Leminski pediu que aguardássemos mais um pouco, pois sua filha Áurea estava se arrumando para ir a uma festa no Círculo Militar e ele nos perguntou se lhe poderíamos dar uma carona. Claro que concordamos, embora isso fosse atrasar razoavelmente nossa programação. E, para piorar, ficamos esperando um bocado até que eles estivessem efetivamente prontos para sair. Então, pai e filha finalmente subiram no carro e recordo que a garota estava com um visual totalmente punk. Deixamos a menina no Círculo e partimos, com o pé fundo no acelerador, para o outro lado do centro da cidade.

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Cláudia finalmente nos deixou em frente à faculdade, no cruzamento da Senador Alencar Guimarães com Emiliano Perneta e foi estacionar o carro. Já estávamos naquele momento mais de quarenta minutos atrasados e eu, bastante agoniado. Para piorar o quadro, Leminski me informa o seguinte: “preciso molhar a palavra”, ou seja, ele queria tomar um trago antes de começar a palestra. Levei-o até o botequim pé-sujo e caído que ficava na esquina, de um chinês – era o mais perto e ali nos demoraríamos menos. O poeta pediu uma vodka e quando o chinês apanhou um copo raso, próprio para uísque, Leminski indicou que era para servir em um copo alto, daqueles de suco de laranja… Terminado o copo em uns dez minutos, ele pediu outro! Eu comecei a achar que aquilo realmente não iria acabar bem. Depois de uns vinte minutos, finalmente partimos para o prédio da faculdade e alguns alunos certamente já não estavam acreditando que o cultuado Paulo Leminski daria as caras por lá.

Chegando à sede do Diretório, simplesmente não conseguíamos entrar de tão abarrotado que estava o recinto. Como diria Nelson Rodrigues, tinha gente até no lustre. Mais um problema a resolver: não havia lugar para o próprio palestrante… Mais ou menos cem pessoas ocupavam um espaço onde caberiam quarenta! Aperta daqui e espreme dali, arrumamos uma bancadinha improvisada para o Leminski.

Confesso que ainda estava temendo pelo que ocorreria quando ele começasse a falar, pois se eu tivesse tomado dois copos americanos de vodka em cerca de quinze minutos, estaria com minha língua bastante entorpecida. Mas que nada, Leminski, com sua grande simpatia, simplicidade e carisma, encantou a todos, proferiu uma palestra magnífica sobre a ausência de uma vida cultural mais ativa em Curitiba (ele depois publicaria na Gazeta do Povo uma crônica sobre esse tema, cujo título era “Culturitiba”). Foi uma noite realmente memorável e emocionante para todos que estiveram lá. E, claro, deu uma popularidade enorme para nossa gestão e consolidou o “Encontro Informal” – anos mais tarde conseguimos a proeza de levar à Faculdade de Direito ninguém menos do que o maior ator brasileiro então vivo: Paulo Autran – também um ex-estudante de direito.

Mas o melhor, para nós da diretoria, naquela longínqua noite com Leminski, foi que ele aceitou um convite para ir beber e comemorar conosco o sucesso do evento. Depois da palestra, fomos para um bar ali perto, na rua Jesuíno Marcondes, e todos se empanturraram de cerveja até umas três horas da madrugada. Para minha sorte, o poeta sentou ao meu lado e lembro que conversamos muito sobre literatura e política, mas, lamentavelmente, devido ao estado etílico geral, não retive muitos detalhes. Lembro apenas de duas coisas. Falamos sobre Eduardo Galeano e o seu “Veias Abertas da América Latina” e Leminski me indicou a obra do escritor indiano K. M. Panikkar, “A Dominação Ocidental na Ásia” (uma espécie de “Veias Abertas” daquele continente). Claro que comprei e li o livro. A outra coisa foi que saímos todos meio cambaleantes e ele repetiu o seu famoso haikai sobre a Curitiba que dorme cedo: madrugada bar aberto/deve haver algum engano/por perto.

Terminei a Faculdade de Direito em dezembro de 1989, ano ao longo do qual eu próprio presidi o Diretório Acadêmico Clotário Portugal. Neste período eu passava mais tempo na sede do diretório do que em sala de aula e em uma destas noites, no dia 9 de junho, enquanto assistia ao telejornal local, ali na mesma sala onde Leminski brilhara naquela inesquecível noite de 1986, recebi a notícia chocante que ninguém esperava: o poeta se fora precocemente, aos 44 anos.


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