Opinião & Análise

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Revistas científicas predatórias, Open Access e a ciência orientada pela quantidade

Perigos na indústria de publicações acadêmicas e o dilema qualidade versus quantidade

Crédito: Pixabay

Para os acadêmicos, pesquisadores e especialistas em alguma área talvez não seja novidade: o número de e-mails em que são convidados a enviar um artigo para revistas, a atuar como editor ou a dar uma palestra em Barbados tem aumentado significativamente. Uma boa parte vem de editoras, revistas e conferências predatórias que se infiltraram no campo da ciência nos últimos anos. Aqueles que caem no truque podem perder muito dinheiro e os benefícios são duvidosos. O número de periódicos predatórios “científicos” tem crescido acentuadamente nos últimos anos, em parte um efeito colateral das publicações de acesso livre ou aberto (Open Access).

Estas publicações são disponibilizadas online gratuitamente e compartilham os resultados da investigação científica em uma tentativa de democratizar o conhecimento. A tática predatória é se aproveitar deste movimento, ignorar critérios mínimos de rigor científico e publicar desde que o pagamento de uma taxa seja realizado.

As primeiras decisões judiciais sobre o assunto já estão disponíveis: em 2019, um tribunal no estado americano de Nevada condenou o Omics Publishing Group a pagar uma multa de 50 milhões de dólares e proibiu-o de operar nos EUA.  De acordo com pesquisas feitas por uma rede de investigação da mídia alemã e europeia, mais de 5.000 pesquisadores alemães publicaram nos últimos anos em periódicos predatórios pseudocientíficos. Além disso, nos EUA, Europa Oriental, Ásia, América Latina e África, o número de publicações em periódicos predatórios está constantemente aumentando.

No Brasil, Perlin et al. (2018) investigaram mais de 2 milhões de publicações de autores brasileiros utilizando o Qualis (gerido pela CAPES), um sistema de ranking em que os periódicos são classificados em categorias (A, B, C). A conclusão é que o número de artigos em revistas pseudocientíficas triplicou entre 2010 e 2015. A taxa de penetração neste grande mercado brasileiro de publicações ainda é bem baixa (entre 0,5 e 4 %, a depender da área de conhecimento).

Embora o Brasil tenha uma longa tradição em publicações, o que torna o mercado mais resiliente a este tipo de tática, as publicações em revistas com práticas duvidosas estão registrando crescimento exponencial e em taxa maior do que o das revistas regulares, especialmente nas áreas de engenharia, ciências agrárias e ciências sociais aplicadas – esta última inclui as publicações da área jurídica.

O que faz uma revista predatória e como detectá-las?

Uma revista predatória normalmente vende espaço para a publicação de artigos por uma taxa e oferece rapidez no processo de publicação. Como regra geral, o tempo necessário é bem inferior a três meses, enquanto as publicações em revistas internacionais de renome muitas vezes levam mais de um ano desde a submissão até a impressão.

No caso de periódicos predatórios, não há um procedimento de revisão por pares (peer review), ou este é falsificado. Os títulos destes periódicos são geralmente muito gerais e/ou orientados de acordo com os títulos de periódicos sérios, para que possam ser facilmente confundidos. Não é por menos que Cordeiros/Lima (2017) publicaram uma nota editorial sobre o tema nos Anais da Academia Brasileira de Ciências no intuito de precaver futuros autores.

Além da lista Beall, uma lista negra de editoras e revistas predatórias, há inúmeros critérios pelos quais se pode reconhecer que se trata de uma revista predatória. Muitas vezes, não consta o nome do editor ou são fornecidos nomes de pessoas sem formação científica. Frequentemente os nomes de cientistas proeminentes são simplesmente listados sem o seu conhecimento. O procedimento não é transparente.

Os custos, por vezes elevados, são anunciados imediata- ou tardiamente, a depender da estratégia predatória. Fatores de impacto e listagens em índices respeitáveis são frequentemente falsificados ou as revistas e artigos são promovidos por procedimentos de autocitação. Artigos que já foram publicados também são aceitos e muitas vezes os artigos são publicados independentemente do seu conteúdo e qualidade. Assim, há muitos exemplos de publicações absurdas ou de qualidade medíocre (Sanderson, 2010).

A Infiltração da Ciência

Na Sérvia, a infiltração destas revistas começou em 2007. O Estado aprovou novas diretrizes para o recrutamento e promoção de cientistas – de doutores a professores em tempo integral -, que tinham como requisito publicações em periódicos internacionais. Isso era novidade. Muitos pesquisadores sérvios não tinham experiência com essas publicações, o que levou os cientistas sérvios a gradualmente confiar em periódicos que eram publicados rapidamente por uma “pequena” taxa.

As duas primeiras revistas que tiveram o instinto para este novo campo de negócios foram “Technics Technologies Education Management” (TTEM) e “Health-MED”. Foram publicadas por uma família na Bósnia e Herzegovina. Começaram como uma revista séria, mas com a crescente procura a qualidade e os procedimentos de revisão pelos pares  tornaram-se cada vez mais questionáveis.

Elas foram, contudo, incluídas no Thomson-Reuters Journal Citation Report (JCR), juntamente com toda uma série de periódicos do Leste Europeu, que sinalizaram a sua respeitabilidade, e mais tarde receberam também um fator de impacto (FI). O critério central para a publicação de artigos de acesso aberto, no entanto, era que os autores fizessem os pagamentos. Outra revista predatória agia de maneira ainda mais direta: a “International Journal of Very Important Multidisciplinary Research (IJVIMR)”. Em 2012, quando o pesquisador Dragan Djuric apresentou um artigo falso gerado por computador, ele recebeu a confirmação já na manhã seguinte de que o artigo seria publicado se 290 euros fossem pagos imediatamente.

De acordo com suas pesquisas subsequentes, a taxa nesta revista predatória girava em torno de 250 e 1200 euros por artigo. A cada ano foram publicados cerca de 12 números regulares e muitos números especiais, com uma média de 70 artigos por número. A maioria dos artigos veio de autores sérvios. Desta forma, todo um cenário científico foi infiltrado por periódicos predatórios, cujo objetivo principal era o dinheiro.

De onde vêm os autores e quem são eles?

Diferentes estudos mostram que a maioria dos cientistas que publicam em tais revistas predatórias vêm dos EUA, Iran/Ásia, Nigéria/África. Este é também o caso das ciências econômicas (ver a análise de Wallace/Perri, 2018). Nesta área, entretanto, apenas 5% dos autores estão listados na RePEc como economistas (Research Papers in Economics, um projeto de acesso aberto fundado em 1997 com o objetivo de expandir a publicação científica em economia). Uma alta porcentagem dos autores não é, portanto, economista.

Fonte: Wallace & Perri 2018: 759

Segundo Shen/Björk, em 2015 um total de três quartos dos autores em revistas predatórias vieram da África e da Ásia. Os inexperientes e jovens cientistas constituíram a maioria. No entanto, também os cientistas experientes e com um grande número de publicações legítimas representavam uma parte menor, mas sólida, da autoria.

No Brasil os resultados foram diferentes (Perlin et al., p. 268). Autores experientes e com um elevado número de publicações (mais que cinco) e doutorado obtido no próprio país são mais propensos a publicar em revistas com práticas questionáveis. Allegretti (2016) chegou a reportar que até um ex-presidente da CAPES e um conselheiro do CNPq foram flagrados se valendo destes veículos de baixa credibilidade.

Quem cita os artigos?

Estes artigos também são citados. Embora nem todos sejam ruins, a qualidade média de tais publicações é significativamente inferior, segundo um teste cego realizado com avaliação de especialistas (Frandsen, 2017). Os autores que citam esses artigos representam a estrutura social e a origem regional dos autores que os publicam. São frequentemente cientistas jovens e inexperientes da África, do Sudeste e Sul da Ásia e da Europa Oriental.

 Fonte: Frandsen 2017: 1518

O que motiva os autores? A orientação pela quantidade na ciência

O principal objetivo do Qualis é avaliar a publicação científica de programas de pós-graduação, mas, inadvertidamente, sua utilização foi ampliada para a concessões de bolsas de pesquisa, promoções na carreira, admissões, entre outros. Segundo Barata (2016), “o Qualis Periódicos não é uma ferramenta que possa ser utilizada em avaliações do desempenho científico individual de pesquisadores, visto que não foi desenvolvido com essa finalidade” e “não deve ser considerado como uma fonte adequada de classificação da qualidade dos periódicos científicos para outros fins que não a avaliação dos programas de pós-graduação”.

No Brasil, o investimento privado em pesquisa é ínfimo, o investimento público vem sofrendo severos cortes e os partidos políticos, por exemplo, custam 4 vezes o investimento em pesquisa (Congresso em Foco, 2019). Uma vez que os recursos são escassos e a competição é alta, é muito difícil obter uma bolsa de pesquisa na academia brasileira sem publicação regular em periódicos categorizados pelo Qualis/Capes nos rankings superiores.

De acordo com Perlin et al. (2018), como revistas da lista negra constam em todas as categorias do ranking, inclusive as melhores, as recompensas por publicar nelas se tornam muito interessantes em comparação com revistas de maior prestígio para cada disciplina, que tomam muito mais tempo e são bem mais rigorosas no processo de avaliação. Além disso, na esfera privada, a análise de currículos passa por um crivo diferente e a quantidade de publicações pode também servir como fator determinante para contratação.

Se olharmos para estudos de caso sobre as revistas predatórias na Nigéria ou no Canadá, então – como no caso da Sérvia – a orientação quantitativa da produção nos sistemas de carreira das ciências é a razão da crescente disposição dos autores para publicar também nestas revistas.

Há sempre casos em que a revista predatória não foi reconhecida como tal e nela se publicou por engano. No entanto, muitas vezes há uma decisão racional por trás dela. Na Nigéria, por exemplo, de acordo com Omobowale et al. (2014), os fatores de impacto e a legitimidade das revistas são geralmente ignorados na avaliação das publicações do corpo docente.

As decisões sobre recrutamento e promoção são baseadas principalmente no fato de as publicações terem tido lugar fora da Nigéria. No caso do Canadá, um estudo de Pyne (2017) conseguiu mostrar, com o exemplo de uma escola de negócios canadense, que não foi a qualidade das publicações, mas apenas a sua quantidade, que teve um efeito significativamente positivo sobre o salário do pessoal acadêmico. A quantidade vence a qualidade e implica em estratégias de publicação ajustadas, conclui Pyne.

Portanto, estamos lidando com uma prática, por parte destes veículos, por vezes questionável e outras fraudulenta. Ao mesmo tempo, há comportamentos calculados por parte dos autores, no intuito de promover o próprio avanço. Uma vez que os sistemas científicos nacionais operam frequentemente com uma lógica de avaliação quantitativamente orientada, isto fomenta o “desvio” coletivo. Pode-se mais ou menos comprar as publicações e não é necessário trabalhar no sentido de percorrer e subir a longa ladeira de qualificação e avaliação contínua. Às vezes, porém, a pressão para publicar e fomentar o próprio currículo pode ser tão grande que há quem não pense duas vezes.

Fonte: Wikipedia Commons

O que podemos fazer?

A demanda por oportunidades e posições de qualificação científica tem aumentado significativamente em todo o mundo. Como professor catedrático, é possível receber mensalmente muitas consultas de doutorandos de todo o mundo pedindo supervisão em uma posição de doutorado.

No entanto, o número de vagas para pesquisadores e professores nas universidades não cresceu no mesmo ritmo. Embora as universidades não tenham problema para preencher as suas vagas – com diferenças específicas de cada área – há um aumento enorme na pressão competitiva sobre os candidatos e pouco podemos fazer a esse respeito.

A situação é diferente no que se refere à orientação quantitativa da produção. Os antídotos já estão parcialmente em vigor. O controle cuidadoso da qualidade de publicações e periódicos no sistema de carreiras científicas é muitas vezes suficiente para pelo menos conter o fenômeno.

A indexação de periódicos sérios, no entanto, nem sempre é confiável e muitas vezes injustificadamente exclusiva, mas elas fornecem pistas iniciais para avaliar as revistas em que a produção científica foi produzida. Só quando um controle meticuloso de qualidade se tornar novamente o princípio universal de recrutamento e promoção é que tais veículos não terão mais êxito.

Sob outro enfoque, mas a quem interessar, há quem argumente (Amaral, 2018) que todas as revistas/editoras são predatórias, mas a crítica é predominantemente direcionada aos jornais que não são de acesso aberto e à forma como funciona a indústria de publicações científicas.

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Referências

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Amaral, Olavo B. (2018), All publishers are predatory – some are bigger than others, Anais da Academia Brasileira de Ciências (2018) 90(2): 1643-1647;

Barata, Rita de Cássia Barradas (2016), Dez coisas que você deveria saber sobre o Qualis, RBPG, Brasília, v. 13, n. 1, janeiro/abril;

Cordeiro, Yraima; Lima, Luis Maurícia T.R (2017), Publish and perish in the hands of predatory journals, Editorial Note, Anais da Academia Brasileira de Ciências (2017) 89(2): 787-788;

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Kolata, Gina (2017): Many academics are eager to publish in worthless journals, 30 de outubro de 2017, https://www.nytimes.com/2017/10/30/science/predatory-journals-academics.html;

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