Opinião & Análise

Lava Jato

Quem avisa amigo é

Um jantar e os conselhos de Domenico de Masi

Crédito @Pixabay

Uomo Avvisato Mezzo Salvato

(Expressão italiana para “um homem prevenido vale por dois” ou mais livremente “quem avisa, amigo é “)

 

O jantar na agradável residência romana dos amigos Susi e Domenico De Masi, além das delícias e gentilezas habituais, tinha um desafio: mostrar que o Brasil não havia perdido o rumo.

Domenico De Masi é um sociólogo, professor emérito de Sociologia do Trabalho da Universidade “La Sapienza” de Roma. e autor prolífero que simplesmente ama o Brasil, como poucos, acredito eu. Domenico consegue ver em nosso caminho pela vida, nossa cultura, aspectos relevantes que, devo reconhecer, muitas vezes me passam ao largo. Observa nossas fortunas, como ter tido um imperador inteligente e antenado que nos levou a uma República, sem a necessidade de uma guerra. Celebra nossa sociedade imprecisa, apimentada de um multiculturalismo nascido meio por descaso, mas com todas as possibilidades para que alguns inventores criassem o que hoje chamamos de Brasil. Sim, inventores, como já mostrou o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, em recente livro e série televisiva.

Domenico observa com indisfarçável orgulho que a maior parte de nossos inventores são sociólogos como ele, tais como como Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior e por fim o próprio Fernando Henrique. Observa que é raro encontrar em um mesmo país, em duas gerações subsequentes, gente tão relevante. Olha a nossa arquitetura com o mesmo carinho que tem por Oscar Niemeyer, seu amigo, a quem levou para Ravello na Costa Amalfitana para fazer um auditório, enfrentando ali os provincianos locais.

Domenico dispara à queima-roupa: por que razão vocês decidiram trocar os dois anos finais de um governo medíocre por uma crise profunda? Junto com a China o Brasil conseguiu deixar de ser percebido como um país do terceiro mundo. Não há preço que se possa pagar por isso. Por que o risco de pôr tudo a perder?

Explico que o governo não tinha mais base no Congresso, perdeu as condições mínimas de governabilidade, não tinha como aprovar nenhuma iniciativa para enfrentar o problema econômico e por fim estava enredado com a Justiça, com boa parte de seus líderes respondendo ou sendo inquiridos em operações policiais ou processos judiciais. Domenico e Susi são napolitanos e são compreensivos. Conhecem o mundo da política e a Itália, enfim, não é tão diferente do Brasil. Eles visitam nosso país algumas vezes em cada ano e conhecem quase todas as regiões. Sabem quem somos e como funcionamos.

Têm boa ideia do nosso jeitinho e gostam do estilo. Conhecem boa parte dos políticos brasileiros pessoalmente. Nossos amigos não sabem o que é uma pedalada fiscal e nem compreendem o que seja um juízo político. Não são diferentes da maioria de nosso povo. Explico com paciência. Temos tempo.

Domenico escuta e pergunta: mas como pode um país que teve a fortuna de ter um presidente como Fernando Henrique, que soube organizar a economia, e foi sucedido por Lula, que soube distribuir a riqueza, se deixar embaralhar por um processo ridículo como esse? Pouco importa se a justificativa política é legal, o processo político é incompreensível. Insisto que a lei é clara e ele insiste que a política é ainda mais clara.

“Vocês perderam a mão. Quando a perderam e por que a perderam são as questões em aberto e só vocês poderão responder”, diz ele. Vendo de longe, os grupos políticos liderados por Fernando Henrique e por Lula não são tão estranhos assim, nem no método e nem nos objetivos. Têm pequenas e importantes diferenças, mas se pode viver com elas. O que teria havido para condenar o país ao caos e o futuro a uma incerteza insólita? Seria uma compreensível atitude infantil, natural para um país que tem menos de 30 anos de democracia contínua e menos de 50 anos de regime democrático se somarmos todas as nossas experiências?

Pode ser, mas pode ser também um drama, uma absurda avareza, uma ganância desmedida de grupos políticos que preferem o desastre total a ter que dividir o poder com outros segmentos políticos.

“Vocês não acreditam em democracia com alternância de poder?” Defendo a estratégia em curso: precisamos sair do impasse e as ruas falaram mais alto do que nunca. O governo acabou por si só, o Congresso somente está seguindo as formalidades de praxe.

Domenico ataca o meu ponto. “No curto prazo se pode entender, mas me diga: quem assumiu o compromisso político de trocar esses dois anos pela perda de reputação junto a comunidade internacional? Qual o programa desse novo governo e quem é o seu fiador? O que pretende fazer a equipe do novo presidente, além de concluir o mandato popular consentido em 2014? Como explicar que um governo corrupto foi afastado mas o novo está envolvido nas mesmas operações investigadas pela Lava-a-Jato?”

A resposta é difusa. Os movimentos que suportam o afastamento do governo eleito não têm particular entusiasmo pelo vice-presidente também eleito. Domenico faz um vaticínio que me tira o sono: vocês têm que encontrar um gênio para eleger em 2018, alguém que esteja fora dessas operações judiciais, conheça o mundo político, mas não seja um de seus próceres, tenha respeito internacional, mas independência, seja inteligente, sensível e honesto. Impossível que não haja um entre os 200 milhões de brasileiros. Mas atenção: não se dêem ao luxo de perder outros 4 anos com um medíocre. Vocês não têm mais este tempo. Quem avisa, amigo é.

 


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