Opinião & Análise

Literatura

Quando Machado de Assis encontrou Epitácio Pessoa no Rio de Janeiro

‘Grande escritor, mas péssimo secretário!’, escreveu o ex-presidente da República sobre Machado de Assis

Crédito: Academia Brasileira de Letras/Divulgação

Nem peste nem epidemia. Falemos de outra coisa.

Em 15 de novembro de 1898, Epitácio Pessoa, então com 33 anos de idade, é nomeado Ministro da Justiça e dos Negócios Interiores pelo Presidente Campos Sales. Ficaria no cargo até 1901. Logo depois, seria indicado ministro do Supremo Tribunal Federal. A Justiça era, naquela altura, um superministério, cujas atribuições abarcavam, para além dos habituais temas jurídicos e legislativos, toda a área de saúde e educação nacionais.

Em dezembro de 1900, o jovem ministro é designado para um desafio adicional: responder, durante alguns meses, interina e cumulativamente, pelo Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, após o titular, Alfredo Maia, sair de licença.

Ao chegar no Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, Epitácio encontrou, como secretário ministerial, ninguém menos do que Joaquim Maria Machado de Assis. O Bruxo do Cosme Velho já era um intelectual sexagenário que trazia no currículo os êxitos literários de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899).

A Academia Brasileira de Letras havia sido fundada anos antes, em 1896, e Machado acumulava o secretariado com a presidência da ABL, eleito que fora por aclamação dos confrades. Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço, também trabalhava no mesmo Ministério.

A nova rotina era puxada: Epitácio costumava, pela manhã, dar expediente no Ministério da Justiça, onde dava conta de pautas como o projeto de novo código civil, a reforma do ensino e o combate à peste bubônica. À tarde, seguia para o Ministério da Indústria, onde o secretário Machado de Assis lhe fazia minuciosas exposições sobre cada tema da pasta, apresentando-lhe, em seguida, minutas literárias dos despachos.

O hiperativo paraibano, veraneando em Petrópolis para fugir do infernal calor carioca, desde logo não se deu muito bem com o temperamento de Machado de Assis, demasiado meticuloso, reservado e cerimonioso. Enfadado, Epitácio queria sempre apressar e abreviar as exposições machadianas daquela interinidade, a fim de adiantar o serviço e não perder a barca que o levaria até a estação ferroviária de onde pegaria o comboio para Petrópolis. Algumas vezes perdeu a segunda barca, só tomando a terceira e chegando à residência pretropolitana já tarde da noite.

Num dia de mais calor e menos paciência, disse de Machado: “Grande escritor, mas péssimo secretário!” Nos arquivos pessoais de Epitácio, há uma carta ao Dr. José Vieira, datada de abril de 1939, em que rememora o episódio:

“Via-me obrigado a descer todos os dias pelo trem da sete e meia e, às vezes, pelo das seis horas da manhã. Despachados os papéis do Ministério da Justiça, encaminhava-me eu, depois do almoço, para o da Viação, de cujo titular Machado era o secretário.

Reunido com certa morosidade o volumoso e variado expediente, levava Machado de Assis a peito trazer-me uma exposição verbal de cada assunto e ler-me em seguida todas as informações e pareceres da Secretaria. Isto me desfalcava sensivelmente o tempo reservado à Viação, tanto mais quanto o secretário, com certa dificuldade natural de expressão, acompanhava não raro a sua leitura de observações, comentários e argumentos próprios.

Sugeri-lhe o alvitre de ler eu mesmo os papeis mais importantes e levar comigo os demais, que eu examinaria nas quatro horas diárias de viagem a que estava obrigado. Não aquiesceu: era o sistema do ministro efetivo e a sua função de secretário. Pareceu-me mesmo que se sentiu um tanto melindrado, o que foi bastante para que não insistisse, preferindo a fadiga a que ia expor-me, ao risco de desgostar quem me inspirava tanta simpatia, respeito e consideração e criar uma situação de ressentimento entre mim e o ministro efetivo, meu colega e amigo.

Durante o tempo que substituí o Dr. Alfredo Maia, nunca pude voltar a Petrópolis pela barca das quatro horas. Mal podia alcançar a das cinco e meia, para chegar ali às oito horas da noite, verdadeiramente extenuado. O resultado foi que não pude imprimir ao expediente do Ministério da Viação a mesma rápida marcha do Ministério da Justiça.

É verdade que uma vez, em coversa, qualifiquei Machado de Assis, não de péssimo funcionário, mas de péssimo secretário. Esta qualificação, talvez um tanto severa demais, fundava-a eu na falta de método e na demora e confusão de que se ressentia a sua ação no preparo, exposição e despacho no expediente do Ministério da Viação, pelo menos durante os três meses que ali serviu como meu secretário.

Desnecessário é dizer que nesse juízo nenhuma intenção houve de envolver de qualquer sorte a reputação ou o caráter de Machado de Assis, por quem, como disse, sempre tive a maior simpatia, consideração e apreço, antes, durante e depois do período em que trabalhamos juntos.”

Por certo o gênio fundador da Academia Brasileira de Letras, falecido desde 1908, não haveria de ralhar com o futuro presidente da república. Com sua reconhecida ironia, concluiu certa feita em “Iaiá Garcia” (1878): “Quando estimo alguém, perdôo; quando não estimo, esqueço”.