Opinião & Análise

Articulação

Atuação do PSL é difusa e desorganizada, mostram dados

Dados apontam para a dificuldade de organização do governo na Câmara

PSL
Encontro do presidente Jair Bolsonaro com a Bancada do PSL / Crédito: Marcos Corrêa/PR

A oposição ao governo é mais coesa do que a base governista e deputados do PSL atuam de forma difusa e desorganizada. A afirmação, comum nas últimas semanas para justificar as dificuldades enfrentadas por Jair Bolsonaro no Congresso, é confirmada por dados. Neste artigo, analisamos a nova Câmara como uma gigantesca rede de deputados conectados entre si.

Um deputado se conecta com outro na rede quanto apresentam uma proposta juntos. Pode ser um projeto de lei ou um requerimento, por exemplo. Até 14 maio, 494 deputados da nova legislatura já tinham coautorado pelo menos uma proposta. Eles aparecem na imagem acima, em que cada nó é um deputado: as cores representam os partidos de cada um em uma teia com mais de 28 mil conexões!

Quanto mais projetos em comum, mais pertos na imagem aparecem dois deputados. Analisemos separadamente na rede PT (em rosa) e o PSL (em verde). Eles são os maiores partidos e lideram, respectivamente, a oposição e a base.

A coesão do PT é visível. A massa cor de rosa se concentra em uma parte da imagem, com os pontos bastante agrupados e um fluxo intenso de conexões. O mesmo não acontece com os pontos em verde, relativos ao PSL: eles estão mais à direita, mas muito mais dispersos. Em geral, as conexões entre os pontos também são menos intensas.

Perceba que PT e PSL possuem número muito parecido de deputados. Na rede, são 55 do PT e 51 do PSL. A organização deles é que é marcadamente diferente.

Por exemplo, no PT, os campeões de parcerias são José Guimarães e Paulo Teixeira, que já assinaram juntos 23 proposições na nova legislatura. No PSL, o recorde é bem menor, de somente 4 proposições juntos (empate das duplas Dr. Luiz Ovando e Coronel Tadeu; Nelson Barbudo e Caroline de Toni; e Nelson Barbudo e Aline Sleudjes).

De fato, a coesão evidente na imagem pode ser mensurada por um indicador de densidade. Ele mostra, para um grupo, a quantidade de conexões existentes entre os seus membros dentre a quantidade total de conexões possíveis. Em um grupo em que todos se conectam, a densidade é de 100% (caso de um partido em que cada deputado assinou junto uma proposta com cada correligionário pelo menos uma vez). Em um grupo em que ninguém se relaciona, a densidade é de 0%. O gráfico abaixo mostra os índices de densidade para a nova Câmara.

O PT tem uma densidade altíssima: 92%, perdendo apenas para o PSOL (100%). É mais do que o dobro da densidade do PSL, de 38% – uma das menores da Casa.  Em que pese o viés de ser uma bancada grande, o PSL surge menos coeso até do que partidos famosos por isso, como os mais associados ao Centrão (PR, PP) e o MDB.

Outros partidos de esquerda também aparecem com índices bastante altos, sugerindo uma oposição organizada, como o PCdoB e o PSB.

Abaixo, damos um “zoom” na nuvem dos dois partidos. Desta vez, removemos as arestas que conectam os deputados para priorizar a visualização do nome dos parlamentares – lembrando que quanto mais próximos na imagem, mais juntos trabalharam até agora.

A coesão do PT é tão alta que não há lideranças óbvias. Um indicador de centralidade revela um empate dos deputados Alencar Santana Braga; Alexandre Padilha; Frei Anastácio Ribeiro; João Daniel; José Airon Felix Cirilo; Nelson Pellegrino e Pedro Uczal.

Já no caso do PSL, são mais conectados, em ordem, os deputados Coronel Armando; Luiz Philippe de Orleans e Bragança; Dr. Luiz Ovando; Coronel Tadeu; Dra. Soraya Manato e Carla Zambelli.

A título de ilustração, perceba o contraste com o PSOL, destacado na imagem. Trata-se de bancada com coesão de 100%, em que os pontos dos parlamentares quase se sobrepõem. Por exemplo, a dupla Ivan Valente e Sâmia Bomfim já assinou 62 proposições juntos.

Vale frisar que mesmo propostas simples, como requerimentos para realização de audiência pública, são contados na amostra. Assim, ainda que fosse natural que um partido governista apresentasse menos projetos (porque se concentra em apoiar a agenda do Poder Executivo), os dados apontam para a dificuldade de organização do governo na Câmara. Cabe ressaltar que muitos deputados do PSL são estreantes na própria política, o que explicaria o resultado por simples inexperiência. Levantamentos futuros podem apontar se há curva de aprendizado ou se as dificuldades permanecem.


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