Opinião & Análise

Política

Presidente, qual é o plano?

Maior autoridade pública brasileira é cada vez mais líder de seu próprio grupo e menos representante de toda a nação

Foto: Lula Marques/Fotos Públicas

O Brasil está uma confusão enorme. O radicalismo, o ataque aos diferentes, a inexistência de um projeto, de um desejo de Nação, aliados à falta de racionalidade estão por toda a parte. Fazem parte dessa cena o próprio Presidente da República, seus familiares e suas principais referências no campo das ideias, notadamente um personagem estranho à cultura brasileira, Olavo de Carvalho, que aparentemente os lidera.

Esse grupo dá a impressão de estar enclausurado nas redes sociais. Nessa espécie de bolha eles são permanentemente reforçados por seus iguais. Fortalecidos, eles atacam, com ações confusas e contraditórias, todos aqueles que se opõem ao seu posicionamento, mesmo que a oposição seja pequena, circunstancial. O desconhecimento de direitos legítimos nos outros e o desrespeito pelo que é diferente parece ser a tônica.

A maior autoridade pública brasileira não faz qualquer esforço para criar empatia com os demais grupos sociais e suas representações políticas. O Presidente de todos os brasileiros é cada vez mais líder de seu próprio grupo e menos representante de toda a Nação.

Do ponto de vista pragmático isso é totalmente insensato. Bolsonaro foi eleito com uma agenda de quatro pontos. O primeiro seria derrotar a esquerda, em especial o PT de Lula e seus aliados. O segundo ponto seria a retomada do crescimento econômico, a partir de uma agenda liberal conduzida pelo Ministro da Economia, Paulo Guedes. O início dessa cruzada é a aprovação da reforma da previdência, que permitiria ao estado economizar 1 trilhão de reais em 10 anos.

Para tanto o governo precisa construir uma ampla maioria no Congresso, que vai além de sua base política e que permita alterar a Constituição Federal. Essa tarefa tem sido difícil em qualquer lugar do mundo. A despeito disso, o Governo Bolsonaro trata com certo desdém e arrogância a negociação política. Faz pior, cria confusão por conta própria. Desentendeu-se com um aliado que seria precioso, o Presidente da Câmara, Dep. Rodrigo Maia, entrou dividido na disputa pela Presidência do Senado e, pior, tem dificuldades em conseguir a unanimidade de seu partido para apoiar a reforma.

O terceiro ponto da agenda é o combate à violência e à corrupção, tarefas designadas ao Ministro da Justiça, o ex-juiz da Lava Jato, Sérgio Moro. Com agilidade, o Ministro Moro encaminhou ao Congresso Nacional um pacote de medidas legislativas, mas o tema aguarda sua vez de ocupar a cena política. Não é provável que o Congresso tenha fôlego para tratar desses dois temas simultaneamente. Bolsonaro deverá decidir em que ordem os dois assuntos serão examinados e tudo indica que Paulo Guedes tem a precedência. Pior para Moro, que sem ter com quem negociar decidiu gastar parte de seu tempo nas redes sociais.

O quarto ponto é a revolução de costumes, empacotada como combate ao marxismo cultural. O governo empenha-se em desmontar o aparato ideológico de esquerda que, insistem eles, estaria partidarizando o ensino fundamental, médio e universitário, conduzindo nossa política externa com demasiada ênfase em acordos multilaterais e destruindo a família, ao levar o estado a aceitar o amor entre pessoas de mesmo sexo, entre outros temas.

O problema é que essa agenda governamental é assíncrona e tem contradições internas. Enquanto o primeiro ponto da pauta foi realizado com a posse de Jair Bolsonaro, os dois seguintes estão bastante confusos e dependem do Congresso, logo da política.

O quarto ponto da agenda parece ocupar toda a atenção do grupo presidencial que, inclusive, dispara severas críticas a membros do governo que teimam em pedir maior pragmatismo nas ações do Governo do Brasil. Quase diariamente o grupo olavista cria um fato político que distrai a opinião pública e mais ainda os operadores da política.

É difícil tentar entender, somente pelas categorias da sociologia política, as razões desse comportamento destrutivo. O maior prejudicado com um retumbante fracasso do novo governo será, sem dúvida, a sociedade brasileira, mas logo depois serão os seus dirigentes maiores, o Presidente à frente de todos.

Sempre que uma atitude irracional prevalece é bom procurar causas mais profundas para explica-la. Não estaria o grupo presidencial realizando um mecanismo psíquico primitivo, onde aspectos do bom e do mau ficam dissociados? Nesse mecanismo não há unidade do ser, tudo o que é mau é transferido para o outro, enquanto tudo o que é bom fica com ele. Esse é um mecanismo infantil, próprio do início da vida, antes que se integre o ego, e os aspectos do bom e do mau possam ser percebidos como fazendo parte da mesma pessoa ou do mesmo grupo.

O grupo olavista tem demonstrado este funcionamento primitivo e frequentemente projeta sua agressividade, confusa e contraditória, nos outros. É fato que esse grupo seria irrelevante se o Presidente da República dele não fizesse parte. O que chama atenção é que há características comuns em suas atitudes. Eles são pura descarga, não parecem pensar, tudo é ação sem reflexão mais profunda e sem avaliação de efeitos indesejados.

A nossa sociedade é complexa e numerosa, temos importantes diversidades, temos raízes culturais formadas por distintas fontes, onde aparecem belezas, grandezas assim como iniquidades e maldades. Não é possível liderar uma sociedade sem explicitar o que se quer construir. Também não é possível liderá-la sem dominar a pulsão pela destruição. O Presidente afirmou que veio para destruir a herança da esquerda e só isso já bastaria. Não basta. Quem vai dizer se o ímpeto destrutivo vai predominar sobre a negociação e o entendimento construtivo serão as nossas instituições que, sabemos todos, são a regra do jogo democrático.


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