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‘Política e antipolítica – A crise do governo Bolsonaro’, uma resenha

Uma reflexão sobre os elementos que levaram à crise política atual e sobre as suas possíveis consequências

Bolsonaro avaliação
Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante videoconferência com Paulo Skaf, Presidente da Federação das Indústrias do estado de São Paulo (Fiesp) e empresários. Crédito: Marcos Corrêa/PR

O Brasil não é para amadores. A frase, há muito repetida em tom de zombaria crítica pelos brasileiros, talvez tenha que ser reformulada num futuro próximo.

Afinal, se hoje há um consenso entre cientistas políticos e outros profissionais dedicados à análise política, ele se dá acerca da dificuldade de prever como o complexo cenário atual poderá evoluir, dadas as variáveis envolvidas e as particulares características de alguns atores do processo.

Todavia, e ainda que entender o Brasil seja uma dura tarefa até mesmo para os profissionais, quando um dos nossos mais importantes cientistas políticos se propõe a enfrentar o desafio de analisar a conjuntura e apontar caminhos, é obrigatório atentar para o que ele tem a dizer.

Esta já seria razão suficiente para ler o mais recente livro de Leonardo Avritzer, Professor Titular de Ciência Política na Universidade Federal de Minas Gerais, intitulado “Política e antipolítica – A crise do governo Bolsonaro” (Editora Todavia). Mas não é a única.

A obra desenha um quadro dos principais elementos da atual conjuntura, como se entrelaçam e a que saídas eles podem nos conduzir. Essa organização, como passaremos a ver adiante, ajuda o leitor a formar a visão do todo, a reter os fatos que importam, a compreender por que as saídas apontadas são realmente as mais prováveis.

E este é o outro motivo pelo qual já adianto recomendar a leitura, pois na surreal “House of Cards” brasileira, a temporada 2020 tem ocorrido numa velocidade que dificulta até mesmo ao mais dedicado maratonista de série se lembrar e entender todos os aspectos da trama.

O livro é dividido em uma introdução e cinco capítulos, nominados “Atos” pelo autor numa referência velada ao teatro. A metáfora sutil parece nos alertar para um dado importante nos elementos da crise do governo Bolsonaro: eles podem ser pensados como estórias paralelas que se desenvolvem em tempos diversos e de forma relativamente independente, mas que acabam por se entrelaçar e compor uma única estória maior.

De fato, as estórias do lavajatismo, do sentimento antipolítica e da destruição/reconstrução do centro político, da busca dos militares pelo retorno ao centro da arena política, das consequências da pandemia da Covid-19, não têm uma autoria comum, mas o livro de Avritzer não nos deixa dúvida de que a estória da crise do governo Bolsonaro é um amálgama de todas elas.

O primeiro Ato, numa sequência que não se pretende cronológica mas sim organizadora da complexidade da conjuntura atual, é a estória da pandemia. O tratamento irresponsável da crise epidemiológica pelo presidente Bolsonaro é sublinhado com fatos e dados pelo autor desde já a Introdução do livro.

Merece destaque também a apresentação da complexidade do enfrentamento a que a estratégia bolsonarista se propôs, na medida em que significou negar a ciência num momento em que a mesma passou a ser revalorizada, em que conflitou com importantes bases sociais de apoio ao bolsonarismo, e, por fim, colocou em segundo plano a clivagem moralizante que ordenava a disputa do bolsonarismo  com seus opositores porque a disputa (simbolizada sobretudo pela ascensão e queda do ministro Mandetta) passou a ocorrer no campo da ciência.

Avritzer aproveita o gancho para destacar que a pandemia abriu uma janela de oportunidade para que finalmente o discurso de antipolítica (na ofensiva desde 2013) começasse a ser enfrentado, e assim conecta essa estória com o seu Ato II.

A negação de ações típicas da política, como a negociação ou a coalizão, cimentou o discurso antipolítica do lavajatismo, num processo de corrosão de legitimidade institucional e do ambiente político do qual o bolsonarismo claramente foi beneficiário direto.

Avritzer aborda os elementos autoritários do lavajatismo e o simbolismo da aliança entre Sérgio Moro e Bolsonaro, e, de forma arguta, discorre sobre como o rompimento desse casamento de conveniência tensionou ainda mais, para a militância, os custos de adesão à estrutura de ratificação acrítica ao bolsonarismo nas redes sociais, novo campo de disputa entre os dois ex-aliados.

O Ato III busca situar historicamente momentos relevantes da trajetória percorrida pelos militares desde sua saída do poder em 1985, até seu retorno em 2018, ainda que a galope do bolsonarismo.

A reflexões mais importantes são, primeiro, sobre o peso representado pela ausência de um processo de justiça de transição adequado, que fechasse de vez a porta aos militares acerca de qualquer pretensão de protagonismo ou ingerência na arena política; a outra, sobre o enorme desafio gerencial posto aos militares, em especial no enfrentamento da pandemia, mas também no destino como um todo do governo Bolsonaro, uma vez que suas imagens estão muito associadas.

O Ato IV aborda o papel do centro democrático, dizimado pelo salvacionismo antipolítica lavajatista. Avritzer destaca a centralidade política que a Fortuna conferiu ao DEM como um dos elementos para a possível reconstrução desse centro democrático.

Embora aponte corretamente para a necessidade de reconectar a esquerda a este campo, deixa, a meu ver, de problematizar mais profundamente porque isso não tem sido buscado com verdadeiro afinco por forças do campo democrático conservador, exceção feita a um discreto aceno do governador Doria, lembrado pelo autor.

Mas a estória contada nesse Ato tem seu ponto alto no diagnóstico de que a disputa entre o autoritarismo bolsonarista e as tentativas de reabilitação do centro democrático se encontra numa situação de “equilíbrio instável”, para cuja resolução, de um modo ou de outro, o fator militar jogará um papel decisivo.

O Ato V ensaia uma estória a ser contada: o pós-bolsonarismo. Aqui ele se reconecta com um propósito que o livro busca cumprir e que se enuncia expressamente já em sua introdução: “qual o futuro do bolsonarismo, se é que ele tem algum?”.

Discorrendo sobre os cenários, o autor nos aponta as saídas possíveis deste quadro de “equilíbrio catastrófico” gramsciniano que refere: a solução cesarista ou a solução democrática. Avritzer enxerga ainda uma possível via terceira via, em especial se o quadro de equilíbrio político entre os polos persistir: a preocupante variante cesarista na qual se associam o fator militar e o uso político das instituições policiais.

Não discorrerei mais sobre esses cenários porque cabe ao leitor recorrer ao livro ora resenhado para apurar sua compreensão. O que posso fazer é apontar a pertinência do debate e a utilidade da reflexão empreendida no livro para o entendimento do Brasil em tempos bolsonaristas.