Opinião & Análise

resenha

Percursos migrantes antes do voto popular

Livros recentes reúnem sagas familiares de políticos

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Crédito: Unsplash

Casas legislativas e sedes de governo são picos de trajetórias variadas. E todas começam bem antes das urnas, como lembram os livros “Brimos: imigração sírio-libanesa no Brasil e seu caminho até a política” (Fósforo, 2021), de Diogo Bercito, e “O que será: a história de um defensor de direitos humanos no Brasil” (Objetiva, 2019), de Jean Wyllys com Adriana Abujamra, que relatam migrações bem-sucedidas antes de chegadas ao poder político.

“Brimos” tece histórias de famílias de raiz sírio-libanesa como Haddads, Kassabs, Malufs e Temers (o plural frisa distinções internas, como “Buddenbrooks”). Fernando, Gilberto, Paulo e Michel não formaram seus clãs políticos, como os Maias (RJ e RN) e Bolsonaros, e compartilham mais que o domicílio eleitoral em São Paulo: seus avós ou pais cruzaram o Mediterrâneo e o Atlântico, na primeira metade do século XX, ansiando vidas melhores.

Além de ir a lares desses ancestrais, o autor do blog Orientalíssimo e ex-correspondente em Jerusalém e Madri da Folha de S. Paulo fez mais de 40 entrevistas e leituras abrangentes sobre essa imigração. A primeira parte do livro trata do fluxo migratório, realçando suas causas – como agruras econômicas no campo e choques envolvendo religiões – e efeitos tangíveis, como a criação de redes de mascates e a construção do Hospital Sírio-Libanês, aberto em 1965, 44 anos após criada a sociedade de damas para arrecadar fundos. É um de seis hospitais paulistanos fundados por imigrantes, como a Beneficência Portuguesa.

Sagas familiares com frutos na política são revisadas além dos perfis de líderes já citados. Guilherme Boulos, Jandira Feghali, sobrinha de uma cantora icônica no Líbano, e Ricardo Izar Jr. estão entre os ouvidos pelo doutorando em História na Georgetown University. Para Kassab, parente de um santo do século XIX, o sucesso de sobrenomes libaneses na política é natural como na medicina: seria pelo “enorme número de libaneses no Brasil”.

O sociólogo Oswaldo Truzzi, no livro “Patrícios: sírios e libaneses em São Paulo”, atribui a alta participação a um trio de fatores: a mobilidade social via comércio, o investimento na educação e a dispersão de libaneses no interior. Já o professor Hussein Kalout, outra referência de Bercito, vê razões na cultura – o valor dado pelos imigrantes a histórias de sucesso – e na história: sua chegada coincidiu com a formação do tecido político no país.

Bercito cita curiosidades nas linhagens de nomes das esquerdas (o avô libanês de Boulos era chamado “turco louco” ao dar rasantes de avião no interior paulista, por exemplo) e direitas (o pai de Maluf poderia ter seguido o irmão em Boston, mas Salim preferiu São Paulo e começou vendendo cimento em carroça puxada por burros). Mesmo casos ordinários de lares árabe-brasileiros são reavivados, aproximando o leitor da amostra ali retratada.

Como outros trabalhos, “Brimos” ajuda a desfazer certa autoimagem mítica de vivermos num país sem xenofobia – vide um jornal mineiro ter proposto o fechamento de portas aos “turcos” para deter o “vírus de um povo indolente”. Quanto disso ecoa ainda hoje?

Depois de abdicar do terceiro mandato de deputado federal por ameaças de morte, Jean Wyllys reuniu memórias com a também jornalista Adriana Abujamra e mostrou como seu ativismo se vincula às suas migrações. O livro vai da infância em Alagoinhas (BA) ao exílio em Berlim (hoje é doutorando em Ciência Política na Universidade de Barcelona).

Sua parte “Origens” narra episódios como o primeiro ato de discriminação a Wyllys, que aos seis anos ouviu um “viado” no bar ao pedir “seis pães” com concordância exemplar. Filho de uma lavadeira e um pintor de carros fã do Aero Willys, adotou a biblioteca da casa paroquial e iniciou-se na política em atividades da Igreja Católica ligadas à Teologia da Libertação. Após cobrar o bispo pela omissão da igreja com injustiças a homossexuais (já se via como um), o então coroinha afastou-se do altar e depois aderiu a um grupo teatral.

Foi de aprendiz da Caixa a aluno do ensino técnico aprovado em dois estágios – um mais bem pago em Alagoinhas, onde sentia impossível viver sua homossexualidade, e outro em Salvador. Na UFBA, onde fez Jornalismo e mestrado em Letras e Linguística, entrou se sentindo “caipira em meio aos metropolitanos” e pesquisou narrativas de presidiários do Carandiru sobreviventes ao massacre de 1992. Lecionava num curso de Comunicação até entrar no Big Brother Brasil 2005 e sair dele vitorioso e porta-voz da militância LGBT.

O livro expõe marcos do ativismo de minorias sexuais no país, mas uma contextualização maior teria somado ao foco microhistórico. A Parada Gay paulistana o cativa por afetos LGBTs às claras num Brasil violento na homofobia, mas Wyllys não a isenta da crítica por perder o “caráter político reivindicatório para se contentar em ser um encontro festivo”.

Radicado no Rio de Janeiro, tomou como um recado receber três convites (ACM Neto, Aloizio Mercadante e Heloísa Helena) para entrar na política após o BBB. Viu resistências a seu nome no PSOL, mas virou um de seus três deputados em Brasília em 2011. Wyllys comenta bem a pauta religiosa e ataca a homofobia institucional no Congresso, como em projetos de lei como o pela dita “cura gay”. “A política é a arte do possível, mas tudo tem limite”, diz, admitindo não dialogar com apologistas da tortura, estupro e ódio. As provocações o levaram a seu cuspe em Jair Bolsonaro na votação do impeachment, em 2016.

Para evitar ter o destino da vereadora Marielle Franco, Wyllys saiu do país após a Polícia Federal não dar atenção à escalada de ameaças. Daí o travo amargo do final aberto de “O que será”. Junto a “Brimos”, tal leitura acentua como muitos avanços foram paralelos a inegáveis recuos. Outrora país de imigrantes, o Brasil tem vivido um êxodo crescente. Que emigrantes sejam cada vez mais por escolha como Bercito, e não casos como o de Wyllys.