Opinião & Análise

Fake News

Pelo direito à segurança digital: análise de ‘a máquina do ódio’

Livro-reportagem focaliza crescente risco global nas redes (anti-)sociais

Pelo direito à segurança digital: análise de 'a máquina de ódio'
Patrícia Campos Mello. Crédito: Wikimedia Commons

Autora de boas reportagens investigativas no Brasil e no exterior, a jornalista Patrícia Campos Mello virou vítima do que bem nomeou “assédio sexual on-line em massa”, após o presidente da República bradar em público, em fevereiro passado, que a repórter “queria dar o furo a qualquer preço contra mim” (ela investigara a compra de disparos massivos de WhatsApp em prol de sua campanha, fato que, se provado, sujeitaria sua chapa à cassação, já que empresas não podem financiar candidaturas).

Ter vivido tal experiência sem paralelos na teia das redes sociais deu à repórter uma autoridade ainda maior para os relatos e alertas de seu livro “A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital” (Companhia das Letras). A autora faz um trabalho sólido e crítico sobre um  desafio central do que uns chegam a chamar de “era da desinformação”: a insegurança digital, difícil de lidar e que elimina limites de antes entre as vidas pública e particular (recentes textos seus são aproveitados em parte, ganhando nova luz nesse conjunto que os amplifica).

O livro pode ser lido como uma reportagem de fôlego sobre a violência de usuários de redes sociais – de chefes de Estado a indivíduos ocultados pelo anonimato – contra outros usuários ou não-usuários. Quem está fora de uma rede pode se ver nessa arena de sacrifícios, ou melhor, de “assassinato de reputações”. Entre os atos violentos, são realçadas as fake news, com tudo de fake e nada de news, como é bastante sabido (tão sabido quanto ignorado, infelizmente). A face sombria das redes sociais tem sido foco de documentários como “Privacidade hackeada” (2019) e “O dilema das redes” (2020).

“A máquina de ódio” não é o primeiro testemunho de jornalista alvo de violência nas redes.

Em “O que aprendi sendo xingado na internet” (2016), Leonardo Sakamoto já realçara a onda de intolerância em voga e buscara as raízes do linchamento virtual e meios de contê-lo. O livro da jornalista da Folha de S. Paulo comprova que o ódio visto e vivido por seu colega do UOL explodiu de vez. Não esperemos mais livros de violentados digitais. Autoridades precisam reagir? Claro, pois o Estado deveria deter o monopólio da violência.

Além de revelar engrenagens a serviço do ódio e seus disseminadores, Patrícia Campos Mello propõe reflexões sobre a segurança digital. Seus tópicos incluem o contato entre jornalistas e os públicos (há até um bom clamor à maior transparência do trabalho jornalístico), o viés de confirmação (tendência a aceitar mensagens alinhadas a suas crenças) e ataques de líderes políticos contra jornalistas em ação – e que, em capitais e municípios do interior, viram alvos de comentários jocosos sobre seu físico e recebem ofensas à honra e ameaças online que não raro migram para fora da vida digital.

“Quando um ataque vem do topo da hierarquia, ele funciona como uma autorização”, ressalta a autora no capítulo “Assassinato de reputações: uma nova forma de censura”, talvez o melhor. “Há casos de misoginia em câmaras de vereadores de cidades pequenas e com jornalistas de veículos independentes.”

Em meio a tantos recados de Patrícia Campos Mello, algo nas linhas e entrelinhas me parece urgente: os tempos atuais nos cobram marcos legais que deem conta das redes sociais como novos canais de violência simbólica – e que às vezes se espraia em violência física. O livre trânsito global de um receituário governamental de propagação do ódio está entre os diversos sinais de alerta para a sociedade civil e atores do Estado e mercado – mídia livre, inclusive – não ficarem inertes enquanto o quadro só se agrava. Que não precisemos de mais violações de direitos para atentar para a relevância de efetivar o respeito à segurança digital.


O voto de despedida do ministro Celso de Mello no STF e a mudança de regimento interno da Corte envolvendo julgamentos da Lava Jato são os assuntos discutidos no episódio 38 do podcast Sem Precedentes. Ouça:

 


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