Opinião & Análise

Artigo

O feminicídio de Marielle e o presidente da República

Bolsonaro não cansa de expor seu desprezo a uma mulher que tomou para si um lugar tipicamente ocupado por homens

Marielle
Ato na escadaria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) marca um ano da morte da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes. Crédito Tomaz Silva/Agência Brasil

Nada do que Bolsonaro disse em seu discurso após a demissão de Sérgio Moro foi aleatório ou desconexo. O pronunciamento girou entre repetições e antecipações de defesas quanto aos crimes e demais ilícitos que rondam sua família. Comparou a tentativa de homicídio que sofreu com o feminicídio de Marielle Franco porque sabe que os dois crimes tiveram consequências políticas.

Não há nada que indique que o denunciado Adélio dos Santos tenha agido em uma ação coordenada, seguindo ordens de quem tivesse interesse em alterar o resultado das eleições pela morte de um candidato com chances de vitória. Difícil imaginar o que a PF perderia se tivesse encontrado provas de um crime encomendado, de uma ação mais sofisticada. Ao contrário, identificar razões políticas revelaria a capacidade e a importância da instituição, principalmente porque, ao final, Bolsonaro foi eleito.

Em termos processuais, consequências políticas de um assassinato são diferentes de motivações políticas. Bolsonaro, propositadamente, mistura as duas ideias porque tem medo da polícia, o órgão que investiga os motivos, a intenção, o dolo dos agentes do crime e não as consequências, sempre incontroláveis, que um assassinato pode trazer.

Embora em um caso Bolsonaro tenha sido vítima e no outro suspeito, trazer a tona um crime ainda não esclarecido demonstra a importância de Marielle Franco, o que reforça a tese que, por diversas vezes, tenho sustentado: Marielle sofreu um feminicídio não-íntimo. A denúncia feita pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro foi por homicídio, talvez a comparação entre os crimes durante um pronunciamento oficial do Presidente tenha deixado claro a imprecisão dessa tipificação.

“Não aguento mais ouvir sobre Marielle”, disse a fiel aliada de Bolsonaro, a Deputada Zambelli, no dia seguinte à saída do Ministro da Justiça. Mesmo os interesses partidários de Zambelli e o envolvimento de seu nome no entrevero entre esses dois homens, não reduz o choque de ouvir que uma mulher que exerce um mandato político não se incomoda com o assassinato de uma “colega”, outra mulher, representante política.

Longe de ser apenas um preciosismo ou a face feminista do punitivismo, insistir
na tese do feminicídio não-íntimo é importante para a igualdade de gênero na
política e para visibilização da violência que as mulheres que exercem mandatos
políticos sofrem por serem mulheres. O feminicídio não-íntimo é aquele que
acontece fora das relações domésticas, o crime é mais difícil de ser identificado
porque acontece na esfera pública, por homens que não têm uma relação prévia
com a mulher morta. Como o assassinato acontece em situações e lugares nos
quais as mulheres circulam menos, a dimensão discriminatória, ou seja, o
desprezo à condição de mulher é apagado.

Bolsonaro não cansa de expor seu desprezo a Marielle, uma mulher que tomou
para si um lugar tipicamente ocupado por homens e que foi morta porque tinha
o que mulheres não podem ter: poder político. Cada palavra do que disse o
Presidente transparece seu ódio. Ao fim, o que mais incomoda Bolsonaro é o
contrassenso de se ter uma nação que se importa mais com o feminicídio de uma
mulher do que com a facada sofrida por um homem, ainda que esse homem, seja
o “chefe supremo”.


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