Opinião & Análise

Artigo

O empreendedor navegando na tormenta da Covid-19

Algumas medidas sugeridas para o setor público que poderão ajudar nesse momento

Foto: Marcelo Seabra / Ag. Pará/ Fotos Públicas

Nós estamos passando por um momento sem precedentes, com uma pandemia global que implica diretamente na queda do desenvolvimento e crescimento econômico, gerando medo, incertezas sobre o futuro global.

Num primeiro momento, vimos uma série de ações e medidas de agentes públicos de saúde do mundo inteiro tentando evitar uma aceleração do número de infectados e mortos, e diversos agentes públicos buscando medidas para evitar uma freada ainda maior da economia, uma possível onda de demissões, e uma possível depressão econômica global.

No Brasil, o Banco Central do Brasil anunciou uma injeção de liquidez nos mercados de R$1,2 trilhão, o BNDES anunciou mais R$55 bilhões de injeção de liquidez e crédito para as empresas, e bancos públicos como a Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil também estão prontos para ajudar a financiar empresas, evitar demissões e maiores impactos na economia e na vida das pessoas. 

Por outro lado, um dos fatores que mais impressionaram nesse momento, foi a união do setor privado com o setor público, para tentar ajudar da maneira mais rápida e efetiva possível. Diversas entidades de classe, associações de empresas, se unindo, desenhando medidas para ajudar a destravar o crédito, evitar desemprego e fazer com que as empresas naveguem de forma mais tranquila por esse momento. 

Eis algumas medidas sugeridas por entidades para o setor público que poderão ajudar nesse momento:

  • Investimentos diretos do tesouro nacional, ou via bancos públicos, que viabilizassem novas operações de crédito para pessoas físicas e MPME’s através de fintechs. Hoje, a maior parte das fintechs operam com FIDC’s, e com o excesso de resgate devido às incertezas advindas do COVID-19, essa injeção em cotas Sub e mezanino, poderiam reestabelecer a liquidez no mercado de crédito para PF’s e MPME’s. 

  • Possibilidade de utilização do compulsório dos bancos múltiplos e instituições financeiras em empréstimos via fintechs que não possuem licença bancária específica. A análise de crédito e risco seriam compartilhados com as fintechs, e a obrigação de cobrança em caso de inadiplemento com as fintechs.

  • Aprovação dos critérios de elegibilidade para as fintechs que funcionem como canal de distribuição de empréstimos para os bancos públicos e privados (faturamento mínimo, ticket mínimo e máximo, prazo máximo, possibilidade de refinanciamento ou carência, taxa mínima de juros).

  • Bancos públicos e privados e agentes de fomento parceiros das fintechs aprovam o modelo de avaliação e risco de crédito das fintechs previamente, e as fintechs são responsáveis por reportar todas as informações inerentes aos processos e operações para manter a parceria, além de ter as solicitações de novas operações em prazo determinado – prazo médio é de 48 horas após comitê de crédito.

  • Em caso de inadimplência das operações de crédito distribuídas por essas iniciativas, as fintechs ficam responsáveis pelo processo de cobrança. 

Todas essas sugestões de medidas visam a aumentar e destravar a liquidez do mercado de crédito, permitindo com que as fintechs usem de sua capilaridade e flexibilidade de modelos de crédito e garantias para poder atender as empresas e tomadores na ponta final, algo que, infelizmente, nem sempre é possível via os modelos tradicionais.

Por outro lado, o empreendedor deve manter a calma nesse momento. Nesse período de incerteza algumas atitudes podem vir a calhar. Aproximar-se do cliente, evitando uma evasão, conceder algum tipo de benefício para seus clientes, manter ou reposicionar o time comercial para trabalhar com melhoria de experiência dos clientes, atendimentos. 

Muitos fundos de Venture Capital têm comentado com suas investidas que a palavra-chave nesse momento é runway – período de tempo que a empresa teria condições de manter sua solvência, assumindo que não será possível levantar capital num futuro próximo.

De forma simplista, um exemplo seria, se a empresa tem R$1 milhão no caixa, e queima R$100.000,00 por mês, a empresa teria 10 meses de runway -. Nesse sentido, existem algumas possibilidades de ações, que devem ser validadas com seus advogados e contadores, para gerar um fôlego de caixa maior nesse momento, como por exemplo, retenção salarial e redução de jornada de 20% a 25%, congelamento de bônus e remunerações variáveis, corte de ferramentas e sistemas dispensáveis, renegociação de prazo com fornecedores que tenham mais margem, estabelecimento de gatilhos, caso aconteça uma redução de x% de receita, haverá redução de y% nos custos.

Medidas como estas, podem ajudar a evitar demissões, mantendo a equipe unida e fazer com que a empresa saia mais fortalecida dessa tormenta. Além disso, existe uma linha do BNDES que financiará por até quatro meses, as folhas de pagamentos das empresas. Essa informação está disponível no site do próprio BNDES, com a lista dos agentes financeiros que poderão repassar as linhas emergenciais do banco. 

Por fim, vale lembrar, a crise não será para sempre, o mundo não vai acabar, os impactos serão grandes, sim, mas neste momento, a união, a serenidade, a solidariedade e liderança são os principais fatores de enfrentamento desta crise. Conversem com suas equipes diariamente, fale com seus clientes, mostre solidariedade, pois isso fará toda a diferença na condução dos negócios nesse período. Tenho certeza que tudo isso fará com que as empresas saiam da crise mais rápido e mais fortes.