Opinião & Análise

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Olimpíadas, Van Gogh e as reformas estruturais

Reforma da regulação do sistema financeiro é vital para prosperidade

O lema olímpico “Citius, Altius, Fortius” (mais rápido, mais alto, mais forte) busca ressaltar as grandes conquistas humanas. Conquistas atingidas por meio de doses homéricas de talento, esforço e dedicação. Contudo, trata-se de esforço e dedicação próprios de seres imperfeitos, como os Deuses gregos, cuja morada inspirou o nome do evento.

Assim, não raro os heróis olímpicos têm suas personalidades marcadas por defeitos virtuosos. Bernardinho e sua ira obstinada, Usain Bolt e sua soberba confiante, Rafaela Silva e sua teimosia persistente.

Essa tendência de associar defeitos da personalidade a qualidades é conhecida pela psicologia comportamental – campo que ganhou notoriedade nos últimos por seus estudos aplicados à economia (behavioral economics) – como “silver lining theory”. De acordo com os estudiosos, longe de ser uma teoria cientificamente rigorosa, essa tendência é vista como uma “lay theory”, ou seja, uma máxima/ crença do senso comum.

Não obstante, o impacto dessa percepção sobre a conduta das pessoas é real e foi objeto de um interessante estudo publicado em 2014 por Wernousky, Oettingen e Gollwtzer no conceituado Journal of Experimental Social Psychology. Em específico, o referido estudo partiu de excertos das correspondências do pintor holandês Vincent van Gogh a seu irmão, nos quais o pintor associava a seriedade e a criatividade que imprimia em seu ofício aos seus constantes surtos de insanidade, para formular uma hipótese.

Portanto, a hipótese investigada pelos autores foi que o fato de um indivíduo acreditar em uma silver lining theory para seus próprios defeitos faria com que esse aplicasse maior esforço no domínio das qualidades associadas aos seus defeitos. Após a realização de testes empíricos para verificar a validade de sua hipótese, os autores não só identificaram a prevalência desse tipo de “crença do senso comum” entre as pessoas, como também confirmaram sua hipótese. Ou seja, de fato quem acredita nessa correlação entre defeitos e virtudes tende a trabalhar de forma mais árdua para fazer valer essas qualidades.

Mas o que é que isso tem a ver com as reformas estruturais citadas no título deste texto?

Infelizmente, por ora, pouco mais do que aquilo que a psicologia comportamental chama de “wishful thinking” (por vezes traduzido como “pensamento desejoso”), que é o viés comportamental de acreditar que vai acontecer aquilo que você quer que aconteça.

Wishful thinking porque a tendência verificada no estudo citado foi apurada para indivíduos comuns, mas bem que poderia ser vista em nossos políticos. Isso especialmente no momento em que estamos vivendo, no qual a conjuntura econômica mundial oferece uma oportunidade substancial de crescimento – tal como expôs de forma especialmente talentosa meu colega de coluna Caio Lacerda de Castro esta semana – a uma grande economia em desenvolvimento, mas apenas se esta estiver com a casa em ordem.

E quando digo casa em ordem, obviamente faço referência às reformas estruturais. As reformas política, tributária, previdenciária, trabalhista e da regulação do sistema financeiro, longe de serem mero detalhe, são condições indispensáveis para a constituição de um ambiente institucional sólido, próspero e justo.

Isso porque, é impossível pensar em um país desenvolvido com: o alto grau de corrupção e o baixo grau de representatividade da nossa política; o peso e a complexidade kafkaniana dos nossos tributos; os inexplicáveis privilégios previdenciários de determinadas classes, oferecidos à custa de gerações que sequer estão nascendo (haja vista a baixa natalidade da população brasileira); uma legislação trabalhista que engessa a economia em servilismo aos sindicatos; e um sistema financeiro regido pela insegura combinação (como comprovam importantes ações judiciais em trâmite no STJ e no STF) de poucas, antigas e antiquadas leis e um labirinto de normativos infralegais – para o qual existem projetos amadurecidos, mas que lamentavelmente ainda não chegaram ao Congresso pelo fundamentado receio da refração política.

Desse modo, ficam aqui meus votos de que, inspirados pelos feitos heroicos dos atletas olímpicos e pelos perspicazes insights da psicologia comportamental, os nossos políticos sejam aptos a relacionar:

  1. O descaso ideológico dos nossos partidos, com o necessário pragmatismo;
  2. O oportunismo vil, com o aproveitamento eficaz da coalizão formada por força do impeachment;
  3. A ignorância sobre assuntos econômicos, com a humildade em reconhecer e aprovar os bons projetos (sobretudo aqueles advindos de ilhas de excelência, como o Banco Central do Brasil);
  4. A vaidade pessoal, com o ímpeto de efetivamente realizar algo de útil e duradouro para a sociedade;
  5. O nepotismo para com os filhos, com a preocupação com o futuro digno das próximas gerações.

Afinal, o país precisa desesperadamente de reformas sérias se quiser deixar de ser apenas o “país do futuro”.


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