Opinião & Análise

Literatura

Flaubert: a moral e a justiça em ‘Três Contos’

Consciências do que é ‘certo’ e do que é ‘errado’ interagem, paradoxalmente, numa constante conflitiva e construtiva

Estátua de Flaubert. Crédito: Flickr Frédéric BISSON

Quando entrei na livraria, a pessoa que me atendeu pediu, bastante alegre, que aceitasse a sugestão e levasse uma edição brasileira – saída do forno – dos Três Contos (1877), de Flaubert. Olhava o livro com apreço, dizendo:

– Veja como ficou bonito!

E de fato ficou. Peguei, agradeci e levei. A capa logo chamou a minha atenção pela figura do enorme papagaio, vinculado ao primeiro conto do livro: “Um coração simples”. Ao abrir, na segunda capa, deparei-me com uma bela imagem da “Legenda de São Julião Hospitaleiro” e, ao final, na terceira capa, com gravações feitas na Catedral de Rouen alusivas ao terceiro conto, “Herodíade”.

Gustave Flaubert (1821-1880) dispensa maiores apresentações. É possivelmente o maior escritor francês, no campo da prosa, do século XIX. Muita gente foi inspirada pela sua forma de escrita. Cito alguns nomes conhecidos, como o do saudoso Autran Dourado (que ainda pretendo abordar aqui no JOTA); Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura, que até hoje em suas entrevistas costuma fazer referência à importância de Madame Bovary para o seu estilo narrativo e mesmo Milton Hatoum – responsável, ao lado de Samuel Titan Jr., pela tradução do presente livro Três Contos.

Qualidade estética da narrativa – além das belezas da edição – é o que a leitora e o leitor terão de sobra quando começarem a ler o livro. Flaubert é Flaubert, insisto, e, num comentário breve como este, isso basta.

Mas, neste ensaio, eu gostaria de propor uma leitura dos três principais personagens dos contos: Félicité – do conto “Um coração simples”; Julião – do “A legenda de São Julião Hospitaleiro” e Herodes – do “Herodíade”. A caracterização dos três personagens destaca-se, cada uma a seu modo, como rematada tentativa de retratar os embates entre o “bem” e o “mal”, entre o “certo” e o “errado” e, também, entre o “justo” e o “injusto” na alma e no agir humanos.

Tudo isso sem esbarrar em simplificações vulgares. Flaubert parece, por meio desses três grandes personagens, colocar em xeque aquilo que conhecemos por moralidade – a moralidade ordinária atrelada aos costumes, e indicar, em contrapartida, caminhos de substituição dessa moralidade simples pela busca de uma moral verdadeira.

Com efeito, o que importa é uma verdade mais elevada, mais sentida. Os personagens vão, assim, divisando, por meio de seus conflitos individuais, possibilidades de transcendência. É claro que, não à toa, as três estórias acabam sendo permeadas por elementos de ordem religiosa. Entretanto, a “religião como instituição” – como instituição injusta e incorreta, calcada em leis e dogmas empoeirados, cede espaço a manifestações alternativas da fé. Mesmo no conto em que Herodes aparece, a consciência do que é justo, no caso de João Batista, desponta com a força de evidência.

Começo com “Um coração simples”

Félicité é a criada de uma família francesa de algumas posses, porém decadente. Foi criada da sra. Aubain durante cinquenta anos. Sua vida é marcada pela tragédia. Perdeu pai e mãe ainda menina, foi explorada e injustiçada pelos que a criaram, acusada de um furto que não cometeu, enganada, em matéria de amor, por um homem e, curiosamente, todos – pessoas e até o papagaio Lulu – que a cercavam e que ela tanto amava foram, pouco a pouco, morrendo.

Mas Félicité é exemplo de integridade moral – integridade moral de um tipo diferente. Não porque racionalizasse o que é “certo” e “errado” por meio de histórias e de teorias abstratas, mas porque sentia o que era devido e se portava, por conseguinte, de acordo com os seus sentimentos. Teve atitudes heroicas, a exemplo do caso em que salvou a família da sra. Aubain de ser atacada por um touro, sem que se desse conta propriamente da amplitude de sua coragem.

Além disso, no conto, Félicité até pode parecer ingênua à primeira vista, mas sua suposta ingenuidade é, na verdade, o pressuposto para que ela tenha um contato mais íntimo com o lado místico e verdadeiro da religião – a religião para além dos “dogmas”. Os “dogmas” religiosos, como diz o narrador, Félicité não entendia. No fundo, sua ingenuidade é mais sábia do que as convenções: sente o que é certo e errado, o que é justo e injusto, e quem, ao ler o texto de Flaubert, poderia dizer que Félicité estaria errada em relação a muitas de suas reações em face das agruras da vida?

Nesse sentido, é comovente a cena em que Félicité sente saudades do sobrinho Victor, de quem há seis meses não tinha notícias. Ele estava metido nas navegações. Valendo-se dessa história com a patroa, tenta mitigar a falta de notícias – de quatro dias – que essa tinha da filha. A patroa responde à Félicité com uma indiferença cortante, de modo a diminuir o valor de seu sobrinho.

Félicité sente-se indignada, mas perdoa. O que é bonito de se ver – dirá o narrador – é que, no coração de Félicité, tanto Victor quanto Virginie (filha da patroa) tinham o mesmo significado. No seu sentir, os dois tinham a mesmíssima importância. Na estória, Félicité também cuida dos mais pobres e desterrados, ajuda um facínora acamado, que participara da Revolução Francesa no período terrível de 1793, fazendo-lhe companhia às vésperas de sua morte.

Não obstante, Félicité e a sra. Aubain, em outra cena, igualam-se pelo sofrimento. Virginie morre e as duas, ao se lembrarem dela, abraçam-se, prateando a memória da menina. Tudo isso quando as duas estão arrumando as coisas de Virginie. E o narrador não perde a oportunidade poética de nos arrepiar com uma imagem sublime: ao abrir o armário em que os pertences de Virginie estavam, borboletas aparecem e voam de dentro.

Félicité ama o papagaio que a sra. Aubain recebeu de presente, cuida dele como se fosse um “amante”. Seu nome, como eu disse algumas linhas antes, era Lulu. Quando morre, manda empalha-lo, passando a ser objeto, por ela, de profunda veneração. No leito de morte, enxerga o papagaio gigantesco voando sobre a sua cabeça.

Por fim, vale notar que o narrador não deixa de destacar, com sutileza crítica, que o sujeito que cuidava dos negócios da sra. Aubain, sr. Bourais, estivera metido em falcatruas. Como diz o narrador, o sujeito que “temia sempre se comprometer”, que “respeitava infinitamente a magistratura” e que “tinha pretensões de latinista” era, na verdade, uma pessoa desonesta, envolvida com “desvio de pagamento”, “vendas de madeira às escondidas” e “recibos falsos”.

O segundo conto é “A legenda de São Julião Hospitaleiro”

Como bem observa Samuel Titan Jr., na “Apresentação” do livro1, a narrativa da estória de São Julião é diferente da que normalmente se espera da dos santos, porque seu caráter pessoal era bastante violento. São Julião cresce no seio de uma família de nobres. Seu pai e sua mãe recebem, em momentos distintos, a visita de um sujeito estranho. Para a mãe, a figura diz que seu filho vai ser Santo. Para o pai, diz que vai ser Imperador.

O fato é que, ao crescer, Julião é ensinado a rezar. Mas sua grande paixão, instigada pelo pai, é a caça. E Julião caça indiscriminadamente. Tem sede de sangue, mata por matar, é retratado por Flaubert como uma espécie angustiante de destruidor. Até que um dia, numa caçada, tem a visão de um cervo dizendo-lhe que, se continuasse daquele jeito, acabaria por matar seu pai e sua mãe. Pouco tempo depois, Julião fica atormentado e foge. No tempo em que passou longe dos pais, em contrapartida, Julião pratica atos corajosos e honrados. Auxiliou povos em condições difíceis, conseguiu fama.

Todavia, por ironia do destino, anos depois, quando já estava sem ver os pais a ponto de não mais reconhece-los, em uma inesperada visita, aplica a eles – que julgava serem, na verdade, um homem no leito de sua esposa – toda a sua raiva, matando-os. Ao perceber o que fizera, transtornado pela culpa, passou a viver como peregrino pelo mundo. Julião vive, por conseguinte, uma vida de constrição, de penitência. É loucamente atormentado. Estava certo de que havia praticado um mal sem tamanho. Encontra-se, não obstante, com um leproso, que pede a ele de comer, de beber, um lugar para dormir e, finalmente, o calor de seu corpo. Era uma provação divina. E ao fazê-lo, o leproso, gigantesco, se revela o próprio Cristo. Com isso, Julião é levado por Jesus aos céus.

Julião é a imagem clara da ação da culpa sobre um indivíduo. E a importância do conflito na construção da integridade. É uma figura difícil de ser compreendida numa leitura mais simplória – sua ambivalência constante trilha o caminho para a sua santidade.

O terceiro conto é “Herodíade” – o meu preferido, e possivelmente o mais polêmico de todos

Herodíade é uma releitura, com licença poética, do episódio bíblico da decapitação de João Batista, Iokanaan. Herodes é a personagem principal do conto. O Tetrarca, que nos dizeres da religião cristã, costuma ser retratado como uma figura maligna, no conto de Flaubert encarna sutilezas impressionantes.

Vamos lembrar a estória.

Herodes casou-se com Herodíade. Herodíade, entretanto, já era casada e abandonou o primeiro marido para ficar com ele. Iokanaan começou a pregar contra os costumes da época. Dizia de um enviado. Dizia de um Deus e de coisas mais elevadas do que as instituições formatadas ao molde dos reis e dos imperadores. Foi preso. Preso também, porque, num passeio da rainha, ofendeu Herodíade, chamando-a de “adúltera”. Herodíade queria a morte de Iokanaan, assim como os Samaritanos – representados no conto pela figura de Manaei.

Mas, no fundo, o Herodes de Flaubert respeitava Iokanaan. Conquanto sua figura fosse contestadora, o Tetrarca tinha a sua coragem em consideração. Além disso, e aqui o elemento mais propriamente político do conto2, sua execução poderia aborrecer os Judeus. Era, portanto, um caso delicado para Herodes, que não tinha certeza de que a execução de Iokanaan seria o melhor caminho a ser trilhado.

Herodes recebe, de surpresa, a visita do Procônsul romano Vitélio – este sim, símbolo da espoliação. Herodes tenta esconder as suas riquezas, mas acaba sendo vítima das imposições do representante de Roma. Perde, por exemplo, um grupo de adorados e belíssimos cavalos, que são inventariados pelo agente de Vitélio.

O conto narra também os acordos de conveniência entre os Fariseus e Herodes para a cobrança dos impostos e para a obediência dos velhos costumes pelo povo. Iokanaan, nesse sentido, é um personagem contestador. Ele alude à verdade para além do que era praticado pelas pessoas e pelas instituições mundanas. Sua existência representa um apelo a uma objetividade como fator de correção para as condutas, isto é, uma dimensão que não depende da vontade dos reis e dos agentes de Estado de ocasião.

Vale a pena atentar, ademais, para o momento em que o narrador descreve os pensamentos dos sacerdotes, que acreditavam que o suposto filho de Deus, cujas estórias começavam a ser difundidas (Jesus), não poderia ser um homem humilde – como narra Flaubert, para eles o messias não poderia ser o “filho de um carpinteiro”. Além disso, na visão dos sacerdotes, o “messias” apareceria para “confirmar a Lei”. E Jesus, em contrapartida, opunha-se aos velhos costumes.

No banquete em homenagem ao aniversário de Herodes, Herodíade coloca meticulosamente a filha, Salomé, para dançar à presença dos convivas. Herodes, encantado pela moça, oferece-lhe o mundo. Mas Salomé, para a desgraça de Herodes, pede a cabeça de Iokanaan. E assim sucede. Mas Herodes, numa cena com intensidade dramática, ao ver a cabeça de Iokanaan numa bandeja, é incapaz de conter o choro.

Mas ao meu ponto

Vivemos numa época que privilegia o moralismo vulgar – em que as pessoas já não se perturbam com injustiças, digo, com as verdadeiras. Fala-se de “moral” para oprimir os outros, acusar, incriminar e punir. A verdadeira moralidade, pórtico para a Justiça, como consequência de uma busca filosófica importante, séria e meditada costuma ficar em segundo plano.

É evidente que o que se costuma propor como moralidade por aí, essa busca por reafirmar costumes reacionários apodrecidos que muitas vezes aparece nos discursos religiosos e políticos de plantão, não corresponde ao que estou dizendo aqui e, muito menos – a meu ver, ao que Flaubert está retratando em seus contos. Costuma-se confundir moralidade com “bons costumes”, “ordem”, “segurança”, “pudicícia”, “dogmas religiosos” etc. Parece-me, porém, que é justamente a isso que Flaubert está se opondo nesses contos – a essa leitura rasteira da moralidade.

Minha pretensão aqui, de modo algum, é apelar para um sentido religioso ou místico da vida ou algo do gênero. Pelo contrário. No fundo, apoiado nos ombros de Flaubert, estou criticando todos esses discursos calcados em valores reacionários e intolerantes de que muitas manifestações religiosas e políticas se revestem hoje em dia – antes preocupadas com os “dogmas”, com a “bondade de fachada”, com as “leis” e com os “impostos” do que com a Justiça e com a Verdade.

Percebemos, então, que as consciências do que é “certo” e do que é “errado” interagem, paradoxalmente, numa constante conflitiva e construtiva – é o que nos dizem, na minha leitura, os três contos do livro de Flaubert e os respectivos retratos de Félicité, Julião e Herodes. A identificação do que é Justo, por conseguinte, tem por pressuposto, esse tipo de confronto. A busca pelo que é Justo, nas suas múltiplas possibilidades narrativas, sempre guarda, em relação ao que está dado, a possibilidade de transgressão.

Referência da resenha

FLAUBERT, Gustave (tradução de Milton Hatoum e Samuel Titan Jr.). Três contos. São Paulo: Editora 34, 2019.

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1 Eu recomendo vivamente tanto a leitura da “Apresentação”, de Samuel Titan Jr., quanto a contextualização presente no posfácio intitulado “Os contos nas cartas”, assinado por Milton Hatoum e também por Samuel Titan Jr.

2 Segundo Samuel Titan Jr., na “Apresentação”, “o episódio bíblico é reescrito de uma perspectiva desolada, como luta pelo poder”, p. 12.


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