Opinião & Análise

Liberdade de Expressão

Essa é uma obra de ficção

Quem chiou com o ‘O Mecanismo’ precisa saber que a série não é jornalismo, mas diversão

Parte de trailer de 'O mecanismo". Imagem: YouTube

Repercutiu muito o lançamento da série “O Mecanismo”, obra que aborda a “investigação sobre suspeitas de corrupção envolvendo estatais e empreiteiras” que “se torna um dos maiores escândalos políticos do Brasil”. A série trata da Lava-Jato, e a sinopse obtida diretamente do website do veículo de divulgação adverte o incauto espectador que ela é “inspirada em fatos reais”1. Nem precisaria. Basta assistir ao primeiro episódio e lá já estão delegados, procuradores, juiz, presidente eleito, presidente candidata, doleiro, diretor da “Petrobrasil” que ganha um SUV, enfim, as personagens de um triste enredo já conhecido pela maioria dos brasileiros. Todos, no entanto, têm outros nomes, como outras são as casas delas, a delegacia, o recinto do fórum, as roupas e os carros que usam, o lugar de gravação das campanhas políticas. Quebrar a moto do advogado do doleiro… será que isso ocorreu, de fato? Se ocorreu, será mesmo que foi da forma como retratada? E a compra do veículo, foi à noite? Não se sabe. Não se sabe, afinal, se boa parte daqueles episódios, de fato, sucederam, e se assim o foi, se aconteceram da mesma forma exibida na série.

Também, pudera: “O Mecanismo” não é um documentário; é, sim, uma obra de ficção, e sempre se propôs a tanto. Como tal, não apenas não tem o menor compromisso com a verdade, como pode ser absolutamente fantasioso. Pouco importa se, na verdade dos fatos, a frase a respeito de estancar a sangria foi proferida por “A” e, na série, atribuída à “B”, como pouco importa se a delegada teve relacionamento amoroso com o procurador. Trata-se, repita-se, de obra dramatúrgica, cuja liberdade constitucional de criação é da essência do trabalho, ainda que inspirada em fatos reais.

Não é de hoje que muitas pessoas não conseguem perceber que obras de ficção, como indica esse próprio nome, são inventadas, contam histórias que podem nunca ter acontecido. Em 1933, o filme “Rasputin e a Imperatriz” foi tirado de circulação porque as pessoas ali representadas, mesmo com os nomes trocados, sentiram-se ultrajadas. A advertência “Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”, consta, passou a ser exibida nos créditos das obras. Nada obstante, é normal que as pessoas exijam verdade das produções. É comum que se cobre das novelas, por exemplo, que elas tenham correspondência com a realidade tal que possam parecer tiradas completamente da vida real. Esse é um reducionismo torto do potencial criativo da obra de dramaturgia, para a qual é preciso ter liberdade. Por essas e outras que, nos créditos da Globo, apenas para ilustrar, sempre existe a advertência atribuída a Rasputin.

No caso de “O Mecanismo”, a ideia de divórcio entre realidade e história é tão equivocada que houve declaração, por parte da ex-Presidente Dilma Rousseff, de que ela “continha mentiras” e ventilava “fake news”, erro duplo, porque a série pode ser, mesmo, parcialmente mentirosa – já que os fatos reais são, apenas, sua inspiração – e, ademais, fake news é tema ligado à imprensa, não ao entretenimento. Eureka: quem chiou a respeito do distanciamento de “O Mecanismo” da realidade precisa saber que a série não é jornalismo – esse, sim, comprometido com a verdade – mas diversão.

Maurice Halbwachs escreveu, no início do Século XX, magistral livro a respeito da memória, sustentando que ela era construída a partir de uma narrativa que certamente não correspondia integralmente à verdade. Assim é com “O Mecanismo”, que pode se permitir comunicar uma história a partir de certos pontos de vista. Não deixemos de perceber que Padilha é livre para criar e dirigir a história que ele quiser, mesmo que isso desagrade algumas pessoas. O dissenso é normal e saudável, o que não é aceitável é aduzir que a série é mentirosa e falsa simplesmente porque ela pode ser irreal. E que conviva-se em paz com isso, para o bem da liberdade de expressão artística.

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1 <https://www.netflix.com/br/title/80120485>, acesso em 26.3.2018, 20h56,


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