Opinião & Análise

Feminismo

Ensaio sobre o silêncio

Exercício de pensar torna-se um privilégio difícil de ser realizado quando não se tem tempo para dormir

Crédito: Pexels

O microfone ou a caneta nem sempre estiveram nas mãos de uma mulher. Isso é muito recente se pensarmos na história da ocupação dos espaços não domésticos por elas.

Contudo, apesar da excessiva carga de trabalho, da competência e talento mais que comprovados, as mulheres ainda são interpeladas e questionadas sobre questões individuais, privadas e de foro íntimo. A partir de uma expectativa de progressão refaço perguntas que podem fazer refletir: o que nós (mulheres) vamos fazer das nossas vidas, individual e coletivamente, além de continuar bravamente existindo? Quais são os nossos projetos de vida e ação nesse país?

As respostas são muitas, ainda que incertas e duvidosas. As provocações das perguntas causam inquietação e acesso à raiva que toda mulher tem, nas palavras de Audre Lorde[1], um arsenal bem abastecido de raiva potencialmente útil contra opressões pessoais e institucionais, que geraram a mesma raiva.

A autora fala especificamente sobre as questões da mulher negra, mas esta ideia serve para as demais: a raiva silenciada em cada situação peculiar. Desde a infância até a idade adulta, qual mulher não foi compelida a “sentar como uma menina” ou “comportar-se como uma mulher”?

Essa raiva é carregada de informação e energia. A pensadora americana explora em seus ensaios, a recusa ao silêncio sobre aspectos da sua identidade afirmando que a visibilidade que nos torna mais vulneráveis é também a fonte de nossa maior força, provocando sempre questões tais as acima expostas, como: “quais são as tiranias que você engole dia após dia e tenta tomar para si, até adoecer e morrer por causa delas, ainda em silêncio?” ou ainda, reflexiva ela se questiona “do que é que eu tinha medo? Eu temia que questionar ou me manifestar de acordo com as minhas crenças resultasse em dor ou morte”.

A obrigação de calar junto à vontade de gritar, sempre contida pela voz repetida ao longo de toda a criação: “sorria”, “comporte-se e controle-se”, “fique quieta”, “não fale alto”, “não emita opiniões”, “lugar de mulher é na cozinha”, “tem que ficar bonita”. Alguém já perguntou o que a mulher quer? Ela pode querer?

Por mais radical que possa parecer, é necessário forcarmos e priorizarmos a ocupação das mulheres em todos os espaços: desde o poder político às salas de aula, aos cargos de chefia e direção para ressignificar os espaços, as escutas, as vivências e aprendizados.

O discurso sobre os diversos tipos de feminismo deve ser o mais abrangente possível. Olhar para as diferentes práxis feministas em nuances heterogêneas, díspares, e, por vezes, contraditórias. É complexo sim e reconhecer os marcadores[2] possibilita ampliar a visão das políticas públicas. Elas podem ser aperfeiçoadas a partir da consciência das diferenças e consequente mobilização por direitos.

Embora seja possível encontrar mulheres com acesso à educação formal que desconhecem o significado dos feminismos – literal e ativo – é possível encontrar mulheres analfabetas lutando em suas micropolíticas, reduzindo desigualdades na prática e fazendo o movimento acontecer.

Como?

As mulheres no Brasil ainda estão preocupadas em não morrer, somente pelo fato de serem mulheres. Em poder sair às ruas à noite. Ir e vir com o uso de transporte público sem serem assediadas. Depois, ao passo que conseguem transitar, a próxima preocupação está no cuidado e bem-estar da família.

Este campo abrange diversos aspectos: cuidado com ascendentes e descendentes, comida (e neste vincula-se o trabalho), saneamento básico – água encanada, tratada, esgoto sanitário – e depois, somente após ser possível existir com o mínimo de dignidade, esse grupo de mulheres disporá de tempo para ler, escrever e pensar a partir de uma ideia crítica sobre sua existência enquanto mulher.

A hipótese é que o exercício de pensar torna-se um privilégio difícil de ser realizado quando não se tem tempo para dormir. Muitas não estudam e seu tempo é usado na criação de meios para sobreviver. Quando elas poderão falar?

Como serão ouvidas em pautas feministas ou pensar sobre isso? Pensar na educação, nos debates acadêmicos, políticos e sociais enquanto plurais, complexos e por vezes, inalcançáveis?

Podemos aprender a agir e falar quando temos medo da mesma maneira como aprendemos a agir e falar quando estamos cansadas. Fomos socializadas a respeitar mais o medo do que nossas necessidades de linguagem e significação, e enquanto esperarmos em silêncio pelo luxo supremo do destemor, o peso desse silêncio nos sufocará.

O fato de estarmos aqui e de eu falar essas palavras é uma tentativa de quebrar o silêncio e de atenuar algumas das diferenças entre nós, pois não são elas que nos imobilizam, mas sim o silêncio. E há muitos silêncios a serem quebrados[3]. (Audre Lorde)

A potência de uma fala raivosa pode ser associada à bala de um canhão: faz um estrago, um grande barulho, assusta e não pode voltar atrás. E é isso que acontece com uma mulher que passa a enfrentar e vocalizar sua raiva, seu medo e suas angústias oprimidas. É quando tiram o pé do seu pescoço.

“Se ter voz, poder falar, ser ouvido e acreditado é essencial para ser um participante, uma pessoa com poder, um ser humano com pleno reconhecimento, então é importante reconhecer que o silêncio é a condição universal da opressão, e existem muitas espécies de silêncio e de silenciados. A categoria mulheres é uma longa avenida que cruza com várias outras, entre elas classe, raça, pobreza e riqueza. Percorrer essa avenida significa cruzar outras e jamais significa que a cidade do silêncio tem apenas uma rua ou uma rota importante”. (SOLNIT, Rebecca, p. 27, 2017)

Passado o impacto, o rompimento do silêncio começa a contagiar outras mulheres e a comunicação fortalece, cria redes de apoio e reflexões coletivas para as mudanças necessárias. O olhar sobre as carências femininas não depende só daquelas que carecem, mas também das que possuem recursos (intelectuais, profissionais, dentre outros privilégios) para apoiar e transformar realidades.

Consequentemente, a manutenção daquelas mulheres em espaços limitados de trabalho com cuidados – distantes de vocalização política onde o “feminismo” ecoa – reverbera a demanda sobre pautadas sem verticalização de interesses e um feminismo mobilizado para alcançar políticas públicas efetivas, a horizontalizar o debate.

 


Notas

[1] Disponível em <https://theintercept.com/2019/11/27/audre-lorde-ensaio-irma-outsider/>. Acesso em 19 de fevereiro de 2020.

[2] Marcadores de classe, raça, escolaridade, acesso à saúde e transporte, dentre outros;

[3] Disponível em <https://theintercept.com/2019/11/27/audre-lorde-ensaio-irma-outsider/>. Acesso em 19 de fevereiro de 2020.

Referências bibliográficas

BANDEIRA, Lourdes. ANTUNES MARTINS, Ana Paula. Disponível em: <https://diplomatique.org.br/assedios-a-mulheres-persistencias-e-desafios/>. Acesso em 02 de março de 2020.

HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo. Políticas arrebatadoras. Tradução: Ana Luiza Libânio. 1ª edição. Editora: Rosa dos Tempos. 2018.

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir. A educação como prática da liberdade. São Paulo. Editora: WMF Martins Fontes. 2013.

LORDE, Audre. A transformação do silêncio em linguagem e em ação. 27/11/2019. Tradução: Stephanie Borges. The Intercept Vozes. Disponível em: <https://theintercept.com/2019/11/27/audre-lorde-ensaio-irma-outsider/>. Acesso em19 de fevereiro de 2020.

SOLNIT, Rebecca. A mãe de todas as perguntas. Reflexões sobre os novos feminismos. Tradução: Denise Bottman. Companha das Letras. 2017.


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