Opinião & Análise

Literatura

Direito à memória: Vassili Grossman e a 2ª Guerra Mundial

Análise do relato sobre o campo de extermínio da Polônia ocupada pela Alemanha de Treblinka e do conto ‘A estrada’

Vassili Grossman, 1945. Wikimedia Commons

Hoje, cada pessoa é obrigada perante sua consciência, perante seu filho e sua mãe, perante a pátria e a humanidade, a responder, com toda a força de sua inteligência, à seguinte pergunta: o que deu origem ao racismo, o que é necessário para que o nazismo, o fascismo, o hitlerismo jamais renasçam, nem desse, nem do outro lado do oceano, jamais, e para todo o sempre”

Grossman em “O inferno de Treblinka”

A foto que dá cobertura à capa da edição brasileira de A estrada,1 de Vassili Grossman (1905-1964), em si, já seria razão para uma excelente conversa. Quatro soldados, com seus mantos e baionetas, caminham em meio a um inóspito cenário, e a paisagem, conquanto bela, não acolhe – antes, parece repelir os viajantes. O céu carregado, entretecido por nuvens de chumbo, anuncia o mau tempo que virá, possivelmente virá, apesar dos parcos indícios de luz do dia.

Em face das sombras dos soldados russos refletidas num espelho d’água, fui levado a pensar, por um bom tempo, nos minutos, nas horas, nos dias, nas semanas e nos anos que antecederam e sucederam aquela marcha rumo ao desconhecido, nas conversas que aquelas pessoas entretiveram naquela longa caminhada, no som dos passos abrindo caminhos pela areia e neve silenciosas.

Mas, para além da bela capa, o livro A estrada reúne uma preciosa coleção de textos literários, pessoais e jornalísticos de Vassili Grossman. Grossman é possivelmente um dos mais refinados escritores russos da primeira metade do século XX. Sua biografia é marcada pela proximidade com o governo soviético, embora o autor tenha encontrado nesse particular diversos obstáculos, inclusive no âmbito de publicação de parte de suas obras. 2

Isso porque os escritos de Grossman, apesar de apresentarem um punhado de frases panfletárias em favor da finada União Soviética, jamais perderam o rigor artístico e o interesse existencial. Grossman, por meio de sua literatura, tinha aspirações transcendentais. Como em toda boa arte, o indivíduo, com suas histórias e tensões, quase sempre teve espaço sob a pena do escritor. E essa forma de ver o mundo muitas vezes desagradou a cúpula do Partido Comunista, que costumava condicionar o fazer artístico aos ditames políticos de ocasião.

Eu gostaria de abordar neste breve ensaio, particularmente, dois textos do livro: o relato sobre o campo de extermínio de Treblinka, denominado “O inferno de Treblinka”, e o conto que dá nome ao livro. Acredito que esses trabalhos de Grossman possam abrir as portas para discussões interessantes sobre direito à memória e sobre o papel da indiferença em cenários marcados por profunda violência e injustiça.

Sou incapaz de ler relatos sobre os campos de concentração nazistas sem ser acometido por distúrbios de ordem psicológica e física. É algo excessivo para mim. Não lido bem com essas narrativas. Mas, apesar do horror que elas me causam, as considero mais do que necessárias por crer que a reconstituição da memória joga um papel fundamental na valorização de direitos em contextos constitucionais e democráticos sérios.

Conduzir-nos com maestria por uma dolorosa visita à realidade do campo de extermínio de Treblinka é uma das proezas da narrativa de Grossman, assim como sensibilizar-nos da necessidade de se acessar uma dimensão maior de sentido moral e de justiça na consideração dos fatos históricos.

Como percebemos dos relatos do autor, o uso do termo “diabólico” seria pouco para caracterizar fielmente o cotidiano dos campos de extermínio durante a Segunda Guerra Mundial. Um campo de extermínio é o retrato fidedigno da ausência total de sentido.

O que mais choca é que o terror ligado aos campos de extermínio não é fantasmagórico, não remete a uma dimensão sobrenatural. E aí é que está o horror propriamente dito desses relatos de Grossman – o ambiente dos campos de concentração é terrivelmente humano.

Mas, por outro lado, paradoxalmente, esse cenário decerto se contrapõe a qualquer referência civilizatória razoável, a qualquer ação capaz de conferir um sentido legítimo às ações dos povos. Daí a insistência – e com razão – de Grossman ao associar os nazistas a animais ferozes e a figuras mitológicas bestiais.

Os nazistas, diz Grossman, procuravam calcar as suas ações em justificativas teóricas e racionais, mas nenhuma delas seria capaz de retirar dos carrascos os modos animalescos, a essência ferina e patética de suas falas e atos, nenhuma delas seria capaz de limpar a espessa camada de lama e sangue das botas dos assassinos que participavam dos massacres. Os delírios teóricos dos nazistas, enfim, não passavam de um amálgama de perigosos enganos.

Treblinka, narra Grossman, possuía dois campos. O campo nº 1, destinado aos prisioneiros comuns e políticos – todos os que cometessem pequenas “faltas” eram enviados para temporadas de horror nessa localidade. O campo nº 2, por sua vez, voltava-se ao extermínio de judeus e de outras minorias. Ao lado de campos de extermínio como os de Auschwitz e Sobibor, Treblinka é um dos locais em que se passou a “Shoah pelo gás”.3 Judeus de toda a Europa foram enviados a Treblinka para morrer. A morte dos enviados para lá costumava ocorrer pouco depois que desembarcassem na fictícia estação de trem do campo.

No campo de Treblinka, os recém-chegados eram submetidos a humilhações físicas e psicológicas inomináveis, tinham os seus bens espoliados e a eles eram infligidas as mais diversas e abjetas formas de tortura. Os cabelos das mulheres eram raspados para servir de estofamento de camas e luvas, as prisioneiras tinham orelhas e dedos dilacerados por oficiais ávidos por seus pertences.

O assassinato em massa, em Treblinka, como narra Grossman, seguia um frio e asqueroso processo quase “industrial”.

Depois de 1943, por ordem de Himmler, o campo nº 2 de Treblinka passou por modificações e os corpos, antes lançados em valas, começaram a ser cremados. Entre outros fatores aventados no livro por Robert Chandler, consta que, antevendo possíveis modificações do cenário de guerra, os nazistas não queriam deixar provas de seus crimes.

Grossman, que perdeu a própria mãe numa execução coletiva de judeus na Ucrânia, revolta-se contra a indiferença dos que sabiam dos massacres e nada fizeram, como o Reino Unido e o Vaticano. Como vemos da epígrafe deste ensaio e de outros trechos de seu relato, toda a humanidade, diz Grossman, compartilha, de algum modo, da responsabilidade pelo que aconteceu na Shoah.

Aqui temos a deixa para falar sobre o segundo texto de Grossman, agora de caráter “ficcional”, o conto “A estrada”.

É curioso ver como essa estória, embora curta, apresenta sutilezas surpreendentes. O conto retrata a trajetória da mula italiana Giu no período que sucedeu o pacto entre Hitler e Mussolini para invadir a Rússia.

No começo do conto curiosa e sensível, a indiferença vai, aos poucos, se abatendo sobre a mula. No início da narrativa, Giu estranhava os trabalhos, as tarefas, o peso da carga, as punições desmedidas do boleeiro, a profunda indiferença de sua companheira. Depois, passa a se conformar com a situação vivida, sendo destituída das percepções mais sutis do mundo, inclusive da injustiça, da dor e da violência extremas [“Tudo se tornara habitual, quer dizer, legítimo, e se interligava, transformando-se na natureza da vida: o trabalho, o asfalto, os bebedouros, o cheiro de lubrificante, o estrépito dos canhões fedidos de cano longo, o cheiro do tabaco e couro dos dedos do boleeiro, o baldezinho com grão de milho, à noite, a braçada de feno que beliscava...”].

O cimo dessa indiferença é apresentado na cena em que a mula é levada a um campo de batalha e fica impassível diante das balas e dos corpos caídos ao seu lado. Mostra-se indiferente, inclusive, à morte do seu próprio boleeiro. A “guerra” terrível e o “frio” intenso parecem não afetar a mula.

Porém, Giu, depois de ser recolhida por uma tropa por ela desconhecida, começa a se envolver com um jovem cavalo. O inesperado encontro abre as portas para um resgate da sua sensibilidade. O final do conto, em que se sugere que ambos estavam chorando juntos, coloca em evidência essa retomada de sentido – o que, no final das contas, está de acordo com a premissa enunciada pelo narrador de que, ao contrário do que imaginamos, na verdade as mulas, na guerra, estavam atentas aos seus mortos.

Com isso, Grossman dirige uma crítica ácida a toda a humanidade [“Começou a mortandade dos animais derrotados pela imensidão do espaço. Os corpos das mulas eram arrastados para fora da estrada; jaziam com os ventres inchados, com as pernas dilaceradas de tanto caminhar. As pessoas eram infinitamente indiferentes a elas, e as mulas também pareciam não reparar em seus mortos, abanando a cabeça e se arrastando, mas era só aparência: as mulas viam, sim, seus mortos”].

Gostaria que o leitor e a leitora percebessem que o acesso a narrativas dessa ordem pode ajudar a nos proteger da pulverização de ideias políticas que visam a escamotear um relativismo moral extremo – o que infelizmente anda bastante na moda em nossos dias, principalmente na voz de abjetos radicais de direita.

O resgate da memória, visto como o direito coletivo de os povos terem acesso a relatos sobre o passado, é o primeiro passo para evitar a fragmentação de sentido que costuma acompanhar contextos autoritários inclinados à desvalorização de direitos.4

Referência

GROSSMAN, Vassili Semenovich. A estrada. Tradução: Irineu Franco Perpetuo. Rio de Janeiro: Objetiva (Alfaguara), 2015.

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1 A foto é de Yevgeny Khaldei (Corbis/Latinstock), que conseguiu captar, por meio de sua lente, a sensação de vazio e ausência de sentido que costumam acompanhar cenários de guerra. Chama-se “Red Army Scouts Patrolling in Murmansk Oblast”, de 1941. Ver WENDER, Jessie. “Givig Thanks for Photography”. The New Yorker, 25.11.2013.

2 É impossível deixar de lado os ensaios que antecedem cada capítulo dessa edição de A estrada, assinados por Robert Chandler e Yury Bit-Yunan. Em acréscimo, as notas de rodapé que acompanham os relatos de Grossman oferecem um riquíssimo material de leitura. O ensaio “Grossman e Treblinka”, de Robert Chandler, e o “Posfácio”, de Fiódor Gúber, também são etapas importantes para que se possa desvendar os bastidores do fazer literário de Grossman.

3 Grossman não esteve no campo de Treblinka na época dos massacres. Visitou-o algum tempo depois, quando os russos ingressaram na região durante a guerra. Esse fato não desmerece em nada o relato, que é absolutamente primoroso e a edição em comento permite confrontar, com acurada seriedade, dados históricos. Ver mais detalhes sobre a Shoah e a biografia de Grossman na introdução à Parte 2, do livro, de Robert Chandler e Yury Bit-Yunan e no ensaio “Grossman e Treblinka”, também de Robert Chandler.

4 Para expandir a discussão sobre o tema da historiografia e direitos humanos, recomendo fortemente o refinado ensaio “A historiografia e o papel crítico das humanidades para a consolidação dos direitos humanos”, de Rafael Parisi Abdouch, Rev. Fac. Direito São Bernardo do Campo, v. 25, n.1, 2019. Acesso em <https://revistas.direitosbc.br/index.php/fdsbc/article/view/936>, 3.10.2019.


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