Opinião & Análise

8 de março

Dia Internacional da Luta pelos Direitos da Mulher

Quem tem direito a escolher e sustentar a qualificação de feminista?

Mulheres protestam na avenida Paulista no dia 8 de março – Crédito: Cesar Itiberê/Fotos Publicas

Mulher, como categoria analítica, ajuda pouco a compreender o que deveria ser lembrado no dia 8 de março. Pela falta de um “questionamento visível, protesto organizado, sem fúria ou raiva coletivas” (Bell Hooks), o nosso feminismo, branco e universitário, ignorou as mulheres negras, as indígenas, subestimou a pobreza, deixou de lado quem vive sobre outras comosvisões, outras relações hierárquicas, outras formas de ter e não ter poder.

Lemos, escutamos, tentamos, mas a verdade é que sabemos nada sobre a vivência dessas mulheres. Até agora, apenas nossa branquitude ganhou espaço para se aventurar, para falar alto, para escolher e sustentar a qualificação de feminista.

Reconhecer esse erro do movimento de mulheres precisa ser mais que um novo argumento teórico, tem que penetrar na forma como colocamos a crítica. Em termos de saúde, para sermos honestas, temos que falar de reprodução, parto, mãe e maternidade de um ponto de vista de gênero.

Isso significa incluir nas reivindicações por um parto com decência (humanizado), pela prevenção e responsabilização da violência obstétrica, pelo cuidado integral no pós-parto, a vivência do aborto.

Mulher não é mãe. Há partos que encerram uma gravidez e outros que proporcionam um nascimento. Há gravidezes interrompidas de forma eletiva e de forma involuntária. Muitas, muitas mulheres já estiveram nessas quatro posições.

A possibilidade de se falar abertamente da gravidez e do pós-parto como sofrimento, seja por violência obstétrica, seja por assédio e falta de cuidado tem ganhado espaço. Há menos espanto quando a mídia traz depoimentos de mulheres que tiveram a vida esgarçada pela forma como socialmente lidamos com a maternidade.

Sejamos cautelosas. Falar de maternidade sem critica de gênero pode ser o retorno de muitas casas no tabuleiro político da igualdade de gênero. O feminismo liberal que deixou metade das mulheres de fora está a nossa espreita.

A função reprodutiva das mulheres sempre foi alvo de controle do Estado. Este controle tem como um dos seus principais pilares o controle econômico, que mantém os homens brancos no protagonismo das instituições financeiras e da movimentação do capital. As mulheres servem a esta reprodução política e econômica de homens para homens, pela tutela moral que impõe ao seu corpo o lugar de submissão e instrumento.

O controle do corpo e da sexualidade das mulheres, bem como da sua função reprodutiva, encontra-se sempre no cerne dos modos de opressão machista, atualizando-se em diferentes formas na sociedade contemporânea.

Uma das atualizações mais sutis é a separação entre maternidade e aborto. O discurso feminista circula, força os homens a ouvirem sobre o lado B da maternidade. Ao mesmo tempo que se conquista espaço para dizer a verdade sobre parir e ser mãe, se reduz a disposição para falar do seu oposto direito, o aborto.

A saúde reprodutiva da mulher, das meninas e dos homens trans implica, necessariamente, uma leitura de gênero do tema. Ter saúde inclui ter  o direito de ter sexo na adolescência, o direito de ter sexo sem ser mãe e o direito de vivenciar uma maternidade que não leve ao declínio existencial. Saúde reprodutiva inclui aborto. Violência obstétrica inclui aborto. Maternidade também envolve a sua ausência.

Nós, mulheres do Dia Internacional da Mulher, estamos nos constituindo, aprendendo com os erros passados. Estamos atentas quanto à inexistência de uma categoria monolítica que nos defina, e cientes que isso não impede um coletivo que, em termos de saúde reprodutiva, potencialize o direito a um parto humanizado, sem descuidar do direito a um aborto humanizado.


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