Opinião & Análise

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Depoimento de Odebrecht revive estratégia do mensalão

Versão de empresário sobre encontro com Temer é semelhante a defesa de Lula e Alencar

O depoimento de Marcelo Odebrecht à Justiça Eleitoral repete uma estratégia de defesa bem sucedida no mensalão e que beneficiou o ex-presidente Lula e seu vice José Alencar. Pela versão que inaugurou no depoimento prestado nessa quarta-feira (1/3), Marcelo Odebrecht disse que Michel Temer se ausentou da reunião no Palácio do Jaburu, em 2014, justamente quando os presentes discutiriam os valores que seriam doados pela empreiteira para as campanhas do PMDB.

Ou seja, quando Marcelo Odebrecht, Cláudio Melo, ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, e Eliseu Padilha iam discutir as cifras, o vice-presidente Michel Temer já não estava mais na sala.

Uma versão semelhante foi contada no julgamento do mensalão por Valdemar Costa Neto, então presidente do PR (ex-PL). Em 2002, quando estavam decidindo os termos da aliança para a campanha eleitoral, PT e PL chegaram a um impasse: as legendas não concordaram com as cifras envolvidas.

Lula viajou a Brasília para tentar solucionar a questão. A reunião ocorreu no apartamento do então deputado Paulo Rocha (PT-PA). De acordo com depoimento de Valdemar Costa Neto, estavam no apartamento Lula, Alencar, José Dirceu e Delúbio Soares, tesoureiro. Quando o “x” do problema ia ser tratado… Lula e Alencar ficaram na sala e os demais foram para um quarto.

Em determinado momento da reunião, contou Valdemar em seus depoimentos, José Alencar bateu à porta do quarto para saber se já tinham fechado o acordo.

O restante da história é conhecido. O esquema do mensalão serviu para pagamento das contas de campanha, inclusive dos R$ 10 milhões que foram acertados nesta reunião. Valdemar foi preso em dezembro de 2013, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 7 anos e 10 meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Lula e José Alencar não foram sequer investigados por possível envolvimento no esquema.

De volta ao presente, a versão de Marcelo Odebrecht conflita com o que Cláudio Melo contou em sua delação premiada já homologada pela presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia. A dissonância surpreendeu a quem assistiu ao depoimento. Afinal, a expectativa era de que Marcelo Odebrecht confirmasse exatamente a versão dada pelo ex-diretor de Relações Institucionais.

“No jantar, acredito que considerando a importância do PMDB e a condição de possuir o vice-presidente da República como presidente do referido partido político, Marcelo Odebrecht definiu que seria feito pagamento no valor de R$ 10 milhões”, afirmou Cláudio Melo à Procuradoria-Geral da República.

A escolha do local, o Palácio do Jaburu, foi “uma opção simbólica voltada a dar mais peso ao pedido de repasse financeiro que foi feito naquela ocasião”, acrescentou o ex-diretor da Odebrecht.

Marcelo Odebrecht disse que a reunião no Jaburu foi um “shake hands”, apenas um encontro político para franquear apoio a Temer. Valores? Só foram discutidos quando Temer se levantou da mesa após uma conversa sobre amenidades, conforme Marcelo Odebrecht.

Em nota divulgada na semana passada, inclusive, Temer admitiu o encontro com Marcelo, mas disse que solicitou apenas auxílio formal e legal e que jamais autorizou nada ilegal.

Independentemente das diferenças nas versões – e investigadores não veem nessas dissonâncias contradições entre Marcelo Odebrecht e Cláudio Melo – , alguns fatos parecem incontestes. Os valores que seriam doados pela Odebrecht foram discutidos no Jaburu em jantar marcado por Temer. E, mesmo que o presidente tenha se levantado estrategicamente na hora H, ele sabia exatamente o que seus convidados estavam acertando em seu benefício.


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