Opinião & Análise

A demissão e o machismo

Por que importa ao público a dispensa da repórter do iG assediada por MC Biel

Circula pelas redes a denúncia de que o portal iG demitiu uma jornalista. Em tempos de “crise econômica” e com mais de 10 milhões de pessoas desempregadas no Brasil, qual o motivo de referida demissão merecer tanta atenção?

A demissão em particular importa ao público porque a pessoa demitida é justamente uma das poucas jornalistas que teve coragem de denunciar um assédio sexual sofrido durante o seu trabalho.

A denúncia da jornalista repercutiu nas mídias sociais porque o assediador era um cantor, que em um primeiro momento negou suas atitudes opressoras e machistas. A jornalista, enquanto entrevistava o cantor Biel há poucas semanas, experimentou algo que, infelizmente, é comum para as mulheres: ouviu, enquanto executava seu trabalho, comentários explícitos sobre sua aparência física e insinuações violentas de cunho sexual.

O caso repercutiu nas mídias após o registro de Boletim de Ocorrência e da publicação, pelo portal iG, de matéria denunciando o assédio. Depois dessas medidas, o cantor acabou por perder a chance de carregar a tocha olímpica em Fortaleza, perdeu participações em programas de TV e acabou por gravar um vídeo com pedido de desculpas.

Nesse cenário, a notícia da demissão é inesperada e gerou comoção nas redes sociais. O portal iG não demitiu mais ninguém naquele dia. Centenas de pessoas cobram da empresa uma justificativa.

Esse é um sentimento comum a todas as pessoas: saber a razão de uma demissão. A cultura do mercado de trabalho, hoje, é de que o empregado deve dar dedicação pessoal e integral à empresa, gerando uma ligação sentimental aos “valores empresariais”. Passam a chamar o empregado de “colaborador”, para disfarçar a alienação moral e fazer crer que não existe relação trabalhista, mas relação pessoal. As pessoas passam a medir seu valor próprio pelas metas que atingem. As horas na mesa de trabalho são maiores do que as horas em casa com a família, os filhos – o que é especialmente cruel com as mulheres.

Essa repetição de valores de dedicação total e exclusiva a uma empresa constrói, em quem é empregado, uma sensação de frustração, abandono e injustiça quando se recebe a notícia da demissão. Há o desencanto e decepção quando se nota que a empresa não tem sentimentos para retribuir. Não há gratidão pela dedicação concedida. A pura e simples venda da força de trabalho por dinheiro se revela crua. Todo o esforço dedicado à empresa parece ter sido em vão.

Nesse contexto, o portal iG não manteve nenhum compromisso com a jornalista assediada. Tudo porque o Brasil mantém vigente o retrógrado conceito da demissão sem justa causa e dá pouca importância ao valor social do trabalho.

É impossível saber o que motivou a demissão da jornalista. Justamente porque a empresa não tem obrigação de justificar um desligamento, conforme as leis trabalhistas brasileiras. A dispensa é “imotivada”, ou seja, não precisa ter justificativas. Basta pagar a multa do FGTS, o aviso prévio,as verbas rescisórias.

Em 1995, Brasil havia ratificado a Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que veda a dispensa imotivada. Nos termos dessa Convenção, todas as demissões precisam ser motivadas, ou seja, sem um motivo disciplinar, econômico, tecnológico, estrutural ou análogo, não se pode demitir um empregado. Assim, todo empregado necessita saber a justificativa de sua dispensa.

 

A aplicação da Convenção 158 no Brasil seria a chave para a superação deste ultrapassado instituto, Porém, ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso denunciou a Convenção no ano seguinte, o que significa que ela não se aplicaria mais ao ordenamento nacional.

Discussões jurídicas sobre a nulidade desse ato à parte, a denúncia da Convenção foi uma escolha política, alinhada aos interesses do empresariado, e que foi mantida pelos governos seguintes, coniventes com o tipo de dispensa que isenta as empresas de responsabilidade social com seus empregados. Não interessam ao empresário obstáculos à livre escolha de demitir alguém.

No caso da jornalista, porém, se confirmada a dispensa sem justa causa, poderia ser levantada a possibilidade de uma dispensa discriminatória. A empresa, corroborando com a cultura do estupro, indica com essa conduta que não deseja manter em seus quadros de empregados uma mulher que discorda e não é conivente com os assédios sofridos por seus entrevistados durante o trabalho. Enxergaria na jornalista nada mais que uma vítima, colocando sobre ela todo o ônus dos assédios que sofreu.

Mas não é isso que o portal iG entende. Ora, ao dispensar uma empregada que, ao contrário do esperado pela sociedade empresarial brasileira, não fica calada ante situações de assédio e opressão machista, o portal iG evidencia que não quer uma mulher empoderada como sua “colaboradora”. E isso é dispensa discriminatória em razão de gênero.

 

Não aceitar que uma empregada ou “colaboradora” possa se insurgir contra as violências diárias sofridas tão somente pelo fato de ser uma mulher caracteriza discriminação de gênero por parte do portal iG, que não terá mais a imagem de uma mulher forte e corajosa como uma de suas empregadas.

 

Ainda que não necessite de novos argumentos, pois o próprio cantor já assumiu sua culpa no ocorrido, houve uma nova denúncia, também advinda de uma jornalista, sobre assédios sofridos pelo cantor Biel. Ora, sendo a jornalista vítima de um assediador assumido, onde está  a culpa da jornalista? Qual a razão da demissão? Teria esse caso encorajado outras mulheres a denunciarem agressores e assediadores, e por isso o iG não quer manter o contrato de trabalho com a vítima?

 

O machismo vem não só com a dispensa discriminatória, mas também com os comentários nas notícias (encontradas na reportagem do site BOL, disponível aqui):

 

muri10

Isso não foi assédio, podemos classificar como uma “cantada” de baixo nível,mas esta longe de assédio. Essa repórter quis aparecer e tirar proveito da situação. Aposto que ela ja escutou coisas piores,mas como não se tratava de famosos não levou adiante. O mundo esta muito chato ,pois não podemos falar mais nada que as pessoas já querem te processar. Essa é a democracia???

 

PORCOVERDEEBRANCO

Parabéns ao IG pela demissão,essa idiota quis tirar proveito da situação para aparecer porque antes disso não era ninguém,agora ficou famosa mas sem emprego.qua qua qua.

 

Esses  comentários, dentre outros, evidenciam a dificuldade que as vítimas passam quando tem a coragem de denunciar: o descrédito de seus relatos, o enquadramento como meras “cantadas” e as inúmeras insinuações de que o assédio não ocorreu, que foi um oportunismo midiático. Isso tudo resulta em incontáveis casos de assédio não denunciados, e assediadores impunes.

 

Ora, a ciência de que esses atos ocorreram ou ocorrem não apaga o fato de as mulheres sofreram esses assédios. A culpabilização da vítima não pode mais continuar. A denúncia feita por essa corajosa jornalista não pode ensejar sua demissão. Essa demissão indica opressão, porque desencoraja que mais mulheres façam as denúncias, que os assediadores sejam expostos na mídia ou sofram processos penais, porque o medo da demissão prevalece em tempos de crise. E como é opressora a escolha entre ser assediada ou ser demitida.

 

Mulheres jornalistas se organizaram essa semana e lançaram a página “Jornalistas contra o Assédio” no Facebook:

 

 


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