Opinião & Análise

Tecnologia

Compliance e inovação: é preciso acelerar sem medo

Compliance officers não devem se desanimar quando são chamados de ‘trava-rodas’

Imagem: Pixabay

Inovação e disrupção são palavras de ordem em um mundo que corre contra o tempo para se adaptar às inovações tecnológicas. O perfil das novas gerações – representadas pelos millennials – exige mudança de cultura e o abandono da formalidade nos ambientes corporativos. A ideia é que os processos sejam mais simples, menos burocráticos e que as regras cedam lugar ao espaço necessário para o exercício criativo.

Nesse contexto, é comum que se questione a compatibilidade entre inovação e compliance. A primeira impressão é a de que a internalização de mecanismos de gestão e controle vai de encontro às tendências de maior liberdade no ambiente profissional. Tem-se a percepção de que o programa de compliance traria uma rigidez despropositada com a proliferação de códigos, métricas e políticas internas, em contraposição ao minimalismo necessário para que a criatividade e, consequentemente, a inovação aconteçam.

A aparente contradição pode ser confrontada com a seguinte provocação: “O que faz com que um carro de Fórmula 1 possa correr tão rápido? O sistema de freios”. A analogia é comum na área e a explicação é bastante simples. O sistema de freios é o que confere segurança para que o piloto possa acelerar nas retas, sabendo que conseguirá reduzir a velocidade quando precisar fazer uma curva. Não significa que os freios façam o carro andar mais devagar. Pelo contrário. É que sem o sistema de freios a velocidade média precisaria ser drasticamente reduzida para evitar colisões – provavelmente fatais.

O programa de compliance funciona como o sistema de freios que permite que a empresa saia na frente na corrida da inovação, com a segurança necessária para evitar que novos projetos potencialmente lucrativos resultem em prejuízos milionários.

Isso é o que a experiência demonstra. Os exemplos de iniciativas altamente inovadoras que não foram acompanhadas de uma adequada análise dos riscos envolvidos na operação são inúmeros.

No início do ano, a Microsoft passou por uma crise – interna e externa – porque resolveu vender tecnologia holográfica, os chamados Hololens, ao exército norte-americano. Os engenheiros e programadores da empresa fizeram uma série de manifestações públicas, incluindo uma carta aberta ao CEO Satya Nadella, solicitando o cancelamento do contrato e anunciando ao mundo que não concordavam que o fruto do seu trabalho fosse utilizado para fins bélicos. O manifesto, intitulado “Hololens for Good, not War”[1], dizia, ainda, que a contratação não seria condizente com os valores da Microsoft. Afora a repercussão negativa, a Microsoft correu sérios riscos de perder os engenheiros e programadores responsáveis pelo desenvolvimento da tecnologia – talvez o maior ativo da empresa.

A Google passou por uma situação semelhante em 2018, quando mais de três mil funcionários assinaram uma carta exigindo que a empresa desistisse de um contrato em parceria com o Pentágono. O controverso Project Maven tem por objetivo utilizar a inteligência artificial, a partir da captação de imagens por drones, para identificar alvos inimigos com maior precisão e rapidez.[2] Após a manifestação dos funcionários, o Google abandonou a disputa pelo contrato, ao menos publicamente. Em função disso, renunciou a um faturamento que, nos dez anos seguintes, poderia ultrapassar a casa dos U$ 10 bilhões.

Evidentemente, a Google recuou não porque seja uma empresa “melhor” ou mais altruísta que a Microsoft, mas porque enxergou que os custos associados à repercussão negativa da parceria provavelmente superariam os incentivos atrelados a ela. A decisão é facilmente explicada pelas teorias econômicas da escolha racional. Após analisar os riscos da operação, o Google optou por apertar os freios.

Ainda na linha dos exemplos. Já não é novidade que muitas empresas utilizam câmeras com sistemas de reconhecimento facial para captar a reação dos consumidores às campanhas de marketing.[3] O mecanismo traz maior precisão ao segmento do varejo, pode ajudar a montar perfis psicológicos, com potencial de assumir um papel determinante nas estratégias eleitorais, tal como retratado pelo escândalo da Cambridge Analytica. A simples utilização do mecanismo de monitoramento facial não é ilegal. Acontece que as empresas precisam avisar aos consumidores que eles estão sendo monitorados – o que raramente é feito. A lógica é a mesma dos aplicativos de smartphones que, sob o pretexto de envelhecer as fotos dos usuários, captam e comercializam os seus dados pessoais. Em função dessa omissão, as empresas estão sujeitas à aplicação de duras penalidades.

As notícias mais recentes sobre o tema no Brasil envolvem a Hering, intimada para prestar esclarecimentos sobre o seu sistema de reconhecimento facial, sob pena de aplicação de multa que pode chegar a R$ 9,7 milhões[4]. Nos Estados Unidos, o Facebook questiona a aplicação de uma multa de U$ 5 bilhões em decorrência da ferramenta que, após a identificação facial, sugere a marcação de usuários nas fotos postadas.[5] Ambas as empresas são acusadas de utilizar ferramentas que traduzem uma violação à privacidade. Mais uma vez, o sistema de freios poderia ter contribuído para que a inovação fosse acompanhada da observância à legalidade, evitando a aplicação das mencionadas penalidades.

No entanto, mesmo tendo uma boa gestão de riscos, a empresa pode optar por não acionar o sistema de freios. O exemplo clássico é o do Facebook, que costumava ter o seguinte lema: “Move fast and break things”. A tônica que condicionava a cultura da empresa – reproduzida no universo das startups de uma forma geral – era simples: o importante era sair na frente, apresentar soluções inéditas. Os problemas seriam solucionados depois. Nessa cultura empresarial, se o sujeito não estivesse “quebrando coisas”, entendia-se que não estava desenvolvendo rápido o suficiente. O lema era repetido constantemente e estava literalmente estampado nos corredores da empresa. Esperava-se, com isso, que todos os colaboradores se comportassem da mesma maneira.

Há alguns anos o Facebook suprimiu a parte final do lema que passou a ser apenas: “Move fast”. A mudança evidencia que o sistema de freios estava pronto para ser acionado, embora a empresa ainda optasse por correr determinados riscos. A existência de um programa de compliance efetivo permite que a empresa ouse a tal ponto, corra riscos – até o limite que entender aceitável. E esse limite pode ser alterado, como no caso do Facebook. É provável que a equipe de gestão de risco da empresa, naquele momento, tenha preferido evitar colisões.

Essa é a razão pela qual os compliance officers não devem desanimar quando são chamados de “trava-rodas”. Várias das atribuições do responsável pelo programa são imprescindíveis para a inovação. O monitoramento dos riscos, por exemplo, pressupõe que os concorrentes sejam constantemente acompanhados e permite o desenvolvimento de soluções criativas para as vulnerabilidades identificadas, o que pode resultar na criação de produtos altamente rentáveis. Cientes disso, os departamentos de projetos e novos produtos devem buscar interagir com o setor de compliance, não só para prevenir prejuízos, mas também para buscar inovação.

O outro lado da moeda é que, para não se resumir a uma rotina maçante e excessivamente burocrática, o programa de compliance depende muito das habilidades dos profissionais de marketing, design e gestão de pessoas. A utilização de jogos – físicos ou eletrônicos –, o recurso à realidade aumentada e à própria inteligência artificial inserem o compliance na linguagem inovadora e descontraída exigida pelas novas gerações – sem perder o comprometimento que lhe é inerente.

Sob a perspectiva da inovação, o programa assume a feição do hemisfério esquerdo do cérebro, que traz ordem e racionalidade para os processos criativos e inovadores típicos do hemisfério direito. O cérebro, por evidente, só funciona se ambos os hemisférios estiverem operando em conjunto. O propósito do programa de compliance é sim permitir que a empresa inove, mas que inove com consciência, sobretudo dos riscos inerentes a toda inovação.

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[1] Disponível em: https://www.forbes.com/sites/jasonevangelho/2019/02/23/microsoft-employees-upset-about-hololens-as-u-s-military-weapon/#48a7b9714822. Acesso em: 22 set. 2019.

[2] Disponível em: https://www.nytimes.com/2018/06/01/technology/google-pentagon-project-maven.html. Acesso em: 22 set. 2019.

[3] Da próxima vez que passar em frente a uma vitrine, lembre-se que, avisado ou não, a (in)satisfação registrada no seu rosto pode impactar de forma definitiva a próxima coleção da marca.

[4] Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/hering-tera-que-explicar-que-faz-com-dados-de-reconhecimento-facial-de-clientes-23921786. Acesso em: 22 set. 2019.

[5] Disponível em: https://edition.cnn.com/2019/07/24/tech/facebook-ftc-settlement/index.html. Acesso em: 22 set. 2019.


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