Opinião & Análise

Coluna do Tauil & Chequer

O dia da África e a relação do Brasil com o continente

Governos africanos têm buscado cada vez mais melhorar o ambiente de negócios e as condições de mercado

Divulgação

A Organização das Nações Unidas definiu, em 1972, o dia 25 de maio como sendo o “Dia da África”. A data foi instituída em reconhecimento à data de criação da Organização da Unidade Africana (sucedida pela atual União Africana), em 1963, organização internacional que promove a democracia, direitos humanos e desenvolvimento na África.

Ao longo dos anos, a relação do continente africano com o Brasil sofreu profundas transformações, desde as eras colonial e imperial, passando pelos movimentos de independência em ambas as regiões e à aproximação comercial e cultural nos anos mais recentes. Atualmente, esse cenário das relações tem mostrado um incremento do comércio entre Brasil e África, bem como pelos investimentos das empresas provenientes de uma das regiões na outra, de forma recíproca, em setores diversos da economia.

Tendo em vista essa globalização dos mercados e interesses de investidores internacionais, os governos africanos têm buscado cada vez mais melhorar o ambiente de negócios e as condições de mercado para atração dos investimentos.

Relatórios como o Doing Business demonstram a evolução e atual boa colocação de muitos países africanos em quesitos como “proteção à propriedade”, “execução de contratos”, dentre outros.

Outros estudos recentes, como da conceituada revista The Economist lista vários países africanos dentre os 10 de maior crescimento na última e nesta década. Além disso, a Economist Intelligence Unit, aponta que mais da metade dos 52 países africanos, devem crescer ao menos 5%/ano nesta década, com destaque para Nigéria, Moçambique, Angola, Etiópia, Quênia, Libéria e Uganda, cujo potencial de crescimento pode chegar até a 10%/ano. A taxa de investimentos estrangeiros, o aumento do poder de consumo domésticoe a velocidade na implementação de reformas, em conjunto, foram a base para esse crescimento na maioria dos países.

Ao observarem essas condições atrativas, as empresas brasileiras têm aproveitado as oportunidades  de negócios. Comparando a evolução em uma década, em 2013, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores, os negócios entre Brasil e África somaram USD 28,5 bilhões, enquanto que, em 2003, a soma era de apenas USD 6,1 bilhões.

Nesta relação comercial entre Brasil e África os países de língua portuguesa Angola e Moçambique têm merecido destaque. Ambos têm crescido exponencialmente nos últimos anos, tanto no que tange ao comércio, como em relação aos investimentos. Os três países (Brasil, Angola e Moçambique) são os mais populosos dentre os países de língua portuguesa e, segundo o Banco Mundial, possuem um PIB/PPP conjunto de, aproximadamente, USD 3,4 trilhões.

No contexto africano, Angola e Moçambique têm se destacado como importantes parceiros comercias e estão entre os principais destinos dos investimentos brasileiros no continente africano.

Segundo dados do governo brasileiro, Angola possui estoque de investimentos brasileiros superiores a USD 4 bilhões e tem balança comercial bilateral com o Brasil que ultrapassa a marca de USD 2 bilhões por ano. Os principais projetos brasileiros em Angola estão relacionados a: energia e óleo & gás, construção & engenharia, mineração e serviços diversos, incluindo franquias de médios e pequenos negócios.

Em relação a Moçambique, ainda segundo o governo brasileiro, os investimentos brasileiros (executados ou previstos) ultrapassam o montante de USD 9,5 bilhões e estão associados às áreas de: mineração, construção & engenharia, energia, recursos hídricos, agricultura e serviços. Esses números expressivos colocam o Brasil entre as principais fontes de investimentos externos dos dois países africanos.

Os Acordos recentemente assinados entre os três países poderão alavancar ainda mais o potencial estratégico de Angola e Moçambique, enquanto hubs preferenciais para as empresas brasileiras que pretendem investir e empreender no continente africano. Os dois países se apresentam como portas de entrada para todo o bloco econômico da África Subsaariana (SADC), que prevê uma série de benefícios para o comércio e investimentos intrabloco, além de possuir população estimada em 300 milhões de consumidores.

Estudo divulgado pela Economist Intelligence Unitprevê que o PIB de Angola possa ultrapassar a África do Sul nos próximos anos, se tornando uma das maiores economias do continente, juntamente com a Nigéria. Ademais, o mesmo estudo revela previsões positivas para o crescimento econômico de Moçambique, estimando que, nos próximos anos, o investimento externo ultrapassará a casa dos USD 90 bilhões, mantendo o crescimento médio anual do PIB próximo a 8%, como o obtido na última década. Importante também destacar que o recente estudo intitulado “Africa’s Prospects” coloca Angola e Moçambique entre os cinco países da África, com maior potencial de crescimento econômico nos próximos anos.

Entretanto, apesar das vastas possibilidades para investimentos e das vantagens estratégicas naturais, o Brasil ainda segue devagar, quando o assunto é África. Segundo levantamentos realizados pela E&Y, o Brasil oscila entre as últimas colocações em uma lista que reúne os 30 países que mais investem no continente africano, atrás dos seus concorrentes emergentes, como China e Índia.

Há, portanto, espaço para crescimento e a África precisa ser vista como um continente das oportunidades e do crescimento, superando o antigo paradigma, afinal, muitos são os dados e fatos que comprovam o seu potencial. Sendo assim, tornam-se ainda mais proeminentes e com excelentes expectativas, as participações de Angola e Moçambique no contexto das relações Brasil-África; que tendem a crescer ainda mais e significativamente ao longo dos próximos anos.


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