Opinião & Análise

Análise

Centralidade mundial, conflitos ideológicos e limites

Reflexão a partir do projeto transmoderno de Dussel

Enrique Dussel e Noam Chomsky na 'Loyola University Chicago', 1994. Wikimedia commons

Sistema-mundo

Trump pode ainda salvar o Ocidente”. Essa foi a última frase de um longo texto do atual Ministro das Relações Exteriores em que elogia, com muito entusiasmo, dois discursos proferidos pelo presidente norte-americano. Ernesto Araújo critica a postura adotada pelo seu antecessor (o Presidente Obama) e a fundação da União Europeia que, segundo ele, “pasteurizou todo o passado” e agora se vê regida por valores abstratos, ao mesmo tempo em que deixou de perseguir o seu destino histórico. O chanceler brasileiro observa que a Europa, como centro civilizacional, desapareceu na I Guerra Mundial, lamentando ter que assistir a um Ocidente moribundo, diante do que ele chamou de perversa governança global em detrimento dos símbolos ocidentais. Indignado, Ernesto Araújo diz que o tão necessário pan-nacionalismo só não morreu graças a bandeira erguida por alguns norte-americanos resistentes. Os EUA “iam entrando no barco da decadência” se não fosse a entrada do “estadista Trump”, arremata:

O Ocidente tem cara, nome e sangue. Ideais e valores sim, mas esses ideais e valores não estão nos panfletos da Comissão Europeia nem nas decisões de qualquer corte de direitos humanos, estão nas cicatrizes do passado, seus heróis e mártires” 1.

Para se compreender a atual polarização (pan-nacionalismo versus cosmopolitismo; ou supremacia nacionalista ocidental versus cidadania mundial includente) é preciso invocar a teoria do sistema-mundo. O sociólogo Immanuel Wallerstein a descreve quando menciona a existência de países centrais, periféricos e semiperiféricos. Os centrais (exemplo dos EUA e Alemanha) são aqueles que se ocupam da produção de alto valor agregado, setores estratégicos e especializados. Os países periféricos (boa parte dos africanos) são os que fornecem commodities e matéria-prima aos demais, além de produzirem bens de baixo valor de mercado. Finalmente, os semiperiféricos (também chamados emergentes), caso do Brasil, detêm uma posição intermediária nessa classificação.

Este arranjo internacional justifica a dependência econômica dos países subdesenvolvidos em relação aos desenvolvidos, vinculando a noção de progresso com a de modernidade. Se antes se admitia a existência de um sistema inter-regional, em que a superioridade etnocêntrica era apenas em relação aos povos que se tinham contato, depois, com o avanço do capitalismo, a dimensão hierárquica tornou-se mundial e progressiva. Essa nova versão de sistema-mundo teve início na Modernidade, posicionando originalmente a Europa como a gestora da centralidade2.

O filósofo alemão Hegel, referindo-se a esse Eurocentrismo do século XVIII, fez menção “ao espírito do Novo Mundo” cujo fim era “a realização da Verdade absoluta”. Enrique Dussel censura essa arrogância de posicionar a Europa acima de tudo e de todos, que se realizava por si mesma sem dever nada a ninguém. Era (e é) preciso libertar-se “desta falácia reducionista”, abrindo-se para uma visão que inclui e reconhece outras culturas fora do eixo hegemônico3.

Nesta mesma toada crítica, Wallerstein observa que as sociedades ocidentais contemporâneas constituíram, por muito tempo, o foco da Economia (no estudo do mercado), da Ciência Política (no estudo do Estado) e da Sociologia (no estudo da sociedade civil). Ao mundo não-ocidental ficou relegado Estudos Orientais (examinando as altas civilizações “congeladas no tempo”) e a Antropologia (na abordagem das tribos e pequenos grupos)4.

Foi a partir da Revolução Industrial e do mote Iluminista que sobreveio a ideia de supremacia da Europa. Isso tem apenas dois séculos (1789-1989): “período demasiadamente curto para transformar com profundidade o núcleo ético-mítico das culturas universais e milenares, como a chinesa e outras mais do Extremo Oriente (hinduísta, islâmica, bizantino-russa), e até mesmo a bantu africana ou as da América Latina”; boa parte delas (das culturas minoritárias) foi colonizada e desprezada, observou Dussel5.

Supremacia norte-americana versus China-Rússia

Posteriormente, no século XX, foi a soberania norte-americana que se impôs diante de dois movimentos. No plano geoeconômico pela diplomacia do dólar e a globalização financeira; no geopolítico pela diplomacia das armas e a derrota da URSS na guerra fria. Segundo Tavares, o conceito de hegemonia resta caracterizado quando há enquadramento econômico-financeiro e político-ideológico de parceiros e adversários. No caso, a predominância norte-americana não apenas submeteu, mas racionalizou a visão dominante como sendo a “única possível”6. Para Negri e Hardt, os Estados Unidos, desde o fim da Guerra Fria (1989), vêm se transformando em um império; um tipo de dominação ou supra-estrutura política que força uma gestão unipolar de poder global7; uma autointitulada “polícia do mundo” que se arvora na função de punir quem quer que seja, seguindo critérios próprios e solipsistas. Dussel, a partir desse cenário, teme que a imposição do “americanismo estadunidense” anule as demais culturas do mundo e as impeçam de qualquer diálogo intercultural8.

Em dimensão diametralmente oposta, registre-se o revisionismo marxista que até a década de 1980, defendia o repressivo regime da URSS como modelo a ser imitado. Hoje, quase duas décadas do século XXI, o que vemos é uma aproximação da Rússia com a China, fazendo surgir uma “possível ordem mundial estratégica e pós-ideológica”, que tenha como objetivo desafiar a obsessão do Ocidente que insiste em ridicularizar o “antiliberalismo”9 (e vice-versa).

Não se pode negar que, apesar do fim da guerra fria e da queda do muro de Berlim (1989), o conflito ideológico ainda se espraia e começa a ganhar corpo. A crise da Venezuela é emblemática no particular, sobretudo ao constatar quem está claramente apoiando, ou contestando, o regime de Nicolas Maduro. Imbricada a isso sobrevém uma nova guerra comercial. No plano das nações, EUA e China impondo-se recíprocas tarifas de importação; no plano das corporações, a acirrada concorrência de produtos, a exemplo daquela travada no mercado de celulares e transportes urbano entre as americanas Apple e Uber e as chinesas Huawei e Didi.

A situação da Rússia também é enigmática. A sua Constituição de 1993 dispõe que não será estabelecida qualquer ideologia estatal ou obrigatória. Contudo, ainda que oficialmente o socialismo russo tenha se esvaziado, isso não significou o fim pleno do sentimento de saudade do tempo soviético. Há uma parcela mais velha e minoritária que ainda o vê com nostalgia. Quanto ao atual governo, Vladimir Putin enquadra-se como um líder “mão pesada de direita conservadora”. Sob a promessa de unir o país em torno de um nacionalismo historicista, o Presidente foi eleito com o apoio de uma poderosa elite capitalista, imersos em uma economia liberal. Convém ao atual governo Putin deixar no ar um suposto namoro com a histórica ideologia vermelha. A estratégia dá audiência, satisfaz parcela da esquerda e, de sobra, atrai a poderosa China para o seu lado. Moral da história: o país vai para a vitrine como nação respeitada e temida (mais ainda se considerarmos seu forte armamento nuclear). Pelo mesmo motivo convém à China exibir-se como um país de economia mista (ora socialista, ora aberta para o livre mercado capitalista).

O desafio atual não é o de simplesmente impor uma cultura única a todos os povos, tampouco exigir respostas que agradem a preeminência cultural euro-(norte)americana ou a emergente chinesa-russa. Para Enrique Dussel, o projeto transmoderno consiste na tentativa de incluir, respeitar e afirmar todos os povos, inclusive, e sobretudo, os que foram até aqui negados pelo simples fato de se situarem fora do eixo capitalista moderno. Logo, não se pode desenvolver um estilo cultural que leve a uma unidade indiferente à alteridade, mas antes a um pluriverso com muitas universalidades. Para Dussel é necessário um diálogo crítico intercultural, que ele chama de ética da libertação. Neste discurso de inclusão, há que se considerar aspectos positivos de culturas minoritárias, a exemplo da indígena latino-americana que valoriza o equilíbrio da natureza10. Sem dúvida, um princípio ecológico relevante para contrapor práticas predatórias que vê o mundo natural como algo simplesmente explorável, negociável e destrutível.

A preeminência dos Direitos Humanos

De nossa parte, cabe sublinhar que nem tudo que é oriundo do universo ocidental deva ser considerado nefasto; tampouco tudo que advém de povos minoritários deva ser aplaudido. Uma coisa é respeitar a diversidade cultural, conforme, felizmente, vem fazendo boa parte do pensamento pós-moderno, outra coisa é inibir qualquer crítica a condutas que ofendam a dignidade humana. E aqui sem discordar, mas ressalvando o pensamento de Dussel, trago um exemplo também proveniente da cultura indígena. Refiro-me à execrável tradição de infanticídio de bebês, enterrados vivos pelo simples fato de nascerem com alguma deficiência ou grave problema de saúde. Para boa parte dos índios, matá-los é um “gesto de amor”. E, acreditem, há antropólogos que defendem a não interferência dessa cultura bárbara.

Penso que para questões como estas, não se trata simplesmente de respeitar ou tolerar a cultura “x” ou “y”, mas aplicar os postulados de proteção universal dos Direitos do Homem, previstos em suas Declarações Internacionais. Em uma única expressão: É preciso mais respeito às diferenças culturais, sem que isso represente menor responsabilidade aos ofensores da dignidade humana, sejam eles motivados por discursos de direita ou de esquerda! Seja a Venezuela ou a Turquia, Coreia do Norte ou Estados Unidos, Brasil ou Argentina, Israel ou Palestina; Síria, Afeganistão, Iêmen, Iraque, Somália, Nigéria ou República Democrática do Congo. Urge estabelecermos estratégias de promoção aos direitos humanos, respondendo, de modo prioritário, ao desafio da pobreza e da desigualdade social. Nesse sentido observo que o melhor modelo de Estado ainda é o da social-democracia, em especial o Welfare State dos países nórdicos. Nações que conciliam liberdade e respeito, desenvolvimento social e econômico, além de ampla consciência comunitária internacional.

Retornando ao polêmico texto de Ernesto Araújo, o chanceler sustenta (ao contrário da teoria de Dussel) que é preciso resgatar o anseio dos ocidentais, restaurando um mundo construído pela fé, o qual, segundo ele, restou destruído pelos valores universais do globalismo (liberal, porém antinacional e antitradicional), dos direitos humanos e do costume politicamente correto. E aqui cabe respirar fundo para iniciar minha discordância. Ora, o Cristo apresentado no Evangelho está bem distante de posições etnocêntricas que tentam impor supremacia cultural, bélica ou econômica (do tipo “America First”). A mensagem cristã está muito mais para construir pontes do que muros separatistas; salvaguardar a natureza para gerações futuras do que para romper pactos internacionais de proteção ambiental. A propósito, deixo aqui uma oportuna declaração do mencionado Cristo: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham plenamente”. Como se vê, ao contrário do que imaginam Trump e o ministro brasileiro Araújo, a mensagem cristã é sempre de respeito à alteridade e de amor ao próximo. O nacionalismo, por sua vez, é sempre preconceituoso e sectário. E não estou aqui a confundir com o conceito de patriotismo. Há diferenças entre eles, conforme observou Charles De Gaulle: “enquanto no patriotismo impera o amor ao próprio povo, no nacionalismo prevalece o ódio contra o outro”.

Finalmente, no plano das relações internacionais, também acho um equívoco a nova postura do governo federal de se transformar numa espécie de fã-clube do governo Trump. Se o governo do PT errou ao fazer o mesmo com alguns países bolivarianos como a Venezuela (e pagamos um alto preço por isso), hoje temos (ou tivemos a oportunidade) de se aproximar economicamente dos EUA sem que isso represente (ou representasse) um afastamento gratuito e prejudicial do nosso maior parceiro econômico: a China. Essas declarações infelizes do chanceler e do próprio Presidente da República ensejaram um claro recado chinês noticiado pela mídia, em janeiro desse ano: “China só investe onde é bem-vinda; cuidado Brasil”, diz Câmara de Comércio11. Que o Brasil possa manter sua histórica diplomacia, afastando-se de qualquer sectarismo (de extrema direita ou esquerda)!

Referências bibliográficas:

ARAÚJO, Ernesto Henrique Fraga. “Trump e o Ocidente”. Cadernos de Política Exterior. IPRI – Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais. Ano III, n. 06, Segundo Semestre 2017.

DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. Petrópolis, RJ: 1998.

DUSSEL, Enrique. Transmodernidade e interculturalidade: interpretação a partir da filosofia da libertação. In: Revista Sociedade e Estado – Volume 31 Número 1 Janeiro/Abril 2016,

ESCOBAR, Pepe. “Como China e Rússia se unem contra a hegemonia dos EUA”. Portal Vermelho, Publicado em 12/02/2019. Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/318589-1

HARDT, Michel; NEGRI, Antonio. Imperio. Barcelona: Editorial Paidos, 2005.

TAVARES, Maria da Conceição. A retomada da hegemonia norte-americana. Revista de Economia Política – 18, vol. 5, n. 2, abri/junho de 1985. Artigo que foi atualizado em 1997 na obra coletiva, coordenada por ela e José Luis Fiori, “Poder e dinheiro: uma economia política da globalização”. Petrópolis: 1998.

WALLERSTEIN, Immanuel. A análise dos sistemas-mundo como movimento do saber. In: O Brasil e o capitalismo histórico: passado e presente na análise dos sistemas-mundo. Org: Pedro Antonio Vieira et ali. São Paulo: Cultura Acadêmica Editora, 2012.

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1 ARAÚJO, Ernesto Henrique Fraga. “Trump e o Ocidente”. Cadernos de Política Exterior. IPRI – Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais. Ano III, n. 06, Segundo Semestre 2017, pág. 345-356. O texto aplaude os discursos de julho e setembro de 2017, proferidos por Donald Trump em Varsóvia e na Assembleia Geral da ONU, respectivamente.

2 DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. Petrópolis, RJ: 1998, págs. 60-65.

3 Enrique Dussel é filósofo vivo que nasceu em 1934, em Mendoza, Argentina, e que desde a década de 1970 leciona no México, sendo professor convidado nas Universidades de Frankfurt, Notre Dame, California State University, Loyola (Chicago), dentre outras. Também é doutor honoris causas pelas universidades de Friburgo (Suíça) e de San Andrés de La Paz (Bolívia). DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. Petrópolis, RJ: 1998, pág. 67.

4 WALLERSTEIN, Immanuel. A análise dos sistemas-mundo como movimento do saber. In: O Brasil e o capitalismo histórico: passado e presente na análise dos sistemas-mundo. Org: Pedro Antonio Vieira et ali. São Paulo: Cultura Acadêmica Editora, 2012, pág. 19.

5 DUSSEL, Enrique. Transmodernidade e interculturalidade: interpretação a partir da filosofia da libertação. In: Revista Sociedade e Estado – Volume 31 Número 1 Janeiro/Abril 2016,

6 TAVARES, Maria da Conceição. A retomada da hegemonia norte-americana. Revista de Economia Política – 18, vol. 5, n. 2, abri/junho de 1985. Artigo que foi atualizado em 1997 na obra coletiva, coordenada por ela e José Luis Fiori, “Poder e dinheiro: uma economia política da globalização”. Petrópolis: 1998, pag. 29.

7 HARDT, Michel; NEGRI, Antonio. Imperio. Barcelona: Editorial Paidos, 2005.

8 DUSSEL, Enrique. Transmodernidade e interculturalidade: interpretação a partir da filosofia da libertação. In: Revista Sociedade e Estado – Volume 31 Número 1 Janeiro/Abril 2016. Muitas vezes são culturas que estão na terra de ninguém, não sendo consideradas nem metropolitanas, tampouco primitivas; nem de centro, tampouco de periferia.

9 ESCOBAR, Pepe. “Como China e Rússia se unem contra a hegemonia dos EUA”. Portal Vermelho, Publicado em 12/02/2019. Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/318589-1

10 DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. Petrópolis, RJ: 1998, págs. 60-70. O autor usa o termo: “exterioridade da modernidade” (que está fora do eixo iluminista).

11 Notícia veiculada no Portal UOL de 19 de janeiro de 2019.


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