Opinião & Análise

Literatura

Almas mortas: relatos da fraude e da violência consentidas

Um genial impostor e o blefe engenhoso que só se tornaria possível em uma sociedade que vive de aparências

Pixabay

Almas Mortas, de Nikolai Gogol, foi publicado na Rússia, em 1842. O livro é um maravilhoso retrato de uma sociedade moralmente falida, onde o reconhecimento depende do que se possui e não do que se é, onde o blefe se torna a moeda corrente. Retrata uma sociedade de aparências, onde impera a desigualdade social, marcada pela precariedade da vida campesina, o poder dos grandes proprietários rurais e a burocracia do Estado. Nestas terras distantes, o poder e prestígio eram definidos a partir do número de servos, almas, possuído por cada proprietário. Ciente da precariedade dos sensos estatais, nosso personagem, o oportunista Pável, elabora um engenhoso plano para garantir poder e reconhecimento público, a baixo custo: a compra de almas mortas.

Nossa história começa com a chegada de Pável a uma pequena cidade russa, acompanhado de seus dois criados. Pável, que logo desperta a curiosidade dos moradores locais, encarnando a figura de um verdadeiro cavalheiro, procura de imediato saudar aqueles que detêm o poder local, ou, como prefiro dizer, aqueles que representam a estrutura básica da sociedade local. Dedica dias inteiros a visitar e, por assim dizer, penetrar na intimidade dos locais. Seus gestos refinados, seu traje impecável e sua conversa ilustrada logo conquistam os corações provincianos e entediados dos moradores. Lançada a rede, Pável segue o seu plano, mapeando as principais fazendas locais e seguindo ao encontro de seus proprietários.

+JOTA: Faça o cadastro e leia até dez conteúdos de graça por mês!

Em cada parada, as desconfianças vão sendo paulatinamente substituídas pela fascinação exercida pelo visitante, pelo desejo de agradá-lo e driblar a monotonia da vida local. Pável revela indignação face aos impostos cobrados pelo Estado aos proprietários, sobretudo, quando estes são obrigados a pagar por servos que já não lhes prestam mais serviços, almas mortas. Diante desta situação, Pável propõe ajudá-los, aceitando que sejam passados para o seu nome a propriedade das almas mortas. Concede até mesmo em pagar por elas. O estranho negócio não passa desapercebido aos anfitriões, mas qualquer suspeita é rebatida por Pável com extrema maestria e indignação. Todos acabam cedendo e nosso anti-herói chega bem próximo de se tornar, aos olhos do Estado, o possuidor de um fabuloso número de servos, com os quais estaria apto a receber terras e a conquistar todo o prestígio almejado.

Enfim, Almas Mortas é a história de um genial impostor e de um blefe engenhoso que só se tornaria possível em uma sociedade que vive de aparências. Onde cada indivíduo é o que aparenta ser e onde o status social deriva do que se possui.

+JOTA: Obras literárias ‘indecentes’: Flaubert, ao publicar Madame Bovary, foi acusado dos ‘delitos de ultraje à moral pública e religiosa e aos bons costumes’

+JOTA: Shakespeare e a corrupção dos poderosos: Uma análise das questões tratadas na peça ‘Medida por medida’

A perversidade do personagem principal revela o lado podre da cidade, denuncia o abismo entre a sociedade das aparências, onde todos as autoridades são sempre apresentadas como pessoas idôneas e exemplares, e a estrutura profunda, onde o dinheiro destinado a educação e a saúde da população acaba sendo utilizado em festas e cerimônias oficiais.

Através da minuciosa descrição das longas viagens a cada fazenda, Gogol nos revela também uma Rússia profunda, pobre, inóspita, melancólica, saudosa da metrópole iluminada e disposta a reconhecer e honrar seus simulacros.

+JOTANa colônia penal: progresso e técnica a serviço da punição

Tudo isso se passou a muito tempo, mas quase nenhum clássico da literatura mundial descreve tão bem o nosso tempo, o nosso país, a nossa sombria realidade. Somos o país dos cartórios. Buscamos criar procedimentos, leis e normas que permitam administrar nosso corpo social, mas vivemos também um extraordinário abismo entre o Brasil legal, o Brasil projetado na estrutura básica da sociedade e o Brasil profundo, ilustrado nas fotografias de Sebastião Salgado, de Vik Muniz, de Bruno Itan. Temos também uma elite que vive de aparências, que só é o que tem, e que rechaçada todo aquele que nada tem, mas que constrói e torna possível o dia a dia do nosso país.

Gogol denuncia a violência consentida dos senhores para com seus servos. Nosso país autoriza a violência institucional contra povos indígenas, negros, populações LGBTI e, simplesmente, contra pobres, moradores de comunidades. O Rio ocupado é uma prova da violência do Estado contra determinados segmentos da população brasileira. Depois da Rússia de Gogol, veio a revolução. No século XXI, a que podemos aspirar? A história e os rumos da humanidade talvez tenham lançado sobre muitos de nós um certo ceticismo. Mas talvez seja tempo de revelar a farsa, de negar o simulacro e de trazer à superfície o Brasil profundo. Precisamos gerar um novo pacto social, desta vez entre indivíduos reais que estejam dispostos a endossar os valores que gostaríamos de ver espelhado na nossa constituição, na estrutura básica da nossa sociedade. A falência das instituições que hoje vivenciamos pode se o estopim de um compromisso coletivo e o nascimento de uma nova consciência moral.

 

*Este artigo pertence a uma série que discute as relações entre Direito e literatura. Todos os artigos são produzidos por professores que participam do Curso de Extensão em Direito e Literatura na Faculdade Nacional de Direito (UFRJ), realizado neste primeiro semestre de 2018.


Faça o cadastro gratuito e leia até 10 matérias por mês. Faça uma assinatura e tenha acesso ilimitado agora

Cadastro Gratuito

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito