Opinião & Análise

Serás Ministro!

A Presidência e os ‘fidalgos’

Na estória de Drummond, o pai queria, de todo modo, que o filho se tornasse ministro de Estado

Bolsonaro
Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Todas essas histórias em que está metido o atual Governo da República – nomeação de filho para embaixador nos Estados Unidos, envolvimento de ministro em escândalo de arrepiar os cabelos – fizeram-me lembrar de uma crônica de Carlos Drummond de Andrade. Sim, o maravilhoso Drummond, que todos conhecemos por sua grande poesia, também foi um cronista de qualidade inquestionável. O nome do texto: “Serás Ministro!”1.

Na estória de Drummond, o pai queria, de todo modo, que o filho se tornasse ministro de Estado. O pai do menino trabalhava no gabinete de um ministro – pensava -, logo já estaria com meio caminho andado para que o filho alcançasse a mesmíssima posição do seu chefe. Mas era “apenas um servente”. Não tinha dinheiro, como, na crônica, lembrava a sua esposa: “E você, com esse ordenado mixo de servente, tem lá poder pra fazer nosso filho ministro?”.

Entretanto, o pai insistiu. Chamou o ministro para ser padrinho do menino. Aceitou, mas não foi: mandou representante. Na hora de dizer o nome da criança ao cartorário, colocou-lhe logo o nome de… “Ministro”… “Ministro Alves da Silva”.

Mas, no Brasil, que Drummond retrata com ironia fina, é evidente que não adianta se chamar Ministro para ser ministro. Não adianta querer ou mesmo merecer ser ministro. De origem humilde, o rol de possibilidades no caso do personagem da crônica era pequeno: “Já moço, o leque das opções não se abriu para ele. Entre o ofício sem brilho e o andar térreo da burocracia, acabou sendo, como o pai, servente de repartição”.

O pai do menino ignorava que, para ser ministro de Estado neste país, é preciso prestar favores de alguma sorte à gente do poder ou ser filho de pessoal graúdo ou vir das camadas privilegiadas da sociedade – algo desse tipo.

E o pobre do Ministro (de nascença) seguiu o caminho do pai, acabou trabalhando como servente numa repartição de um ministro de Estado. O máximo que conseguiu foi ser “contínuo”. Depois, acabou sendo despachado para uma “vaga repartição de vago departamento” por causa justamente do nome que se confundia com o do chefe, o que causava ruídos de comunicação.

Ministro nunca chegou a ser ministro de Estado.

E, no Brasil, esta parece continuar a ser a regra até os dias de hoje: as posições de poder costumam ser destinadas à gente graúda, à gente de sangue e à gente amiga. As constituições brasileiras, isso já dizia o grande Graciliano Ramos, têm, na verdade, uma falha gigantesca. No Brasil, a única figura que importa de verdade é a do “chefe político”. As instituições costumam ficar em segundo plano. Para parafrasear o autor alagoano, o Direito, entre nós, costuma ser “bonito”, mas não “útil”. Aqui é a terra dos “mandões”2.

E ao presidente Bolsonaro lhe cabe bem este papel: o de “chefe político” de um tipo especial… O de “mandão” de primeira categoria… E a verdade ainda mais falada, ouve-se pelos cantos de Brasília, é que ele deseja ser rei.

Comentam por aí que Bolsonaro, que para eleição teve apoio dos monarquistas que ainda se encontram de plantão por essas terras, quer se tornar o mais novo rei do Brasil. Rei para indicar seus filhos e os parentes para os mais diversos cargos. E vai reinstituir a nobreza. Ao contrário do pobre coitado da crônica de Drummond, ele – acredita o presidente – tem poder para nomear seus filhos para embaixadas, ministérios e congêneres.

Bolsonaro colocou os pequerruchos para aprender coisas importantes. Como ensina Molière, para ser fidalgo, é preciso saber lutar, conhecer de filosofia, de música e de dança.

A verba real anda curta. Por isso, deu prioridade ao filho que vai para Washington D.C. Não se conformou com o fato de que “saber fritar hambúrguer” não é condição suficiente para ser embaixador: “Maldita imprensa! malditos esquerdistas!”.

Na noite passada, teve um pesadelo em que alguém lhe falava de moralidade administrativa, de nepotismo, de Justiça, coisas assim – que seria incapaz de listar durante a vida consciente. Acordou nervoso. No espelho, enquanto lavava o rosto, recitou alguns ensinamentos dos assessores: “O STF entende que não é nepotismo” – disse mil vezes, como se faz no caso de um mantra. Isso bastava.

Ficou aliviado quando viu Eduardo, logo pela manhã, tomando aulas de francês com o nobre professor que havia contratado por indicação do seu bom guru. É um prodígio, pensou, enquanto o pequerrucho orgulhosamente dizia:

– O, O. Il n’y a rien de plus juste. A, E, I, O, I, O. Cela est admirable! I, O, I, O”3.

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1 ANDRADE, Carlos Drummond de. “Serás Ministro!” In: 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, pp. 81-83

2 RAMOS, Graciliano. Linhas Tortas. 22ªed. Rio de Janeiro: Record, 2015.

3 Molière. Le bourgeois gentilhomme. Paris : Pocket Classiques, 2010, p. 43


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