Opinião & Análise

Lei Maria da Penha

A misoginia da Rede Globo

Se emissora preza pela igualdade de gênero, qual sua política de prevenção ao assédio sexual?

Odisseia é um anagrama quase perfeito para assédio. O jogo de palavras não é apenas coincidência. Na Odisseia de Homero, uma das histórias contadas  fala  de assédio. Penélope, esposa de Ulisses, é intensamente assediada por diversos pretendentes para que se case novamente, afinal, já se passaram mais de 20 anos do fim da guerra de Tróia e Ulisses ainda não voltara para casa. Penélope se defende dos homens que a querem desposar dizendo que fará sua escolha quando terminar de tecer um longo manto, manto esse que ela borda de dia e desfaz de noite.

A reação titubeante da Rede Globo quanto ao assédio sexual cometido por um ator famoso contra uma figurinista desconhecida e a tolerância quanto à violência sofrida por uma das mulheres participantes do reality show Big Brother me lembrou a promessa de Penélope.

A denúncia de Su Tonani de que Mayer a havia assediado sexualmente foi rapidamente retirada do ar pelo jornal Folha de São Paulo. O jornal disse que era preciso ouvir a outra parte. Quanto à intimidação que Emily sofreu do namorado Marcos durante o Big Brother, as cenas nunca saíram do ar.

[formulario_fulllist]

A Rede Globo chamou Emily para o “confessionário” para perguntar se ela se sentia ameaçada na “casa” e para relembrá-la que ela está protegida pela Lei Maria da Penha.  Ontem, a Rede Globo decidiu eliminar Marcos do programa, após a Delegacia da Mulher abrir inquérito para apurar a ocorrência de lesão corporal. A Globo também deu publicidade a nota misógina do ator acusado de assédio e informou que o afastaria do trabalho. Além disso, repetidas vezes, afirmou repudiar toda forma de violência.

A forma como a Globo reagiu a violência contra a mulher é parte do que venho definindo como movimento de reconfiguração da misoginia, um movimento reativo à vigência de leis penais mais duras quanto à violência de gênero e ao crescimento do discurso feminista nas mídias. 

A constante intimidação praticada por um homem contra a companheira, ambos confinados e vigiados, foi não apenas tolerada pela emissora, mas comercializada. A Globo se beneficiou diretamente da audiência que a violência contra a mulher rendeu.

No mesmo sentido, a fama de assediador sexual de José Mayer era velha conhecida da emissora. Tanto que, quando o caso veio a público, o ator não teve saída, confessou o assédio, ainda que por palavras tortas. A direção da Globo foi avisada das constantes agressões sexuais sofridas pela figurinista e nada foi feito. Se a emissora preza pela igualdade de gênero, qual sua política de prevenção ao assédio sexual? Qual seu plano para o “negócio” igualdade de gênero?

Tudo, nessa história desagradável, é antigo. O que há de novo é o espaço que as mulheres cravaram para exigir respostas.

A Lei Maria da Penha criou um atalho para o acesso à justiça das mulheres. Além do cenário concreto de proteções que ela disponibiliza para casos de violência, a lei fez ponte para linguagem dos direitos. Sem essa ponte, Su Tonani não denunciaria o assédio sexual de um ator famoso, em um jornal conservador. Sem essa ponte, não haveria delegada a interpelar a emissora de TV.

Tudo isso é importante, mas é ainda muito pouco. A misoginia passa por avenidas mais largas para as quais a Lei Maria da Penha ainda é estreita. A misoginia se transmuta, é ambígua, se reconfigura para continuar existindo. Foi ela que permitiu a Globo transmitir e retransmitir cenas de violência contra Emily. A tolerância quanto à violência contra a mulher, o menosprezo a seus direitos e a indiferença autorizaram que, mesmo diante da mais clara violência sexual e moral, se ouse duvidar se esses homens merecem punição.

Mas não são só eles que merecem punição, a Rede Globo também precisa ser responsabilizada juridicamente por tolerar e divulgar cenas de violência contra a mulher, por manter-se ambígua frente à questão, auferindo vantagens econômicas com a divulgação de imagens que jamais deveriam ter sido transmitidas. É preciso fazer valer  a eficácia horizontal dos direitos fundamentais das mulheres contra a Rede Globo de Televisão. Afinal, tecer o manto da igualdade nas noites do Jornal Nacional e desfazê-lo de dia, mensurando a audiência, não engana ninguém.


Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito