Opinião & Análise

Artigo

A doença de hubris

Psicanálise e o estudo da filosofia também podem ser ótimos aliados para a manutenção da saúde mental do juiz

"Echo and Narcissus", de 1903, de John William Waterhouse. Wikimedia commons

O neuropsiquiatra e político inglês Lord David Owen[1] é autor de interessantes trabalhos em que correlaciona decisões fundamentais, em especial sobre política externa e ações militares, ao histórico médico de líderes de diversos países. Defende que, em vez de serem tratados como segredo de Estado, os registros sobre doenças daqueles que exercem funções públicas relevantes – em especial, a chefia do Poder Executivo – devem ser de conhecimento geral, pois o estado físico ou mental do decisor pode ter forte influência sobre as deliberações tomadas.

No livro In Sickness and In Power: Illness in Heads of Government, Military and Business Leaders since 1900, em que analisa diversos casos históricos à luz de informações médicas posteriormente obtidas, Owen revisa, por exemplo, a conhecida associação entre o comportamento volátil do primeiro-ministro inglês Anthony Eden durante a crise do Canal de Suez e o estimulante a ele prescrito para contrabalançar os efeitos da medicação usada para controlar as infecções recorrentes de que passou a sofrer após um erro médico cometido em cirurgia abdominal a que fora submetido.

Associa, ainda, o comportamento beligerante e inseguro do presidente americano John F. Kennedy na reunião com o então líder da União Soviética Nikita Khrushchev que precedeu (e para muitos historiadores provocou) a crise dos mísseis em Cuba às fortes dores nas costas sofridas por Kennedy na ocasião, bem como às injeções de anfetaminas e esteróides a ele administradas em combinação com a reposição de testosterona feita para tratar a doença hormonal crônica de que sofria.

No entanto, parece-me que uma das maiores contribuições que David Owen deu aos estudos de ciência política relaciona-se com a constatação da existência de uma doença psiquiátrica específica originada pelo exercício do poder, a síndrome de hubris (hubris syndrome), por ele inicialmente descrita em artigo de 2006[2].

A palavra hubris deriva do termo grego hýbris, utilizado para descrever, na mitologia, na poesia, na filosofia e no direito gregos, a confiança excessiva, a arrogância que leva uma pessoa a desconsiderar os limites definidos para as suas ações.

Segundo os critérios diagnósticos propostos por Owen e pelo psiquiatra inglês Jonathan Davidson[3], a síndrome de hubris caracteriza-se pela presença de ao menos três de quatorze sintomas, dos quais nove são comuns a transtornos narcísicos ou de personalidade e cinco são exclusivos:

  1. propensão narcísica para ver o mundo em primeiro lugar como uma arena para exercer o poder e procurar a glória;
  2. predisposição para fazer coisas de forma a melhorar a própria imagem;
  3. preocupação desproporcional com a imagem e a apresentação;
  4. forma messiânica de falar e tendência à exaltação;
  5. identificação com a nação ou a organização a ponto de o indivíduo achar que as suas opiniões e interesses são idênticos;
  6. tendência para falar de si na terceira pessoa ou uso do plural majéstico “nós” (sintoma exclusivo);
  7. confiança excessiva no próprio julgamento e desprezo em relação aos conselhos ou críticas dos outros (sintoma exclusivo);
  8. autoconfiança exagerada, que beira um senso de onipotência, naquilo que pode alcançar;
  9. crença de que não deve responder a colegas ou à opinião pública, pois o tribunal que o julgará será o da História ou de Deus;
  10. crença inabalável de que esse tribunal o “vindicará”; (sintoma exclusivo);
  11. perda de contato com a realidade, frequentemente associada com o isolamento progressivo;
  12. inquietação, imprudência e impulsividade (sintoma exclusivo);
  13. tendência a adotar “visão pessoal abrangente” sobre a retidão moral de um curso de ação, para evitar a necessidade de considerar a praticidade, custos ou resultados (sintoma exclusivo);
  14. incompetência hubrística, em que as coisas começam a dar errado em razão do excesso de confiança e da despreocupação com aspectos políticos práticos.

A ideia fundamental da síndrome de hubris é bem capturada na expressão “a intoxicação do poder”, de Bertrand Russell, recorrentemente mencionada por Owen.

Para alguns, o poder é uma droga poderosa, assim como, para outros, o é o dinheiro. Muitas vezes, a intoxicação é fatal, quando menos para a reputação do doente, que, traído pela confiança excessiva, dá um passo em falso[4].

O maior mal, contudo, , é feito à sociedade. Em The Hubris Syndrome: Bush, Blair and the Intoxication of Power (escrito em 2007 e reeditado em 2012), Owen atribui à síndrome de hubris a decisão de os Estados Unidos e a Inglaterra empreenderam a guerra do Iraque, provocando a morte de dezenas de milhares de pessoas. Fala com a autoridade de quem se reuniu com Tony Blair para tratar do assunto diversas vezes entre 1998 e 2002 e, em 2003, apoiou a mudança do regime iraquiano (induzido, segundo afirmou depois, por informações falsas do próprio Blair quanto à construção de armas químicas e nucleares).

Se a doença é curada quando o poder se vai ou o doente cai em si após uma decisão equivocada com severos efeitos negativos, para preveni-la, o remédio prescrito por Owen é um só: o cultivo da humildade. Cabe aos que exercem o poder, além do respeito estrito ao regime de freios e contrapesos (check and balances), manterem os pés no chão. Para tanto, devem conservar ao máximo seu estilo de vida anterior e se cercarem de críticos francos; pares, auxiliares ou mesmo familiares que digam o que pensam de forma direta. Chamados por Owen de toe-holders, esses “conselheiros” são, sem dúvida alguma, os maiores aliados do bem público.

Como seres humanos que somos, nós, magistrados também estamos suscetíveis ao mal de hubris no decorrer das nossas carreiras.

Nesse contexto, as discussões abertas em órgãos colegiados, em eventos de escolas de formação, em ambientes acadêmicos e mesmo com as nossas equipes de confiança parecem-me essenciais para manter os juízes longe das tentações hubrísticas.

Para além disso, a psicanálise (ou outras formas de autoconhecimento) e o estudo da filosofia também podem ser ótimos aliados para a manutenção da saúde mental do juiz, pois, em última análise, hubris traz sofrimento. Não é à toa que tradições filosóficas ocidentais, como o estoicismo, ou orientais, como o yoga[5], apontam a vaidade como óbice à felicidade.

 

 

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[1] David Owen foi membro eleito do parlamento inglês por 26 anos. Exerceu os cargos de ministro da marinha e da saúde e de secretário de relações exteriores. Foi fundador do Partido Social Democrata. Em 1992, recebeu da monarquia inglesa o título “Lord Owen of the City of Plymouth”. Integra a Câmara dos Lordes desde 2014, onde ainda hoje, aos 81 anos, mantém intensa atuação. Fez a formação médica no Sidney Sussex College, em Cambridge e no hospital St. Thomas, em Londres. Maiores detalhes sobre a produção acadêmica e a atuação política de Owen podem ser encontrados no blog http://www.lorddavidowen.co.uk/ e no endereço eletrônico da organização por ele criada para ampliar a conscientização e a compreensão quanto às mudanças de  personalidade decorrentes do exercício do poder e seus impactos sobre o processo de tomada de decisão http://www.daedalustrust.com/. Ambos os endereços eletrônicos foram acessados pela autora deste artigo pela última vez em 23 de fevereiro de 2020.

[2]Owen, David. “Hubris and Nemesis in Heads of Government’. Journal of the Royal Society of Medicine (2006), vol. 99, pp. 548–51. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1633549/.  Acesso em 19 de fevereiro de 2020.

[3] Owen, David. Davidson, Jonathan. “Hubris syndrome: an acquired personality disorder? A study of US Presidents and UK Prime Ministers over the last 100 years”. Brain, volume 132, issue 5, May 2009, pp. 1396–1406. Disponível em:https://academic.oup.com/brain/article/132/5/1396/354862. Acesso em 19 de fevereiro de 2020.

[4] Na mitologia grega, Nemêsis, a deusa que personificava a harmonia, era a responsável pela punição do  doente de hubris. Sua figura é associada, por exemplo, a Creso, rei da Lídia, que, excessivamente feliz com suas riquezas e poder, encontrou a derrota ao ser por ela levado à guerra contra Ciro II, rei da Pérsia. E a Narciso, morto enquanto contemplava a própria imagem em um lago.

[5] “Amanitvam”, que significa ausência de vaidade, de necessidade de reconhecimento por parte dos demais, é o primeiro dos vinte valores referidos no Bhagavad Gita, texto base do yoga.


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