Opinião & Análise

Literatura

A atualidade do ensaio ético ‘Diante da dor dos outros’, de Susan Sontag

Sobre o direito de todos à dignidade

Ilustração de capa do livro Diante da dor dos outros - “Tampoco” (água-forte), prancha 36 de Los desastres de la guerra, 1810-20), publicado em 1863, de Francisco José de Goya Lucientes (1746-1828). Coleção particular/Index/Bridgeman Art Library.

O universo jurídico no Brasil enfrenta, entre outras coisas, o imenso desafio de estabelecer normas sociais que busquem apaziguar a violência e fortalecer a segurança pública. Mas é preciso mais do que do que compreender os problemas sociais para que decisões adequadas sejam tomadas com eficiência. É preciso se sensibilizar com a dor dos outros. Essa predisposição do caráter é possível quando, além de não se permitir matar, torturar e roubar, se aprende empaticamente que a solidariedade é superior à indiferença e o diálogo é melhor do que a violência.

Estamos desmoralizados, como diria Ortega Y Gasset, com os sentimentos embotados. Não é para menos. Vivemos em um país profundamente desigual, com um presidente que faz apologia à tortura e com meios de comunicação que difundem, a todo instante, imagens negativas envolvendo corrupção, assassinato, assédio sexual, tortura etc. Mas, apesar de não terem o mesmo destaque na mídia, há pessoas e grupos que possuem o sentido de justiça, e não buscam apenas cooperar e conquistar aliados, mas também serem sensíveis à dor dos outros e reconhecer a humanidade de todos.

É nessa perspectiva que o célebre ensaio de Susan Sontag, Diante da dor dos outros, publicado em 2003, segue carregado de atualidade, oferecendo uma série de reflexões sobre imagens de dor e de guerra apresentadas diariamente pelos meios de comunicação. Como é possível encará-las sem perder a capacidade de se impressionar? Como os membros de uma classe instruída podem utilizá-las na construção de uma sociedade mais justa? O que prova uma imagem de violência? Qual é o direito que permite sistematicamente a proliferação de imagens sobre o sofrimento alheio (pobres, imigrantes, indígenas etc.) sem uma contrapartida legal? O nosso fracasso é de imaginação, de empatia, diz Susan Sontag, pois não conseguimos reter na mente a realidade atroz, ela é muito pior do que aquilo que podemos imaginar.

Susan Sontag (1933-2004) é considerada uma das intelectuais públicas dos Estados Unidos mais importantes do século XX. Alinhou a sua produção literária a uma constante reflexão sobre as questões políticas e sociais de seu tempo. Nasceu em New York, estudou literatura, filosofia e teologia nas Universidades de Berkeley, Chicago, Harvard e Oxford. Foi professora, escritora de romances e ensaios com dezenas de traduções, e participou ativamente de produções cinematográficas, teatrais e televisivas em várias partes do mundo, o que lhe propiciou grande visibilidade e reconhecimento. Suas reflexões sobre democracia, Estado, guerra, cultura, feminismo e intelectualidade se articulam no seu pensamento a partir do que considera compromisso moral com “a liberdade” e “a verdade”. Ao receber o Prêmio Literário Jerusalém, em 2001, ela publicamente afirmou:

A primeira tarefa do escritor é não ter opiniões, mas dizer a verdade… e recusar-se a ser cúmplices de mentiras e de informações falsas. Literatura é o lar da nuance e da oposição das vozes da simplificação. A tarefa do escritor é tornar mais difícil acreditar nos saqueadores da mente. A tarefa do escritor é nos fazer ver o mundo como é, repleto de muitas e diferentes demandas, partes, experiências. É tarefa do escritor retratar as realidades sórdidas, as realidades que causam enlevo. É da sabedoria fornecida pela literatura (a pluralidade da realização literária) ajudar-nos a compreender que, o que quer que esteja acontecendo, sempre se passa algo mais (Sontag, 2008, p. 162).

Susan Sontag conheceu muitos dos problemas filosóficos que envolvem dizer “a verdade”. Compreendeu que o conhecimento e os valores morais são armas contra o autoritarismo e a violência em defesa da complexidade da verdade. E tomada por isso as suas atividades intelectuais foram ao longo de sua trajetória movidas por imperativos de consciência e afeição que transbordaram para o debate e a ação pública, sendo considerada uma ativista dos direitos humanos. Viajou para países em guerra, como Vietnã (1955-1975) e Bósnia (1992-1995), presidiu no final dos anos 1980 a American Center of PEN, uma organização internacional de escritores dedicada à liberdade de expressão literária com frequentes campanhas a favor de escritores perseguidos e prisioneiros em várias partes do mundo.

O livro em questão, Diante da dor outros realiza um apanhado histórico e interdisciplinar dedicado a pensar sobre o desgaste das palavras, a proliferação de imagens de dor e a necessidade de uma consciência ativa. Ao se apoiar em ideias de Platão, Leonardo da Vinci, Edmundo Burke, Baudelaire, Simone Weil etc, Susan Sontag analisa a história da representação da dor dos outros – “desde As desgraças da guerra, de Francisco de Goya (1746-1828), até fotos da Guerra Civil Americana, da Primeira Guerra Mundial, da Guerra Civil Espanhola, dos campos nazistas de extermínio durante a Segunda Guerra, além de imagens contemporâneas de Serra Leoa, Ruanda, Israel, Palestina e de Nova York no 11 de setembro de 2001”(Sontag, 2003) – e possibilita um ponto de partida para balizar certos questionamentos jurídicos interessados em uma compreensão ampla sobre a vida contemporânea em que chocar-se a cada hora com uma coisa, difundida pela mídia, tornou-se um estímulo primordial de consumo e fonte de valor jurídico.

Com uma análise da resposta de Virginia Woolf a uma carta de um eminente advogado de Londres que perguntara: “Na sua opinião, como podemos evitar a guerra?” ela inicia o seu ensaio. Mulheres não fazem guerra, afirmou Woolf, a guerra é feita e decidida, fundamentalmente, por homens, como é ainda no Direito. Para evitar a guerra, pontua Susan Sontag, não é possível se deixar dominar pelo medo ou pela raiva, pois a violência transforma toda pessoa sujeita a ela em coisa. Os outros se considerados inimigos inferiores ou selvagens, estão, por exemplo, susceptíveis a tortura e ao assassinato, sem a garantia de ter a dignidade preservada, inclusive em estados ditos democráticos de direito.

Mas a quem exatamente acreditamos ter o direito de culpar na nossa sociedade? Que atrocidades do passado nós devemos revisitar? Quem são os nossos inimigos? Não basta condenar os outros ou ver a tragédia da nossa vida pública em museus, televisão ou internet. É importante superar a passividade e a anestesia moral que embota o sentimento humano. Sair em defesa da solidariedade e praticá-la pode parecer simples e ingênuo, mas é um esforço ético necessário diante do abismo entre nossas declarações, normas e ações. Não se pode esquecer que a regra da história foi a violência e o conflito, não o diálogo e a paz.

Assim, a dor dos outros, tanto das vítimas quanto dos algozes, não é virtual, é real e merece ser tratada como tal. É claro que a distância entre nós e o sofrimento dos outros, mediado por uma infinidade de imagens, coloca os outros em um nível de experiência distinto revelando os limites da nossa responsabilidade social e da nossa habilidade de compreensão. Isso se agrava quando se nota hoje na sociedade o peso social das leituras equivocadas, das recordações enganosas e das imagens deturpadas. Fica aqui o convite para a leitura de um belo ensaio ético que faz ver a importância do direito de todos à dignidade.

Bibliografia

SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

______________. A consciência das palavras. Discurso ao receber o Prêmio Jerusalém. In: Ao mesmo tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


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