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As resistências dos delatores da Odebrecht

Emílio Odebrecht tratou propina como questão institucionalizada e foi repreendido por procurador

Maior empreiteira do país, a Odebrecht revela na colaboração premiada de 78 executivos e executivos na Lava Jato os detalhes do sistema engenhoso de toma lá dá cá que permeou ao longo das últimas décadas sua relação com o sistema político.

Além de arrastar para o centro do escândalo de corrupção os principais líderes de governo e oposição e ainda apontar uma movimentação de mais de R$ 450 milhões entre propina e dinheiro ilegal para irrigar campanhas, os depoimentos dos delatores também chamam atenção pela tentativa de minimizar a engenharia criminosa.

Alguns colaboradores se esforçaram em suas colaborações premiadas para sustentar que o esquema de pagamento de propina envolvendo empresas e políticos era uma questão institucionalizada e que se tratava de “ajuda” para campanha.

A versão, lançada inclusive pelo patriarca da Odebrecht, Emílio, irritou e encontrou resistências entre os procuradores.

Coordenador do grupo da Lava Jato na Procuradoria Geral da República, Sergio Bruno cobrou de Emílio Odebrecht que deixasse de lado “historinha de conto de fada” e que jogasse limpo. A advertência ocorreu após o empresário afirmar que a Odebrecht movimentou R$ 300 milhões para financiar campanhas, sendo que as tratativas eram feitas com Antonio Palocci e Guido Mantega, ex-ministros da gestão petista.

“São R$ 300 milhões que foram gastos sei lá com o que, seja com campanha, com santinho, com tempo de televisão, com marqueteiro, que podia ter sido construído escola, hospital e todo esse Brasil que o senhor sonha e quer viver. Esse dinheiro poderia estar lá. Então vamos agora deixar de historinha, de conto de fada, e falar as coisas como elas são. Está na hora da gente dizer a verdade, de como a coisa suja é feita. Não é possível um ministro da fazenda fique pedindo todo mês a um empresário. Isso não é admissível. Por mais que a gente esteja acostumado com isso, isso não é o correto e o senhor sabe disso”, disparou o procurador.

“O Palocci e o Mantega, na qualidade de ministro, cada um em sua época, ao solicitar um valor a qualquer pessoa, cometeu o crime de corrupção. Sou obrigado a trazer o lado podre, o lado ruim”, completou.

Em outro momento da delação, Emílio, no entanto, reconhece que as negociações não se tratavam apenas de caixa dois, admitindo, inclusive, benefícios pessoais para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com a surpresa pedida por Dona Marisa para a reforma do sítio de Atibaia, em São Paulo. Emílio diz que tinha relação próxima com Lula desde os tempos das greves e que uma vez um general afirmou que Lula era bon vivant.

“Lula não tem nada de esquerda. Ele é um ‘bon vivant’. E é verdade. Ele gosta da vida boa, gosta de uma cachacinha, gosta de fazer as coisas e gosta de ver os outros, efetivamente, a coisa que ele mais quer é ver a população carente sem prejuízo, essa que é a versão mais correta, sem prejuízo de quem tem. Não é aquele negócio de tirar de um pra dar pro outro. Essa é a minha visão, por isso teve um alinhamento muito grande”.

O depoimento do ex-presidente da Odebrecht Pedro Novis também teve momentos mais tensos com um procurador, que questionou a fala do empresário sobre os repasses para o senador José Serra (PSDB-SP). O representante do MP questionou se a empresa conversou com o tucano a respeito de obras contratadas com o governo de São Paulo. Novis desconversou.

O procurador insistiu. “O tanto de encontro que vocês tiveram o senhor sequer ouviu os pleitos. Fica pouco crível”, afirmou. “Apesar de o senhor falar em relação de amizade, o senhor não nadava na piscina da casa dele e ele não fazia churrasco na casa dele”, completou afirmando que os encontros eram realizados nos escritórios das residências e que seria estranho liberar os recursos sem contrapartidas.

Sobre a eleição de 2002, quando Serra perdeu a disputa presidencial para Lula, Novis afirma que o valor repassado ao então candidato tucano foi de até R$ 15 milhões, via caixa 2. Em 2004, também sem declarar à Justiça Eleitoral, teriam sido pagos R$ 2 milhões à companha de Serra para a Prefeitura de São Paulo.

Já em 2006, na campanha para o governo do estado de São Paulo, teria sido doado € 1,6 milhão (equivalente a R$ 4,6 milhões). Segundo o delator, os pagamentos foram feitos durante a campanha eleitoral e também em 2007, para cobrir dívidas de campanha.


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