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entrevista ao JOTA

‘Bolsonaro prometeu muito no combate à corrupção e cumpriu pouco’, diz Deltan Dallagnol

Ex-coordenador da Lava-Jato e pré-candidato a deputado diz que poderá conversar com réus para aprovar projetos no Congresso

Deltan Dallagnol
Deltan Dallagnol, ex-coordenador da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba

Ex-coordenador da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol se filiou recentemente ao Podemos, partido que deve ter o ex-juiz Sergio Moro como candidato à Presidência. Agora pré-candidato a uma vaga de deputado federal, Dallagnol criticou, em entrevista ao JOTA, o combate à corrupção no governo do presidente Jair Bolsonaro

“O  candidato Bolsonaro prometeu muito e cumpriu pouco”, disse, completando: “A impressão que fica é que o Coaf sofreu uma retaliação por ter identificado operações relacionadas às rachadinhas pelas quais os filhos dele são investigados”. (Assista ao vídeo com a íntegra da entrevista)

O ex-procurador afirmou ainda que “gostaria de um presidente que honrasse a verdade” e “não incentivasse as fake news”. Questionado se havia se arrependido de votado no presidente, o ex-coordenador da força-tarefa se esquivou: “Eu nunca afirmei que votei no Bolsonaro, eu nunca revelei meu voto em relação às eleições de 2018”. E nem nunca vai revelar, acrescentou. 

Antes de entrar na política, ele conversou com Moro e declarou que o fato de o ex-juiz estar no Podemos pesou em sua escolha pela legenda. Embora o combate à corrupção seja seu mantra na busca para ser eleito, Deltan Dallagnol reconheceu que, caso vire congressista, será inevitável sentar com políticos alvos de processos na Justiça, até mesmo por corrupção, para buscar aprovação de projetos de interesse da sociedade: “Isso é um caminho necessário para a mudança”. Mas, salientou ele, isso não significa um “casamento”.

Ao deixar o Ministério Público Federal (MPF) após 18 anos na carreira, ele virou professor e lançou um curso em seu site para as pessoas que querem entender melhor o combate à corrupção. Como candidato, disse não se incomodar com possíveis ataques que venha a receber, principalmente no caso da Vaza-Jato, como ficou conhecida a cobertura sobre mensagens vazadas de procuradores da força-tarefa. “A Vaza-Jato é um boato querendo bancar de escândalo”, afirmou.  

Leia a entrevista com Deltan Dallagnol:

Quando começaram as sondagens para o senhor entrar na política e quem o sondou desde então?

As pessoas começaram a me sondar lá em 2015, 2016. Teve gente que falou até mesmo em 2014 que eu deveria sair para a política. Diversos partidos, diferentes candidatos vieram me sondar. É claro que os partidos têm interesse em quem possa fazer votos. Agora, para ser bem sincero, essa opção nunca foi tentadora para mim, nem mesmo hoje ela me tenta. Eu tenho uma missão. Foram mudadas as regras do Supremo, do Congresso e, hoje, não conseguimos mais produzir resultados parecidos com aqueles que eram possíveis de produzir. Então, se a gente quer barrar os retrocessos e promover avanços, a arena na qual a gente precisa lutar por essa causa hoje é a arena política.

Que pessoas e partidos procuraram o senhor?

Eu não vou mencionar as pessoas e partidos para não expor essas pessoas porque fiz uma opção, e as pessoas podem tomar isso em caráter depreciativo. 

Por que escolheu se filiar ao Podemos? 

Vejo que existem dois partidos hoje que têm se posicionado de modo muito efetivo, consistente e coerente na pauta anticorrupção: o Podemos e o Novo. Então, para mim, acabaram se tornando as duas opções vivas. O Podemos tem o senador Alvaro Dias (PR) e o senador Flávio Arns (PR). São pessoas que têm uma vida pública que me parece muito consistente, que defendem boas causas e com as quais tenho alguma afinidade em relação a essa defesa da pauta anticorrupção. Nesse partido, também acabou o ex-juiz federal Sergio Moro saindo com o projeto para a Presidência. Claro que é muito mais abrangente, mas também toca de modo importante nessa pauta anticorrupção. 

A filiação de Moro pesou na sua decisão de escolher o Podemos?

Pesou, sim, porque vejo a chance que a gente tem agora de abrir uma nova janela de oportunidade para o avanço da causa anticorrupção, para que a gente possa virar a página e cuidar daquela ferida que a Lava-Jato abriu lá atrás. 

O senhor chegou a conversar com Moro antes de resolver entrar na política?

Eu conversei sim, o consultei. Pergunte o que ele achava. Ele disse: “olha, não é fácil”. Existem pessoas muito poderosas do outro lado, existem narrativas que são criadas, existem máquinas de comunicação. 

O senhor conversou com os colegas da força-tarefa da Lava-Jato sobre a ideia de sair do MPF? 

Conversei com algumas pessoas que são grandes amigas e, coincidentemente, trabalharam também na força-tarefa. Conversei com várias outras pessoas, pastores, líderes da minha vida, amigos, minha família, meus pais, minha esposa e todo mundo, sem exceção, disse: “Deltan, você tem que ir, é o único lugar em que você pode promover uma transformação”.

Já está 100% definido que o senhor será candidato a deputado federal?

A minha questão não é cargo. A minha questão é a causa. A questão é qual é o caminho pelo qual eu posso contribuir mais para causa? É claro que tem que ser uma posição no Congresso Nacional. Se eu quero uma mudança que depende do Congresso Nacional, então eu não cogito governador, deputado estadual… Tenho compromisso com três pautas básicas: democracia é a base do nosso pacto comunitário; o combate à corrupção, incluindo a prisão em segunda instância, fim do foro privilegiado, a imprescritibilidade da corrupção, o aumento das penas da corrupção, torná-lo crime hediondo, criminalizar o enriquecimento dos funcionários públicos, e o terceiro pilar é a preparação política dos candidatos.

Independentemente da eleição de 2022, o senhor tem vontade de concorrer a um cargo majoritário futuramente? 

Não tenho e nunca tive esse sonho. Aliás, nunca tive um sonho nem de concorrer para a posição para a qual vou concorrer.

No Congresso, há vários parlamentares com processos e até condenados na Justiça. Como será a convivência com eles, caso o senhor seja eleito?

Com certeza não vai ser fácil, mas quando você busca uma posição para você mudar uma realidade, você tem que buscar convencer até mesmo seus adversários. Algumas pessoas podem perguntar: mas você se aliaria com um político que praticou corrupção? Eu jamais me aliaria no sentido de casamento. Casamento, não. A gente não vai ter os mesmos valores, os mesmos princípios, a mesma visão de mundo. Mas se aliar para a aprovação de causas específicas e para a transformação que a gente quer, com certeza isso é necessário, senão não faria sentido buscar uma posição para mudar uma realidade quando você tem um Congresso que tem muitas pessoas que estão envolvidas em escândalos de corrupção, inclusive ocupando posições altas de poder.

Ou seja, se o senhor for eleito, para poder aprovar determinada proposta, pode se sentar à mesa com parlamentares que têm alguma condenação ou são réus?

Com certeza. Isso é um caminho necessário para a mudança. Se você se dispõe a ir para um Congresso que tem altos níveis de corrupção para mudar essa realidade, você vai ter que sentar com essas pessoas e buscar convencê-las que isso é melhor para o Brasil, que é melhor para elas, para os filhos delas e a cultura no nosso país.

Voltando ao Podemos, como o senhor vê as chances da candidatura de Moro à Presidência?

Está muito cedo ainda. A campanha vai ser ano que vem, no período eleitoral autorizado. A gente está numa fase em que as pessoas estão se apresentando, apresentando possíveis intenções e planos, se colocando à disposição de projetos de país. Vejo o Moro como alguém que é preparado intelectualmente, sempre estudou, se dedicou, se capacitou. É alguém capaz de gerenciar equipes. Ele tem buscado pessoas para apoiá-lo em diferentes áreas porque ninguém sabe tudo. Vejo o Moro como alguém que tem preparo emocional, uma pessoa mais equilibrada emocionalmente que todos os candidatos e que pode nos livrar de crises políticas sucessivas. E por fim, vejo o Moro como alguém com preparo moral e que já mostrou coragem como juiz.

O senhor vai pedir votos para ele?

Eu não tenho focado em pessoas, tenho focado em causas e tenho incentivado as pessoas a escolherem os candidatos que mais se identificam com as causas. Acho que talvez faça parte do período de transição ainda do Deltan que exercia uma função de procurador e o Deltan exercendo agora uma função de político. Eu sempre defendi causas. Eu sou o mesmo Deltan. Quero seguir defendendo causas. 

Como o senhor avalia o governo Bolsonaro no que se refere ao combate à corrupção?

O governo prometeu muito, o candidato Bolsonaro prometeu muito e cumpriu pouco. Gostaria de ver um governo mais aguerrido em defesa da prisão em segunda instância, do fim do foro privilegiado. Um governo que tivesse vetado as mudanças da Lei de Improbidade Administrativa, que tivesse escolhido um procurador-geral da República que permitisse o avanço da Lava-Jato e não que acabasse com a Lava-Jato e que era sabidamente contra a Lava-Jato, antes da sua própria escolha.

Depois, que não tivesse conduzido um procurador-geral da República que era contrário a esse tipo de investigação contra a corrupção e que não gerou um ambiente propício para o desenvolvimento dessas investigações. Queria também um presidente que tivesse municiado o Coaf com aqueles milhões que o presidente acabou vetando e que eram necessários para o sistema de inteligência capturar informações sobre lavagem de dinheiro de pessoas em todo país. A impressão que a gente fica é que o Coaf sofreu uma retaliação por ter identificado operações relacionadas às rachadinhas pelas quais os filhos do presidente são investigados. Queria que ele fizesse uma linha, uma barreira, e que ele não permitisse ocupação de posições chaves de governo por pessoas que estão sendo investigadas em escândalos de corrupção. Essa é minha avaliação no tocante ao combate à corrupção e, lembrando, esse foi o candidato que declarou muito apoio a essa pauta. Mas a gente não viu tanta efetividade do apoio, uma vez eleito.

Semana passada, o presidente criticou o senhor…

Ele passou a atacar a mim e a Lava-Jato do nada. Não dá nem para entender por que ele fez isso. Ele declarou apoio formal à Lava-Jato várias vezes, pelo menos no discurso. Mas, agora, quando o Sergio Moro é candidato, ele pega e vira os canhões para a Lava-Jato. Para mim, com acusações que não fazem qualquer sentido, dizendo que eu tinha procurado ele para buscar minha escolha para  procurador-geral da República. Mostrei os dois vídeos de 2019 dele dizendo que nunca o procurei. Ou seja, o Bolsonaro desmentindo o próprio Bolsonaro. Gostaria de um presidente que honrasse a verdade, buscasse valores de verdade e se ativesse muito ao que é fato, que não incentivasse nas redes a propagação de fake news e que criticasse isso publicamente. Acho que isso também afeta a democracia. Gostaria de um presidente que defendesse a democracia de modo amplo, a liberdade de expressão e que respeitasse a imprensa. Falo aqui com a pele de quem apanhou muito da imprensa, porque a imprensa tem um papel crítico. 

O senhor se refere às críticas de que o trabalho da força-tarefa possa ter ajudado na eleição do presidente?

A gente sofreu todo tipo de crítica, mas essa é uma crítica que a gente praticamente não sofreu: críticas de quem não fez. A gente fez muito. Você olha outras Lava-Jatos, a de São Paulo, por exemplo, que podia ter desabrochado e feito muito. Não fez porque o sistema não permite. E o Supremo? Não fez porque não quis, porque vários ministros, não todos, tem uma minoria ali, muito resistente, muito comprometida com o combate à corrupção… Mas tem ministros lá que não querem essa pauta, que não querem o combate à corrupção e ministros que, a meu ver, parecem que têm antigas alianças e que não apoiam o combate à corrupção talvez por conta disso, então.

A que ministros o senhor está se referindo?

Vou evitar nomes aqui, não vou pessoalizar. Cada um vai saber aí na sua cabeça, de acordo com a avaliação de cada um, quem são as pessoas que combatem a corrupção no Supremo.

O senhor se arrepende de ter votado no Bolsonaro?

Você está fazendo uma afirmação que eu não fiz. Eu nunca afirmei que eu votei no Bolsonaro, eu nunca revelei meu voto em relação às eleições de 2018. E eu nunca vou revelar pelo simples fato de que era procurador da República e, num conjunto de 15, 20 procuradores com diferentes visões de mundo, simplesmente é irrelevante o voto das pessoas para o trabalho que é técnico, imparcial e apartidário.

O senhor criticou o papel do governo Bolsonaro no combate à corrupção. Como avalia outras áreas?

Não faço só avaliações negativas do governo. Também acho que, em alguns setores, teve posicionamentos importantes, posicionamentos em defesa da liberdade de expressão, inclusive religiosa. Acho que houve uma defesa importante de valores de família, contra cancelamentos. A gente tem que respeitar a diferença. Isso vale para os dois lados, não só dos conservadores em relação aos progressistas, mas os progressistas também têm que respeitar a visão dos conservadores em relação às mais diferentes pautas.

E qual é sua avaliação em relação à economia?

Houve uma quebra dos compromissos fiscais que foi encaminhada nesta semana. Não é uma solução. Isso aumenta o déficit público e a inflação. Isso prejudica todos nós. Quando você tem uma família, você tem que gastar menos do que ganha, senão você vai entrar em crise. A gente está gastando mais do que recebe e, uma hora, os brasileiros vão pagar essa conta. Acredito que, sim, deveria existir Auxílio Brasil, deveria existir um apoio às pessoas pobres. Acredito que a gente deve ensinar a pescar mais do que dar o peixe, mas, às vezes, a pessoa não tem nem condição nutricional para pescar. Acho que o Auxílio Brasil é importante, ainda mais num contexto de crise econômica e de pandemia e pós-pandemia. Eu gostaria que esse ajuste fiscal fosse feito por um ajuste de contas públicas e redução de despesas, escolha de prioridades e não quebrando compromissos brasileiros importantes, como o teto de gastos públicos.

O senhor e o ex-juiz Sergio Moro se filiaram e vão concorrer. Isso não reforça a ideia dos críticos da Lava-Jato de que havia um viés político nas investigações?

Essa crítica não procede por qualquer ângulo que você vá analisar. Vamos olhar percentualmente quantos agentes públicos trabalharam na Lava-Jato: pelo menos 200. Saíram dois, 1%. Em que momento essas pessoas saíram? Saíram quando a Lava-Jato estava lá no auge, tudo estourando, bombando, podendo ser candidatos ao que quiserem que iam se eleger, lá em 2016, 2018? Ou essas pessoas saíram depois que elas tinham um sonho e lutaram por esse sonho? Elas realizaram muito no sistema de Justiça e, agora, a possibilidade de transformação ali se esgotou e elas estão saindo para fazer essa mudança fora.

Certamente, o assunto Vaza-Jato virá à tona na campanha. O quanto isso o incomoda?

Hoje, zero. A Vaza-Jato é um boato querendo bancar de escândalo. A Vaza-Jato tentou apontar supostos excessos. Esse era o discurso dela. Ela nunca disse que existe ali prova de inocência de alguém. Nunca disse que se forjou provas para condenar ninguém. O discurso da Vaza-Jato era dos excessos, de que os procuradores cederam, de que estavam indo com muita gana contra fulano e ciclano. É engraçado que agora tanto a direita como a esquerda usam isso, o que mostra que o trabalho foi efetivamente técnico, imparcial e apartidário. Quando você olha [as reportagens] são sobre quebras de sigilo bancário ou fiscal indevidas. Mas tudo que se fez está nas investigações e processos, está tudo registrado. Os advogados foram lá olhar, estava tudo certo e nenhum caso foi derrubado com base nessas supostas mensagens. Quando você tem 500 mil mensagens que foram hackeadas, que não sabe o quanto foram deturpadas, modificadas ou manipuladas para fazer as divulgações, você pinça uma mensagem aqui, outra lá ao longo de anos, você consegue construir a história que você quiser, colocando adjetivos, uma contextualização, inventando.

Em quais pontos a força-tarefa errou?

Apesar de existirem muito mais méritos do que erros, se você vai discutir isso num ambiente hoje polarizado, no sentido de coisas que poderiam ter sido melhoradas, as pessoas vão usar isso como pedra para atirar na Lava-Jato e para reforçar narrativas. Então, é uma autocrítica que a gente precisa fazer, deve fazer, mas que eu prefiro reservar para o futuro.

O senador Alvaro Dias, que convidou o senhor para o Podemos, chegou a ser citado em delação. Como o senhor vê isso?

Uma simples citação de uma pessoa, sem uma investigação, sem um processo, sem uma acusação, sem uma busca e apreensão, isso é muito pouco. Eu não conheço essas menções porque eram de responsabilidade da Procuradoria-Geral da República. A força-tarefa não trabalhou nesses casos. O que a gente precisa analisar? Quais são os fatos e as provas. A Procuradoria-Geral, que era competente por isso, arquivou, não encontrou elementos (…). Não nos associamos a um partido com pessoas que estão implicadas, foram condenadas no mensalão, em rachadinhas, em diferentes processos. 

Fora o combate à corrupção, por qual outra pauta o senhor pretende trabalhar? 

Uma das pautas que a gente precisa avançar é o autismo. As pessoas não perceberam o tamanho do problema que a gente enfrenta no Brasil. Existem 2  milhões de autistas no Brasil, segundo projeções baseadas no Centers for Disease Control (CDC), dos Estados Unidos. As crianças autistas precisam receber entre 15 e 40 horas de terapias semanais para terem o desenvolvimento mais parecido com o desenvolvimento de uma criança normal. Adivinha quantas horas que o SUS dá em todo o Brasil para tratamento da terapia de criança autista? Não dá 1 hora semanal, quando é preciso de 15 a 40 horas. 

Mas por que essa pauta em específico?

Eu tive contato com essas pautas de pessoas com deficiência em razão de uma condição que surgiu na minha família, de alguém que teve um problema de desenvolvimento.