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Demissionário, Mandetta denuncia uso político da cloroquina

Ministro da Saúde disse que troca de comando na pasta deve ocorrer nesta quinta ou sexta

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/ Fotos Públicas

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, criticou nesta quinta-feira (16/4) o uso político na defesa da hidroxicloroquina como tratamento ao coronavírus.

“Eu acho que fake news é uma coisa e uso político da informação é outra coisa, porque ela vem com verniz e se capta porta-vozes para isso. Você tem que ter muita resistência”, disse o ministro, completando: “Como foi o episódio cloroquina, a gente vê um estudo in vitro, logicamente não tem aplicabilidade imediata, mas ele se prestou muito para um discurso político”.

Mandetta ainda citou a reunião que teve com os médicos Nise Yamaguchi e Luciano Azevedo, no Palácio do Planalto, e na qual o ministro se disse pressionado pelos profissionais a alterar o protocolo do Ministério da Saúde para uso da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com Covid-19.

“Fui numa reunião aqui que tinha uma médica imunologista e um outro anestesista. Não era para eu ir, mas me chamaram para ir. Eles estavam explicando a cloroquina. Aí eu olhei para os pares que estavam na mesa. Ministros. Nenhum tinha conhecimento de farmacologia, de fisiopatologia. E eu estava vendo eles convencerem leigos sobre aquela situação, quando o palco daquela discussão muito importante seria no Conselho Federal de Medicina (CFM)”, disse.

A declaração foi feita em webinar promovido pelo Fórum Inovação em Saúde (FIS), com a participação de representantes da Fiocruz e de hospitais privados como BP e Mater Dei. Durante a conversa, o ministro confirmou a troca de comando no ministério, que segundo ele deve ocorrer nesta quinta ou sexta, e disse que gestão durou mais do que a média histórica.

“Nós temos uma perspectiva de troca aqui no ministério. Deve ser hoje, no mais tardar amanhã, mas enfim isso deve se concretizar. A gente vai ter todo o cuidado para amparar quem quer que seja que venha para cá. Não vamos fazer nenhum movimento brusco. Eu sou uma peça menor dessa engrenagem, dessa equipe que está aqui. Nossa equipe é muito boa”, afirmou.

Substituto

O ministro ainda afirmou que confrontou o presidente Jair Bolsonaro sobre sua manutenção no cargo. Sem citar nomes, ele comentou sobre a sinalização da indicação do médico oncologista Nelson Teich para substituí-lo. O oncologista é um dos mais cotados ao cargo e se encontrou com o presidente Jair Bolsonaro no fim da manhã de hoje.

“Disse ao presidente: nomeie um ministro, já que o ministro que você nomeou lá atrás não está conseguindo traduzir o desejo do governo. Há um claro descompasso”, acrescentando que se colocou à disposição para ajudar na transição.

“Está saindo o nome de uma pessoa que o Denizar [Vianna, secretário de Ciência e Tecnologia do MS] conhece muito bem, que eu conheço, mas não conhece o SUS. Mas vamos ajudar, cada um ajude com o que puder ajudar”, disse Mandetta, em referência a Teich, que chegou a ser cotado para a pasta durante a transição e trabalhou na pasta até o início deste ano, como consultor de Denizar Vianna.

Público e privado

Provocado pela CEO do hospital Beneficência Portuguesa, Denise Santos, sobre o papel do SUS num cenário pós-coronavírus, o ministro Luiz Henrique Mandetta defendeu o sistema público de saúde e afirmou que o setor privado terá de dialogar mais com o governo sobre o acesso à saúde.

“Está todo mundo dentro do SUS. A primeira coisa: a população brasileira entendeu que existe um sistema único de saúde, entendeu que a rede privada é complementar, mas que ela sozinha não consegue responder à complexidade de você ter um sistema único de saúde. O setor público vai ter que entrar mais na lógica do setor privado e o setor privado vai ter que entrar mais na lógica do setor público, para que a gente pegue o que tem de bom do SUS. E tem muita coisa boa”, disse Mandetta.

O ministro acrescentou que o principal ponto a ser discutido é em relação ao custo do acesso. “A saúde é cara. Saúde não tem preço, mas tem custo. Essa equação é muito complicada. No setor privado, existe um custo, existe um preço, existe uma performance. O SUS tem outro preço, outro custo e paga por outra performance. Essa lógica de precificação tem que achar um equilíbrio entre os dois mundos”, afirmou.

Mandetta disse ainda que “o SUS sai com muita força e vai ter o dedo apontado na cara dele, pagando o preço de séculos de favela, séculos de falta de saneamento, séculos de falta de educação. Isso tudo vai ficar na conta de porquê o sistema de saúde não consegue atender, de porque vocês não atendem todo mundo numa epidemia igual atende lá no Einstein, no Sírio Libanês”.