Saúde

Troca de comando

Bolsonaro demite Mandetta e indica Nelson Teich para o Ministério da Saúde

Em artigo, oncologista se mostrou a favor do ‘isolamento estratégico inteligente’, um meio termo entre Mandetta e Bolsonaro

Nelson Teich, ministro da Saúde / Crédito: Reprodução

O médico oncologista Nelson Teich é o novo ministro da Saúde. Teich se reuniu com o presidente Jair Bolsonaro na manhã desta quinta-feira (16/4) e seu nome foi anunciado oficialmente agora há pouco, após a demissão de Mandetta, em um pronunciamento no Palácio do Planalto.

De perfil técnico, o oncologista é respeitado na comunidade científica e conhecido por ser uma homem da ciência. Nos últimos tempos, dedicou-se a causas públicas, em particular a regulamentação da terapia gênica no Brasil. Também é fundador do Instituto COI, que realiza pesquisas sobre câncer.

Teich teve o apoio da classe médica e contou a seu favor a boa relação com empresários do setor da saúde. Chegou ao Palácio do Planalto, por exemplo, acompanhando pela diretoria da Associação Médica Brasileira (AMB). O argumento  levantado por interlocutores no governo a seu favor é de que ele trará dados para destravar debates “politizados” sobre o coronavírus. A avaliação, porém, é de que ele pode enfrentar dificuldades diante da falta de expertise política, principalmente ao lidar com governadores que se opõe a Bolsonaro.

Nas últimas semanas, o oncologista tem publicado artigos na rede profissional LinkedIn sobre o coronavírus. Ao contrário de Bolsonaro, Teich defende o isolamento horizontal como estratégia para ganhar tempo para entender a doença e implantar medidas para a retomada econômica. O novo ministro diz não se opor ao isolamento vertical, defendido pelo presidente, mas diz que a estratégia tem fragilidades. 

“Outro tipo de isolamento sugerido é o isolamento vertical. Nessa opção apenas um grupo de pessoas é submetido ao isolamento, no caso aquelas com maior risco de morrer pela doença, como idosos acima de 60 anos e pessoas com outras doenças que aumentam o risco de morte pela Covid-19. Essa estratégia também tem fragilidades e não representaria uma solução definitiva para o problema”, afirmou no artigo intitulado “Covid-19: como conduzir o sistema de saúde e o Brasil?” 

Sobre o uso da cloroquina como tratamento para a Covid-19, ponto também defendido por Bolsonaro, Nelson Teich não assumiu uma posição convicta:

“Se não conseguirmos encontrar rapidamente um tratamento para a Covid-19, algo que talvez os tratamentos à base de cloroquina possam representar, a cada dia que passar essa situação de confinamento, isolamento e queda econômica vai levar a uma angústia, desconforto, ansiedade e problemas crescentes e imprevisíveis. É preciso acompanhar as mudanças de comportamento, valores, prioridades e escolhas que vão acontecer com a evolução da situação atual”, anotou em outro artigo, que intitulou “Covid-19: histeria ou sabedoria?”

Outra ponto forte de divergência entre Bolsonaro e o agora ex-ministro Mandetta era sobre o impacto do isolamento na economia. Sobre isso, Teich diz que a polarização economia x coronavírus pode gerar uma ineficiência na capacidade do sistema de interpretar a evolução da doença.

“Criar uma polarização, imaginando que de um lado estão as pessoas e do outro lado o dinheiro, pode ser um erro grave na avaliação do problema trazido pela Covid-19. Uma situação de competição pode gerar grande ineficiência na capacidade de interpretar a evolução da situação e na capacidade de ajustar o sistema de saúde e o dia a dia das pessoas adequadamente. (…) Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, afirma ele no texto.

Perfil

Nascido no Rio de Janeiro, Nelson Teich se formou pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem especialização em oncologia pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) e é PhD em Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido. Atualmente, é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

Teich é figura conhecida no círculo bolsonarista. Contribuiu para o plano de governo da área de saúde e atuou como consultor na transição. Chegou a ser considerado para o cargo, mas Mandetta venceu o páreo com o apoio do DEM —Teich nunca foi afeito à política partidária. 

Ainda assim, participou do governo, entre setembro de 2019 e janeiro de 2020, como consultor de Denizar Vianna, secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, de quem já foi sócio na MDI Instituto de Educação e Pesquisa, empresa de pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências sociais.

Juntos, trabalham na formulação de uma agência de incorporação de tecnologias em saúde —que não saiu do papel por problemas orçamentários e regulatórios— e no lançamento de uma plataforma eletrônica de prontuários médicos, que deu origem ao ConectaSUS.