Análise

Jair Bolsonaro

Com mudança de Rogério Marinho, Bolsonaro busca construir agenda no Nordeste

A ideia é criar novo patamar de interlocução do Planalto com prefeitos e governadores da região onde o governo é mais rejeitado

Rogério Marinho
Ida de Rogério Marinho para o Desenvolvimento Regional visa reduzir tensão na área econômica e criar novo patamar de interlocução do Planalto com prefeitos e governadores da região onde o governo é mais rejeitado - Crédito: Valter Campanato / Agência Brasil
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A inesperada mudança no comando do Ministério do Desenvolvimento Regional funciona para o Planalto como instrumento político para ampliar a presença federal na região Nordeste e solucionar uma crise que ganhava corpo no coração da equipe econômica do governo.

Rogério Marinho, ex-deputado com base eleitoral no Rio Grande do Norte, vinha se destacando na articulação política da pauta econômica, com ênfase no bem-sucedido percurso da Previdência. O protagonismo do ex-tucano era visto com ressalvas no time de Paulo Guedes e o fogo amigo esvaziava a sua dimensão gradativamente na pasta. A ‘fritura’ ganhou corpo com a edição da MP 905, vista por auxiliares de Guedes como um erro de comunicação — prevaleceu a narrativa negativa de ataque aos direitos do trabalhador em detrimento do objetivo central, que era o de estimular a geração de empregos para jovens.

Desde então, o ex-secretário especial de Previdência e Trabalho vinha perdendo espaço na tomada de decisões, o que provocou reação do Congresso Nacional. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e vários parlamentares aliados saíram publicamente em defesa do ex-colega.

Então veio o início do ano e a primeira crise enfrentada pelo governo foi relacionada às longas filas no INSS. A suposta lentidão na resposta ao caso voltou a acossá-lo, levando-o à berlinda novamente. O episódio resultou na troca de comando na autarquia.

Ao mesmo tempo em que Rogério Marinho era questionado em parte da Esplanada, outros setores defendiam seu envolvimento nas tratativas das reformas tributária e administrativa com o Congresso. A demanda era vocalizada por parlamentares a Bolsonaro. O presidente mantém estreita e franca relação com Marinho desde os tempos em que ambos eram colegas de Câmara. Há entre eles uma proximidade que supera a dimensão do cargo.

A opção de movê-lo para a pasta do Desenvolvimento Regional tem caráter estratégico para os bolsonaristas. O ex-titular da pasta Gustavo Canuto era visto como técnico competente, mas nunca conseguiu demonstrar vigor político para ocupar um ministério cuja atuação federativa é decisiva, em especial para uma gestão que tem na região Nordeste altos índices de rejeição.

O MDR, que abarca setores de infraestrutura, habitação e mobilidade urbana que antes estavam alocados no extinto Ministério das Cidades, tem orçamento substantivo em 2020 e sempre liderou projetos como o Minha Casa Minha Vida e a Transposição do São Francisco. São R$ 14 bilhões à disposição este ano para obras e convênios cuja capilaridade afeta diretamente a rotina de prefeitos e governadores da principal base eleitoral do PT e da esquerda no país.

Para atores envolvidos na discussão das reformas, a dança das cadeiras representa um revés para a articulação com o Legislativo e até um ‘downgrade’ para Marinho, visto pelo mercado como operador político da agenda de Guedes.

Aliados do novo titular do Desenvolvimento Regional, contudo, enxergam outro cenário, já que ele terá à disposição uma ferramenta de trabalho prodigiosa para aumentar o cacife político rumo a voos eleitorais mais altos e distante da fogueira das vaidades da equipe econômica.


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