Após ataques de 8/1

Com cerco a Bolsonaro, aliados se distanciam e miram eleitores da direita

Ingresso da PGR nas investigações de ataques golpistas muda discurso de líderes da oposição

responsabilidade de bolsonaro
O ex-presidente da República Jair Bolsonaro / Crédito: Isac Nóbrega/PR
logo do jota pro poder, na cor azul royal

Com a inclusão de Jair Bolsonaro no inquérito dos atos antidemocráticos, proposta pela Procuradoria-Geral da República e aceita pelo Supremo Tribunal Federal (STF), aliados do ex-presidente se movimentam para ocupar seu espaço político de forma a não melindrar as autoridades do Judiciário e do Ministério Público no cerco aos líderes e mentores dos ataques de 8 de janeiro.

Além do apetite do ministro Alexandre de Moraes em punir quem participou, financiou ou estimulou o levante golpista em Brasília, chamou a atenção da classe política o ingresso do procurador-geral Augusto Aras nas apurações, com ímpeto punitivo e anunciando inclusive um pacote de 40 denúncias relativas ao episódio.

A luta pelo espólio de 49% dos eleitores envolve governadores e congressistas, vistos como decisivos para o resultado de Bolsonaro nas urnas. Em comum, os gestos dos candidatos a assumir o eleitorado de direita no país com vistas a 2026 procuram isolar os extremistas responsáveis pelos protestos violentos do conjunto dos apoiadores do ex-presidente, além de apontar supostos abusos nas medidas reativas aplicadas pelas instituições.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), um dos fiadores do governo anterior, tem procurado se afastar do ex-presidente ao mesmo tempo em que defende deputados que o apoiam, alguns deles campeões de voto em outubro passado.

Em entrevista nesta segunda-feira (16/1), Lira disse: “Meu CPF é um, o de Bolsonaro é outro”. A frase foi dada duas vezes, ao ser questionado sobre as investigações. E procurou, ao defender punição aos que atentaram contra a democracia, diferenciar os extremistas que atacaram as sedes dos Três Poderes dos apoiadores e líderes políticos bolsonaristas, sobretudo os que têm assento na Casa dirigida por ele.

Para Lira, não há evidência de que Nikolas Ferreira (MG), Clarissa Tércio (PE) e André Fernandes (CE), todos do PL, tenham feito algo que atentasse contra os Poderes ou estimulasse atos golpistas.

O PL, sigla de Bolsonaro, também dá sinais de que está reavaliando a superestrutura que seria oferecida ao ex-presidente para a operação política do candidato derrotado à reeleição.

O eleito senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) é outro que mira a liderança do bolsonarismo no Congresso e vem relativizando a gravidade dos ataques do dia 8, ressaltando que se trata de um movimento minoritário e saindo em defesa dos direitos humanos dos presos por participação nas manifestações.

Mourão, que é general da reserva, também vem questionando o uso da lei antiterrorismo para enquadrar suspeitos. “Não se pode banalizar as coisas. Ato terrorista é aquele praticado por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião. Nenhuma delas foi a força motriz que motivou os acontecimentos de Brasília”, escreveu o ex-vice de Bolsonaro.

Café com leite

Entre os governadores da oposição, como o Risco Político do JOTA apontou na última sexta-feira (13/1), a tendência é de afastamento político de Lula, apesar do apoio institucional dado consensualmente no dia seguinte aos ataques golpistas.

O mineiro Romeu Zema, pré-candidato ao Planalto, foi o mais incisivo ao demonstrar publicamente sua estratégia, voltada ao eleitor comum de Bolsonaro, que, segundo ele, não faz parte da “direita radical”.

“Me parece que houve um erro da direita radical, que é minoria. Houve um erro também, talvez até proposital do governo federal que fez vista grossa para que o pior acontecesse e ele se fizesse de vítima. É uma suposição. Mas as investigações vão apontar se foi isso”, afirmou o governador de Minas, segundo maior colégio eleitoral do país, à Rádio Gaúcha.

Em viagem a Davos (Suíça), o governador Tarcísio Freitas, de São Paulo, também fez questão de pontuar diferenças com o presidente e cobrou “olhar para o futuro”.

“Entendo que a democracia do Brasil é muito sólida e deu indícios disso. Passamos por um ataque que precisa ser repudiado veementemente, mas precisamos remontar o nosso país e caminhar na direção da pacificação”, declarou Freitas, em entrevista à CNN Brasil, pouco antes de participar do encontro do Fórum Econômico Mundial.