Análise

Coronavírus

Bolsonaro usa TV para dobrar aposta no confronto e pressionar Congresso

Presidente recomenda adiamento de manifestações por razões sanitárias, mas expressa desejo político de novos protestos

Bolsonaro
Presidente Jair Bolsonaro durante pronunciamento na quinta-feira (12/3) - Crédito: Reprodução / YouTube
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Na pior semana de seu governo, Jair Bolsonaro foi à TV para dobrar a aposta no confronto, estratégia que vem repetindo desde o início do mandato. Embora tenha usado as expressões “união, serenidade e bom senso”, o presidente aproveitou o pronunciamento em rede nacional da noite desta quinta-feira para enviar recados ao Congresso e manter a sua base leal de ativistas engajada para novas investidas contra o establishment político.

Desde a sua ‘live’ semanal, realizada um pouco antes, em que apareceu de máscaras ao lado do ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Bolsonaro mostrou desconforto e contrariedade com a obrigação que o cargo lhe impunha de recomendar o adiamento das manifestações convocadas por seus apoiadores para o domingo. Ficou evidente que ele o fazia por uma determinação de ordem sanitária, mas contra seu desejo político.

Durante todo o dia, manteve contato com os idealizadores dos protestos, que permaneceram até o início da noite irredutíveis quanto à manutenção da programação para o dia 15.

O que convenceu os bolsonaristas foi, além da pressão de Mandetta e sua equipe, o diagnóstico de aliados que monitoravam nas redes sociais e indicavam a preocupação dos próprios ativistas em sair às ruas no mais crítico instante de expansão da pandemia do novo coronavírus.

Ao mencionar em seu discurso as mudanças pelas quais o país passa, o presidente exaltou a legitimidade de mobilizações populares de rua para fazer valer a vontade das urnas. Segundo ele, “atendem aos interesses da nação”.
Encerrando sua curta fala, Bolsonaro esqueceu a retórica apaziguadora do início do discurso e explicou o que o levara a pedir que a população saísse às ruas em sua defesa: “O povo está atento e exige de nós respeito à Constituição e zelo pelo dinheiro público”, afirmou, em clara referência ao polêmico episódio do orçamento impositivo, que o colocou em choque com congressistas.

Quem esperava um relato pormenorizado das ações governamentais para tranquilizar a população em meio à crise do coronavírus, acabou informado de que novas manifestações virão, contaminadas pela polarização que permeia o ambiente político. E que elas terão respaldo integral do Planalto, com direito a farta publicidade em rede nacional de rádio e televisão.