Análise

Jair Bolsonaro

Confronto é arma de Bolsonaro para se manter no centro do poder

Pressionado pela popularidade de Moro, presidente enquadra ministro na mídia e usa conselheiro para pregar polarização

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Crédito: Carolina Antunes/PR
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Ao iniciar o segundo ano de mandato, Jair Bolsonaro dá indícios de que seguirá usando a tática do confronto para gerir a Esplanada dos Ministérios e pautar a imprensa clássica, tão combatida por ele, com o objetivo de se manter na centralidade do poder político.

O presidente já havia adotado a estratégia com Paulo Guedes, da Economia, em episódios como a CPMF e a reforma administrativa, e com Sérgio Moro, da Justiça, nos casos do comando da PF e do juiz de garantias. O propósito é refrear o ímpeto dos dois ‘superministros’ com altos índices de popularidade em setores distintos do eleitorado e demonstrar em praça pública quem é funcionário e quem é chefe na equação da governança nacional.

O ingrediente novo é o processo sucessório de 2022, deflagrado com incomum antecipação pelo próprio Planalto e exposição midiática de Moro.

Os recordes de audiência do programa Roda Viva, da TV Cultura, em que o ministro da Justiça e líder da Lava-Jato se apresentou com desenvoltura e marcou posições divergentes das do presidente em temas como liberdade de imprensa e meio ambiente mexeram com o instinto bolsonarista, alimentado de forma recorrente por teorias conspiratórias e traições.

A resposta do núcleo palaciano foi instantânea e profilática. Bolsonaro tratou de dar visibilidade a uma demanda apresentada por secretários estaduais para recriação da pasta da Segurança Pública. Em reunião transmitida ao vivo pelas redes sociais, o presidente tomou cuidado com as palavras ao atribuir a autoria da proposta aos governos regionais.

Súbito, provocou dúvida sobre o alcance da medida e deixou evidente que estava em curso um movimento que resultaria no esvaziamento político de Moro. Isso porque as principais conquistas da sua gestão até aqui são o combate ao crime organizado e a redução dos indicadores de homicídios (temas atrelados exclusivamente à segurança).

Bolsonaro levou, assim, à mídia e aos formadores de opinião o debate sobre o tamanho político de Moro e suas pretensões eleitorais, acentuou o estresse na Esplanada e endereçou um debate que, em regra, só começaria a ser tratado em meados de 2021.

Foram pouco mais de 24 horas de tempestade em Brasília, estimulada sobretudo pela numerosa e ruidosa ala ‘lavajatista’ do governo e da militância digital. Diagnósticos apocalípticos sobre a governabilidade foram disseminados em meio à praça dos Três Poderes.

Bolsonaro, controlando o pulso das redes e monitorando aliados e detratores, embarcou para viagem diplomática pela Índia admitindo em público que a ideia em discussão no governo poderia desagradar Moro.

Após incendiar o noticiário e refletir sobre as consequências com o conselheiro Augusto Heleno, Bolsonaro pousou em Nova Délhi e procurou os microfones para sepultar a ideia da recriação da pasta, com o devido cuidado de advertir que na vida pública não existe “nunca”.

Bolsonaro e os ‘lavajatistas’

O presidente sabe que uma bandeira inegociável da sua base fiel (que oscila entre 32% e 38% da população, segundo as mais recentes pesquisas) é o combate à corrupção. E ninguém mais do que Moro simboliza no país o comando dessa agenda. Uma ruptura agora teria, portanto, alto potencial de estrago sobre a sua sustentação popular, já que a economia terá recuperação lenta e tímida.

O bolsonarismo só poderia prescindir do pretenso ‘herói’ da Lava Jato se estivesse consolidada a polarização que seu grupo fomenta. Mas esse diagnóstico só será possível às vésperas do pleito. Até lá, tudo vai convergir para a narrativa vocalizada pelo próprio general Heleno ontem nas redes sociais: “ou vocês apoiam o presidente Bolsonaro, que se preparou 28 anos para enfrentar o sistema, ou a esquerda voltará em 2023, assim como ocorreu na Argentina”.

O general, titular do Gabinete de Segurança Institucional, sabe que é essa a única senha capaz de unir parcela substantiva do centro e da direita na rota da reeleição.


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