Análise

RISCO POLÍTICO

A dica para o ‘PIB’ é olhar menos para o discurso e mais para os gestos de Lula

Retórica do ex-presidente passou a ser mais importante para os tomadores de decisão. E é aí que mora o perigo

Lula
Ex-presidente Lula em entrevista coletiva / Crédito: Ricardo Stuckert/ PT

A semana foi muito movimentada no cenário político, por isso cabe chamar a atenção para os dois assuntos mais importantes para entender os últimos dias.

A liderança folgada de Lula nas pesquisas de intenção de voto está criando uma sombra sobre o governo de Jair Bolsonaro (PL). O ano começou com o ex-presidente ofuscando as ações do atual, inclusive na percepção do mercado e do empresariado.

O PT montou uma espécie de gabinete paralelo e Lula passa a falar com frequência para diversos públicos. Chegou aquele momento em que o discurso dele passou a ser mais importante para os tomadores de decisão. E é aí que mora o perigo.

Lula está naquela fase exaltada de palanque. Ele jamais poderá entregar seu plano econômico agora, pois perderia votos. Então sempre irá abordar temas considerados polêmicos que constam no ideário da esquerda, como o fim do teto de gastos, a revisão de reformas, e aquele clássico lema de “colocar o pobre no Orçamento, e o rico no imposto de renda”.

Isso vai produzir barulho, mas quem conhece bem como funciona o ex-presidente sabe que o que se fala nem sempre é o que se faz nos governos petistas. Então, fica a dica: é bom aplicar um filtro na retórica do ex-presidente e olhar mais para seus gestos, como a escolha de um vice “moderado” como Geraldo Alckmin, e a montagem de uma estratégia de governabilidade acenando para o centrão. Isso, sim, é relevante.

Outro ponto é a disposição de Bolsonaro em aderir ao vale-tudo para conquistar mais um mandato. Depois de alguns dias de calmaria no mercado, o presidente assumiu que discute uma PEC para baixar os impostos dos combustíveis, fazendo com que o consumidor final pague menos pela gasolina e pelo diesel na bomba.

 

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Além de uma renúncia estimada em até R$ 50 bilhões por ano, se trata, aparentemente, de mais uma manobra para escapar das regras fiscais, já tão combalidas. Não chega a ser uma surpresa. Inclusive, aqui no JOTA, temos alertada para esse movimento.

Mas representa mais um abalo na credibilidade da equipe econômica, que parece não se opor à medida que está em gestação. E a pergunta que fica é: depois da PEC dos precatórios, da mudança no teto, e agora da PEC dos combustíveis, qual será a próxima aventura de Bolsonaro flertando com a irresponsabilidade fiscal?

É isso que, hoje, afasta o “PIB” da campanha do presidente.

As análises completas de Fabio Zambelli, analista-chefe do JOTA, sobre a semana para o governo estão disponíveis também no perfil do JOTA no Instagram (@jotaflash) às sexta-feiras.