Opinião & Análise

Executivo

10 desafios da política para o governo Jair Bolsonaro em 2020

Entre as barreiras a serem transpostas destaca-se o primeiro teste de urnas da gestão Bolsonaro: a eleição municipal

Jair Bolsonaro aprovação bolsonaro
Presidente da República Jair Bolsonaro cumprimenta o aluno após receber presente / Crédito: Isac Nóbrega/PR

Detentor de apoio firme de um terço dos eleitores, que o consideram ótimo ou bom gestor, Jair Bolsonaro (sem partido) enfrentará uma corrida de obstáculos para chegar ao final do segundo ano de mandato com os índices de aprovação ao menos estabilizados para se projetar como nome competitivo para a sucessão. 

Entre as barreiras a serem transpostas pelo presidente destaca-se o primeiro teste de urnas de sua gestão: a eleição municipal de outubro próximo. Para escapar ileso, ele procura se distanciar da disputa pelas prefeituras, deixando aberta a porta para um futuro embarque coletivo de eleitos na nave governista.

O ano de 2019 que começou com alto ataque ao establishment terminou com uma manifestação simbólica da transformação na narrativa do ex-candidato “contra o sistema” para o ocupante da cadeira máxima do Palácio do Planalto, já afeito à liturgia do cargo: “Tudo passa pela política. Não adianta reclamar do Parlamento, do presidente, do Judiciário. Tudo aqui é política. Tudo passa pelo entendimento e pela compreensão de cada um. Vamos melhorar o Brasil, mas não temos outra maneira. Tudo passa pela política”. As frases ditas por Bolsonaro no ato de lançamento de seu novo partido, o Aliança pelo Brasil, sintetizam a metamorfose na retórica oficial. 

O JOTA mapeou dez dos mais expressivos desafios do bolsonarismo para o ano que se inicia na agenda política, perpassando a interlocução com os Poderes e o diálogo com apoiadores e detratores. 

1) Aliança contra o tempo

O projeto de criação do partido Aliança pelo Brasil tem um calendário apertado: se não conseguir as 590 mil assinaturas validadas até abril, a nova legenda do presidente perde a condição de filiar membros para a eleição municipal.

A rigor, Bolsonaro já trabalha com essa hipótese, pois vê vantagem em manter alguma distância do pleito. Candidatos apoiados pelo Planalto terão carta branca para filiação em siglas aliadas, sem, contudo, levar para a urna as digitais da APB.

2) Teste das urnas

Embora Bolsonaro diga que pretende se envolver nas eleições municipais, nada indica que a atuação do presidente será visceral. É provável que haja engajamento em praças como São Paulo e Rio de Janeiro, nas quais é fundamental para o governo evitar que potenciais adversários para 2022, como João Doria e Wilson Witzel, ganhem musculatura. Fora isso, a estratégia do Planalto é evitar que eventuais derrotas locais possam impactar a popularidade do presidente, contaminando o ambiente político de Brasília.

3) Governabilidade em xeque

A consolidação da base e o ajuste fino da interlocução do Planalto ditarão a abertura dos trabalhos legislativos em 2020. O presidente dá indicativos de que renovará a aposta na relação com os blocos temáticos (agronegócio, evangélicos e segurança) para aumentar o piso de votações no ano novo.

A medida visa recompor o patamar mínimo de votos após o embate com o PSL. Os postos de liderança governista no Senado e na Câmara estarão na linha de tiro, mas nada indica que Bolsonaro possa trocar os titulares na largada do ano.

4) Esplanada repaginada

Ministérios como Educação e Casa Civil começam o ano sob fogo amigo. Os tiros saem de vários lugares, mas a origem mais evidente é o Ministério da Economia. O alvo é Onyx Lorenzoni, padrinho de Abraham Weintraub.

A dupla corre risco, pois a avaliação do desempenho das duas pastas é ruim no entorno do presidente. Bolsonaro, entretanto, não tem uma solução de desenho para as mudanças que contemple os ideológicos, militares e a equipe de Paulo Guedes.

5) Tudo pelo social

Como resposta à ofensiva dos oposicionistas no campo social, Bolsonaro terá o desafio de propor uma agenda de ações que contemplem os mais pobres, em especial na região Nordeste — onde o ex-presidente Lula dispõe de mais apoio.

São estudados hoje no governo dispositivos para turbinar o Bolsa Família, expandir programas de habitação popular e ações de incentivo ao esporte nas periferias — tudo isso, na pasta da Cidadania.

6) Mídia e fake news

O embate com os veículos tradicionais tende a ganhar força em 2020 com a cobertura da escalada das investigações do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro contra Flávio Bolsonaro.

O sinal verde do STF para o compartilhamento de dados do Coaf de familiares do presidente com os investigadores deve rechear as páginas dos jornais e o horário nobre das TVs com notícias negativas para o governo no campo ético.

7) A Grande família

Carlos e Flávio Bolsonaro, cada um com seus problemas, são entraves que restringem a perspectiva de governabilidade do presidente. O ativista digital, mesmo rediscutindo a relação com as redes, é uma bomba-relógio pronta a dinamitar pontes do pai com setores organizados da sociedade e do establishment.

Já o senador, agora no meio do pântano das investigações do MP fluminense acerca de “rachadinhas” e possível ocultação de patrimônio, emana radioatividade sobre o discurso ético e de combate à corrupção — que a população reconhece como ativo principal da gestão bolsonarista.

8) Morodependência e Supremo

Candidato não-declarado a vice na chapa de Bolsonaro em 2022, o ministro da Justiça tem uma linha tênue a seguir na Esplanada: tocar a agenda da segurança, da qual se distanciou em 2019, e domar as pressões das ruas para levá-lo ao STF na vaga de Celso de Mello.

Como Bolsonaro reservou o posto a um “terrivelmente evangélico” e nada indica que Moro mude de religião, caberá a ele um papel de guardião dos indicadores de criminalidade — em curva descendente no país.

9) Pregação aos convertidos

Bolsonaro terá de irrigar, com discursos e recursos, os setores fiéis ao seu governo. Evangélicos, agropecuaristas, caminhoneiros, militares e defensores das armas estarão no centro das medidas de menor impacto econômico e alto poder de engajamento em redes sociais. São as cidadelas do bolsonarismo, vitais para endossar o clima de polarização rumo a 2022.

10) Termômetro das ruas

Com respaldo do GSI, o presidente seguirá monitorando eventuais faíscas que possam catapultar manifestações de rua no país horizontalizadas, ou seja, sem liderança partidária e sindical.

Entre os temas identificados como sensíveis estão: preço dos combustíveis, tarifas de transporte e inflação dos alimentos, sobretudo a carne.

Enquanto não se detecta risco real, a estratégia do Planalto é ligar qualquer princípio de mobilização à esquerda — e, assim, neutralizar ameaça concreta à governabilidade.


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