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Greve dos servidores

A última noite do Piantella, palco da vida política de Brasília

Golpeada pela crise, casa era comandada pelo advogado Kakay

Crédito: Mariana Muniz/JOTA

Advogados, políticos, assessores parlamentares e outros funcionários da máquina estatal que compõem a clientela do restaurante Piantella, em Brasília, perderam no fim do mês passado a oportunidade de se esbaldar com clássicos como carpaccio de carne e profiteroles de chocolate.

Desde 1º de setembro, o restaurante – comprado em 2014 pelo advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay – tem as portas fechadas. Símbolo da gastronomia política da capital, o Piantella viu passar por suas mesas acordos e conchavos que moldavam o presente e definiam o futuro.

Entre uma garfada no camarão do chef – com fettuccine! – e uma golada de um dos vinhos da extensa adega da casa, pode-se dizer que a História, assim mesmo com a letra maiúscula, se fez ali.

Nascido há 39 anos, o restaurante sofria há algum tempo com uma queda no número de cativos. Queda brusca, que o advogado salvador de políticos tentou reverter. Segurou os pratos durante dois anos, mas o custo operacional se tornou inviável.

“A gente foi para a fila do desemprego hoje (31/08) junto com a Dilma”, brincou Francisco das Chagas, o Chico, mais antigo garçom e maître do recinto. Com o nascimento do restaurante, em 1978, nasceu também o garçom, que desde agosto do mesmo ano atende desde os ilustres frequentadores às famílias que se formaram e se fizeram ali.

Chico contou ao JOTA, porém, que nenhum conviva superou aquele que escreveu seu nome no principal ato da redemocratização brasileira: Ulysses Guimarães.

“Esse não deixou nódoa”, sintetizou.

Doutor Ulysses, além das praças, ruas e páginas dos livros, está imortalizado na mesa onde sentava no restaurante.

Caso encerrado

No fim da tarde do último dia de funcionamento, os ainda-quase-ex-funcionários esperavam dar a hora do jantar na porta do restaurante. Fumavam, jogavam conversa fora e atendiam à curiosidade de quem ia ali ver se era verdade. A notícia se espalhou após um comunicado divulgado pelo dono, Kakay, em grupos de aplicativos de mensagens pela internet.

“Hoje é um dia especialmente difícil. Depois de anos tentando ‘salvar’ o Piantella, me vejo na obrigação de fechar as portas. Não tenho apego às questões materiais, o que me comove é que o restaurante era uma segunda casa para muita gente”, escreveu o advogado.

Na mensagem, fala sobre a Redemocratização, o movimento Diretas Já. “Era um patrimônio imaterial da cidade. Por tudo isto tentei tanto manter aberto o nosso velho e bom Piantella”, completou.

A modernidade da despedida não combinava com o sentimento de pesar que imperava entre os rapazes apinhados na porta. Chico, como que um porta-voz, lamentou o fechamento. Disse ter sido pego de surpresa, assim como todo mundo que foi lá ter notícias. Até o início da noite, já tinha dado pelo menos quatro entrevistas. E pareceu esperançoso.

“Tem horas, porém, que a realidade tem que ser enfrentada”, escreveu Kakay.

A crise foi um dos motivos elencados por Chico para a debacle de um lugar que resistiu a modismos, novas casas e concorrência. Durante anos, a estrela do Piantella brilhou sozinha, inabalável. Apesar dos rombos financeiros, encontrados pelo novo proprietário em meados de 2014.

Um dos motivos para sua fama era, justamente, sua fama.

Outros dois, gaba-se Chico, eram os clássicos carpaccio de carne e profiteroles – capitaneados por ele.

“O pessoal roda, roda, e diz que não encontra profiretoles melhores do que os daqui”, sorriu, tergiversando quando perguntado sobre o segredo para o sucesso do doce: uma mistura de carolinas, pequenos bolinhos de massa choux, recheados com sorvete e cobertos por grossa calda de chocolate, que vem quentinha.

Galinhada

Para o jantar da última noite de funcionamento, Kakay fechou o cardápio: serviria apenas galinhada. A adega seguiu à la carte – e carpaccio e profiteroles sairiam da cozinha pela última vez.  Apesar da tristeza, Chico, assim como os outros funcionários, sabia que vida continuaria na manhã de quinta-feira.

“Hoje quero me despedir”.

O advogado-restaurateur, dono de outra casa da cidade – o Piantas, filho mais novo do Piantella, como chama – contou ao JOTA que a ideia inicial era não abrir pela última vez.

“Para que ficássemos todos somente com as boas lembranças da vida aqui no Piantella”, disse.

Mas foram tantas as manifestações de saudade, de amigos e funcionários, que decidiu apagar as luzes mais tarde. Perguntado sobre alguma possível oferta, que adiasse ainda mais o fim desta história, Kakay não respondeu.

Por ora, fica o apelo do doutor: “Vida que segue, viva a vida! Vamos lá nos despedir!”


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