Style de vie

Greve dos servidores

Montaigne, o conhecimento de si mesmo

Ensaios, livro famoso desde o lançamento no século XVI, é uma das mais autênticas obras-primas do espírito humano

Montaigne escreveu sobre si mesmo nos seus Ensaios mas, retratando-se, pintou a humanidade por inteiro, porque “cada homem trás consigo a forma inteira da humana condição”. Ele foi um cético. Não apresenta nenhum método, nenhum sistema filosófico ou social. O seu pensamento não é ordenado, deixa-se circular a esmo. Por isso diz-se que ele é o mais perfeito representante do ceticismo, isto é, do antidogmatismo, do espírito de pesquisa e de investigação.

Em política, apesar de manifestar simpatia literária pelos antigos, é partidário da submissão às leis e ao poder estabelecido. Em religião, segue a dos seus maiores. Não aprova os inovadores da reforma, mas não é de modo algum um cristão, porque a sua Providência é mais o Deus dos estóicos do que o do cristianismo. Em moral, ele foi um epicurista: crê em certa virtude feita de constância, resignação e poder de vontade. É, como se tem dito, um filosofo pagão, influenciado pela sabedoria latina e plena de tolerância. Envaidecia-se de não ser escritor de profissão e é certo que sua composição não tem a preocupação da ordem, não obstante ser cuidadoso no estilo e foi esse estilo que ficou muito marcante em sua obra, contemplando metáforas continuamente renovadas, imaginação, improviso, alegria, frescor.

Foi a partir do terceiro e último livro dos Ensaios que Montaigne não se acautela mais. Ele sabe perfeitamente o que quer dizer, o que lhe importa dizer e o faz com graça, satisfação, felicidade de expressão e sutileza incomparáveis. “Os outros criam um homem; eu o descrevo”, assinala (Livro XIII, Cap. 2). E, um pouco adiante, com mais sutileza: “Não pinto o ser, pinto a sua transitoriedade”.

De sua vida sentimental só a amizade encontrou eco em sua obra. A que sentiu por Etienne de La Boëtie, três anos mais velho que ele, autor de um único livro, Discurso Sobre a Servidão Voluntária. Esse livrinho não nos permite considerar seu autor como “o maior homem do século”, como julgava Montaigne, mas nos faz compreender esse apego do futuro autor dos Ensaios por uma alma generosa e nobre, como foi La Boëtie.

Por mais bela que tivesse sido essa sua amizade, pode-se duvidar se, talvez, não constrangeu um pouco a Montaigne. Pode-se perguntar o que teria sido sua vida se não tivesse encontrado La Boëtie. O que teriam sido os Ensaios se o amigo não tivesse morrido tão jovem (com a idade de 33 anos). Saint-Beuve cita, a esse propósito, bela frase de Plínio, o Jovem. Diz ele: “Perdi um testemunho da minha vida… Temo, daqui por diante, viver mais negligentemente.” Mas é exatamente esse “negligentemente” que tanto apreciamos em Montaigne.

Declarava não ter nenhum projeto senão o de passear por lugares desconhecidos. “Tomou-se de tão grande prazer em viajar, diz Gide, que ficava aborrecido da obrigatoriedade de parar para descansar.” Costumava dizer que mesmo tendo passado uma noite inquieto quando, pela manhã, lembrava-se que tinha de ver uma cidade ou região nova, levantava-se alegre e animado. Ele mesmo escreve nos Ensaios: “Sei bem que, tomado ao pé da letra, este prazer de viajar demonstra inquietude e irresolução: são as minhas qualidades mestras e predominantes. Sim, confesso, nada vejo, nem sequer em sonhos e em desejo, onde possa deter-me; só a variedade e a posse da diversidade me satisfazem.” (Livro XIII, Cap. 9).

Ele teve um fim cristão. Verdade é que sua mulher e sua filha o assistiram em seus últimos momentos, e o animaram, não procurando uma acomodação a essa morte em que o moribundo está recolhido em si, vindo ela quieta e solitária, aquela morte conformada e transcendente. É o pressentimento disso que o fez escrever: “Se ainda tivesse de escolher (a minha morte), esta seria, creio, mais sobre o cavalo que sobre um leito, fora da minha casa e longe dos meus”.

O Brasil está presente em várias passagens de sua obra. No capítulo “Dos Canibais” ele comenta a tentativa de Villegaignon de estabelecer na Guanabara a sua França Antártica. Diz: “Tive longo tempo comigo um homem que passara dez ou doze anos neste outro mundo que foi descoberto em nosso século, num lugar onde Villegaignon tomou a terra, que denominou França Antártica. Essa descoberta de um país infinito parece digna de consideração. Não saberei dizer se no futuro não virá a ser descoberto outro ainda maior, uma vez que tantos homens, bem mais doutos que nós, se enganaram a esse respeito. Mas tenho medo de que os nossos olhos sejam maiores do que o nosso ventre e que tenhamos mais curiosidade do que capacidade.”

Ele afirma que os habitantes do Brasil eram tão saudáveis que não morriam senão de velhice, o que se atribuía à serenidade e à tranquilidade de seu modo de vida, mas que ele atribuía mais à tranquilidade e serenidade de sua alma, descarregada de todas as paixões e pensamentos, ou de ocupações rigorosas e desagradáveis, como pessoas que passam sua vida numa admirada simplicidade e ignorância. Sem letras, sem lei, sem rei, sem religião.

Foi Montaigne um dos mais perfeitos humanistas de todos os tempos. Seu pensamento até hoje parece atual. E seu livro, famoso desde o seu lançamento do século XVI, constitui uma das mais autenticas obras-primas do espírito humano. É o melhor exemplo da art de vivre, que se conhece, colocada em letra de forma.

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PENSAMENTOS DE MONTAIGNE

EXCERTOS

“Gosto de uma sabedoria alegre e jovial, e fujo da aspereza dos costumes e da austeridade, tendo por suspeitosa toda catadura rebarbativa”.

“A virtude é qualidade jovial e alegre. Bem sei que muito poucas pessoas, censurando a licença dos meus escritos, não tenham de censurar mais ainda a licença do seu próprio pensamento.”

“Quanto menos falamos com as palavras mais se nos cresce o pensamento? Porque as palavras em menos uso, menos escritas e mais guardadas são as mais sabidas e as mais geralmente conhecidas”.

“Não me revolto jamais tanto contra a França que não olhe Paris com bons olhos. Tem ela o meu coração desde a minha infância; e com ela me aconteceu o que acontece com as coisas excelentes: mais eu vi, depois, outras belas cidades, mais a formosura daquela pode e ganha na minha afeição. Amo-a por si mesma.”

“Jamais dois homens julgaram similarmente a mesma coisa; e é impossível encontrarem-se duas opiniões exatamente semelhantes, não somente em homens diferentes, mas, até no mesmo homem, em horas diversas”.

“Nada há que se deva tanto recomendar à juventude como a atividade e a alerteza: nossa vida não é senão movimento.”

“Platão atribui mais mal ao excesso de dormir que ao excesso de beber.”

“É absoluta perfeição, como divina, saber fruir lealmente do seu ser. Procuramos outras condições por não compreender o uso das nossas, e saímos fora de nós por não saber o que dentro de nós se passa. Nem colocando em nossas pernas, pernas de pau, deixamos de andar sobre as nossas verdadeiras pernas; e no mais elevado trono do mundo, não deixamos de sentar sobre as nossas nádegas. As mais belas vidas são, a meu ver, as que se tiram pela craveira comum e humana, sem milagres e sem extravagâncias.”

“Quero morrer vivo.”


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