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Redução de juros e revisão da reforma tributária: o que quer o novo presidente da CAE

Empresário que virou senador, Vanderlan Cardoso (PSD-GO) promete resolver crise com diálogo

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Senador Vanderlan Cardoso | Crédito: Pedro França/Agência Senado

Senador mais votado em 2018 pelo estado de Goiás, Vanderlan Cardoso (PSD) assume a presidência da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) com duas missões: ajudar a dirimir a rusga entre o governo e o Banco Central na discussão sobre a queda na taxa de juros e colocar as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste no centro do debate sobre a reforma tributária. A intenção é evitar que haja perda de receita em caso de mudanças nas regras do ICMS. Para alcançar seu objetivo, a promessa é de muito diálogo. 

Nesse contexto, ele apresentou, por exemplo, uma sugestão para a crise envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do BC, Roberto Campos Neto. O senador considerou que a polêmica escalonou e que não precisava de troca de farpas para ser resolvida, bastava diálogo para entender por que a taxa básica de juros, a Selic, está no patamar atual, mantida na última reunião do Copom em 13,75% ao ano. Para o parlamentar, é necessário que a taxa comece a cair para estimular o consumo e possibilitar a retomada da economia. E, embora concorde e tenha votado a favor da autonomia do BC, ele defende que ajustes sejam feitos. 

O debate vai ganhar um novo capítulo nos próximos dias, quando a CAE deve receber Campos Neto para prestar esclarecimentos. O convite foi feito pelo próprio senador em jantar com o presidente do BC ainda em meados do mês passado. O requerimento, de autoria do parlamentar, será votado nesta terça-feira (14/3) na primeira reunião deliberativa do colegiado deste ano. A audiência será o primeiro desafio de Cardoso no comando do colegiado. Ele promete dar transparência à questão, desfazer o “disse me disse”, além de mostrar ao convidado que o clima não é hostil.

A expectativa é que o novo presidente da CAE use a “lábia de vendedor” e reproduza a habilidade em resolver problemas desenvolvida ao longo de sua carreira de empresário. Entre as histórias apontadas como de sucesso do empreendedor está a reviravolta que o Grupo Cicopal, criado por Vanderlan Cardoso em 1993, teve após quase ter sido vendido há cerca de sete anos. À época, o empresário, que estava distante dos negócios, voltou para o empreendimento, conhecido pelos salgadinhos Micos, e retomou pessoalmente o contato com os clientes. Menos de um ano depois, as vendas do grupo cresceram cerca de 35%

Natural de Iporá, no interior de Goiás, o senador iniciou a carreira de empresário em Boa Vista (RR), quando mudou para o Norte com a família nos anos 1980. Lá, teve um restaurante e um mini-atacado, que evoluiu para um supermercado. No início dos anos 1990, Vanderlan Cardoso vendeu tudo e se mudou para Brasília, onde abriu a fábrica para produção dos salgadinhos. 

Reforma tributária

Essa trajetória entre as regiões Centro-Oeste e Norte do país marcam o posicionamento do senador perante a reforma tributária, que também será discutida na CAE. Cardoso resiste à ideia de uma reforma que altere a arrecadação do ICMS e possa gerar perdas aos cofres estaduais. Para ele, estados em desenvolvimento, que não tem população para consumir, mas são exportadores, como o Goiás, serão prejudicados.

“Querem fazer uma reforma tributária totalmente ampla, e uma reforma que venha para atender todos os estados não vai acontecer nunca. É excelente tributar no consumo, mas se a arrecadação vai ficar no consumo, então quais os estados que mais ganham com isso? Os populosos. São Paulo tem quase 50 milhões de habitantes, Rio de Janeiro, Minas Gerais”, explicou o parlamentar em entrevista ao jornal O Popular.

Na avaliação do parlamentar, mesmo que se fale em uma compensação, falta uma proposta concreta e há o temor de que seja criada uma nova Lei Kandir – que acabou judicializada. “Quando você pergunta qual compensação que vai ter, a resposta é que ainda estão estudando, e isso não funciona. Estamos cismados com essa questão da compensação. Nós, do Centro-Oeste, estamos juntando a bancada com o Norte e Nordeste para unir forças e ter uma negociação melhor na reforma tributária”, completou na entrevista. 

No comando de um dos colegiados mais importante da Casa, o senador tem afirmado que vai trabalhar por uma reforma tributária capaz de baixar imposto. O parlamentar acredita que um dos meios de alcançar esse propósito é trazer para a formalidade quem está na informalidade. “Se todos contribuírem e pagarem os impostos, a carga tende a diminuir”, disse. Ele prevê ainda discutir matérias relacionadas à inflação e à dívida pública ao longo dos próximos dois anos. 

Visão política  

Os esforços em apaziguar a crise do governo com Campos Neto, que foi indicado pelo governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para o cargo no BC, demonstra ainda uma mudança de postura política do senador, que já passou pelo PP, PR, MDB e PSB. Até recente, Cardoso integrava a base de Bolsonaro e era reconhecido como bolsonarista. A primeira divergência pública, no entanto, foi o voto em Rodrigo Pacheco (PSD-MG) para reeleição à presidência do Senado – contrariando a orientação bolsonarista, que apoiava voto em Rogério Marinho (PL-RN). 

A dissonância fez com que o senador goiano se tornasse alvo de críticas. Apoiador de Bolsonaro, o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) chegou a acusar Cardoso de ter trocado o povo pela presidência da CAE. Irritado, o senador levou a briga ao Supremo Tribunal Federal (STF), onde apresentou uma notícia-crime contra o parlamentar. À Corte, o senador citou os crimes de difamação, calúnia e injúria. Pediu ainda a “implementação de medida cautelar criminal visando evitar reiteração criminosa, com proibição de perpetuação da veiculação do material ofensivo” e a “suspensão do exercício da função pública”.

À época, Cardoso argumentou que sua escolha para a CAE atende a um acordo feito no PSD na última eleição no Senado, em 2021. Na ocasião, o parlamentar ficou com a vice-presidência da comissão, que passou a ser comandada pelo seu correligionário e líder da legenda, Otto Alencar (BA). Entre os projetos aprovados na comissão, no biênio 2021/22, sob a direção de Otto Alencar, estão o PL 4.199/2020, que cria o Programa de Estímulo ao Transporte por Cabotagem, e o programa de estabilização dos preços do gás e de combustíveis, enviado à Câmara dos Deputados. 

Cardoso ingressou na política em 2004, quando foi eleito prefeito de Senador Canedo, no interior de Goiás, onde ficava uma de suas fábricas. Em 2008, ele foi reeleito. Depois, em 2014, tentou disputar o governo do estado, mas foi derrotado. Em seguida, concorreu à prefeitura de Goiânia, a qual também não teve êxito. Já em 2018, foi eleito senador, com mandato válido até 2027.