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Mulheres em RelGov: o dia a dia da profissão num ambiente ainda muito masculino

JOTA ouviu 10 profissionais para entender as principais dificuldades das profissionais que atuam em RelGov

Créditos: Radar Governamental

Certa vez a lobista Carolina Venuto, atual presidente da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), estava reunida com um deputado federal, que a questionou: “Você não faz a unha?”. A observação, imprópria e constrangedora, reforça uma das muitas exigências sociais que há sobre as mulheres em seguir determinados padrões, sobretudo no ambiente político.

Além de lidar frequentemente com comentários sobre aspectos físicos, algo que os homens não costumam ser alvo, é comum que, em reuniões, elas precisem reforçar a posição de executivas que ocupam. A situação é ainda mais frequente quando quem está na sala, pronta para liderar um assunto, é uma mulher negra.

“Em uma reunião, muitos se dirigem ao homem no local e não à mulher”, conta Larissa Menezes, gerente executiva de Relações Institucionais da Ambev. “O que sentimos é que precisamos sempre reforçar e reafirmar para todos a nossa capacidade, mas isso ocorre em todas as profissões, já que o machismo ainda é uma questão cultural muito presente”.

Juliana Celuppi, sócia-diretora do Celuppi Advogados e diretora executiva do Radar Governamental, relata uma experiência parecida: “Já passei por algumas situações em que as pessoas me perguntavam se o sócio responsável pelo escritório também iria na reunião ou se era mesmo apenas eu, e se eu poderia tomar decisões na ausência dele”.

Além disso, no decorrer das reuniões há recorrentes interrupções de fala sofridas, o chamado manterrupting; e também situações em que homens se colocam em um pedestal e adotam tom professoral para explicar algo óbvio às colegas, o mansplaining. O comportamento se multiplica e assume diferentes formas. “Às vezes o que eu falo é dito por um colega homem na sequência. Exatamente a mesma coisa, e isso é referido como se essa pessoa tivesse falado. Isso acontece muito, de o destaque ficar com a figura masculina. É o broprieting”, lembra Renata Mendes, diretora de relações institucionais e governamentais da Endeavor e porta-voz do movimento Pra Ser Justo (que atual em prol da reforma tributária).

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Por causa disso,  as mulheres acabam adotando mecanismos para evitar essas situações. “Você entende que precisa aprender a ser mais dura e adotar um tom de voz diferente”, revela Ana Carolina Carregaro, gerente-executiva de relações institucionais da BRF em Brasília. “Infelizmente, temos a tendência a adotar essas medidas para podermos ser ouvidas e que nossa posição tenha tanto valor quanto a de um homem falando. Ainda que hoje tenhamos mais mulheres na área, esses aspectos ainda permanecem. Espero que seja mais leve algum dia e que possamos nos expressar naturalmente para sermos ouvidas”.

Essa foi uma das constatações na pesquisa de mestrado de Francine Moor, coordenadora do Comitê Abrig Mulher e que tem uma consultoria que atua em RIG. “Tem mulheres que adotam um modelo que se aproxima muito do modelo masculino de lidar com as situações”, explica. “Elas são questionadas por serem mulheres nesse ambiente. Quando são femininas não são aceitas”, complementa Moor, que tratou do tema em trabalho intitulado “Mulheres e lobby no Brasil: como elas jogam o jogo dos homens o Congresso Nacional”.

De acordo com Juliana Celuppi, quando mulheres atingem cargos de liderança isso ainda gera dúvidas e o questionamento de “será que ela vai dar conta?”. Como ela diz, “a imagem da fragilidade feminina ainda está bastante intrínseca na sociedade”.

Obstáculos de gênero

O ambiente político ainda é predominantemente masculino, com larga maioria de homens ocupando cargos no Legislativo e no Executivo. Por causa disso, é comum mulheres (incluindo as eleitas) serem barradas nos acessos à Câmara dos Deputados e ao Senado, ainda que tenham credencial, enquanto homens circulam com maior facilidade. “Eu às vezes sou barrada no plenário, preciso mostrar credencial, dizer aonde estou indo”, lembra Carolina Venuto.

Além do aspecto de acesso aos espaços físicos, há diferenças na hora de criar relações com atores políticos. “Há uma rede de acessos dominada por homens. É aquela história de sair do Congresso e ir tomar um chopp”, diz Francine Moor, em referência a encontros para os quais as mulheres não são convidadas.

Na hora de fazer uma abordagem a um parlamentar, as mulheres contam se preparar mais e evitar acionar um tomador de decisão sem ter um embasamento técnico. “As mulheres primeiro preparam o conteúdo, depois entram em contato com o assessor. Enquanto os homens resolvem um problema em meia-hora, a mulher precisa demonstrar conhecimento técnico mesmo em questões simples para evitar questionamentos”, conta Moor.

Renata Mendes, diretora de Relações Institucionais e Governamentais da Endeavor, concorda: “Uma estratégia que as mulheres adotam é sempre estar muito bem preparadas. Especialmente quando, além de mulher, se é mais jovem, tem um desafio de se fazer ouvida”.

A desigualdade enfrentada por elas no ambiente de trabalho persiste também no interior das casas. “Os trabalhos de cuidados em casa ainda são tarefas mais realizadas por mulheres”, diz Francine Moor. “Essa demanda explodiu na pandemia, em que as mulheres estão adoecendo, cansadas e estressadas pelo acúmulo de trabalho”.

Diante desse quadro, o que se vê é um aumento de mulheres que atuam em RelGov, mas os cargos de liderança seguem ocupados, majoritariamente, por homens e brancos. “Ainda é frequente que eu esteja em reuniões com alta liderança, onde há pouca representatividade”, diz Suelma Rosa, head de sustentabilidade de Unilever e presidente do IRELGOV. “O desafio na comunidade de relações governamentais é semelhante a outras áreas profissionais: equiparação salarial e o ‘teto de vidro’, que impedem o progresso de posições em lideranças médias para posições sêniores. É uma jornada”.

“As mulheres que galgam cargos de destaque têm que fazer algumas escolhas que os homens não precisam fazer”, lembra Andrea Gozetto, diretora executiva da Gozetto & Associados Consultoria Estratégica e idealizadora do MBA “Economia e Gestão – Relações Governamentais” da FGV. “Eu tinha medo de fazer muito sucesso e não ter mais tempo para mim e para minha família. Isso também ocorre com o homem, mas ele tem a mulher”.

Para Juliana Celuppi, uma iniciativa que poderia amenizar a desigualdade de gênero no campo profissional e em casa é a adoção de licença-parental – política em que os homens também se afastam das empresas por um período após o nascimento de um filho. Assim, a dedicação à família não é entendida como responsabilidade que será assumida apenas pelas mulheres, o que as penaliza no trabalho. “Acredito que isso ajudaria a equalizar a situação, de modo que os pais pudessem também ter essa tutela jurídica necessária para promover melhor equidade nas contratações e promoções”, defende.

Formas de contornar dificuldades

Em meio a tantas barreiras, as mulheres que atuam em RelGov formaram grupos de apoio e acolhimento, não só para tratar de temas profissionais. O primeiro de todos foi o “RelGov veste Prada”, que hoje se chama RelGov Por Elas. O grupo promove trocas de informações e suporte profissional e pessoal.

Há ainda o “Dicas – Mulheres em RIG”, com informações para as mulheres que atuam em RIG, e o “Mulheres RelGov”, um grupo de WhatsApp com centenas de profissionais de RelGov. “Temos grupos de conversa muito estruturados, e é uma rede de apoio gigantesca. Já tive ocasiões em que me apoiei nelas”, revela Stella Mattos Batista, gerente executiva na Secretaria Executiva do Banco do Brasil.

“Fazemos de tudo nesses grupos, falamos de desafios dos filhos, trocamos impressões sobre os melhores cursos, fazemos lives”, diz Stella Mattos Batista, gerente executiva na Secretaria Executiva do Banco do Brasil. “É um ambiente livre, onde os homens são, inclusive, proibidos. Fazemos muito networking, contratamos colegas, inserimos garotas que estão chegando no mercado”.

Na Abrig, há, desde 2018, o Comitê de Mulheres. “O comitê foi para criar um espaço de acolhimento. Pensávamos ‘não vou ao evento porque não conheço ninguém’. Essa foi uma virada de chave muito importante”, destaca Carolina Venuto, presidente da Abrig.

Segundo Karim Miskulin, CEO do Brasil de Ideias, nos eventos promovidos há uma predominância de 70% de homens. “Ainda é muito carente a presença da mulher no palco, até porque as grandes lideranças políticas são homens”, diz. “A ideia de criar o Brasil de Ideias Mulher é porque, majoritariamente, o público é formado por homens, e sempre nos causou desconforto sermos as únicas mulheres presentes nos eventos”, conta Miskulin, uma das fundadoras do Brasil de Ideias, empresa que une propostas de negócios inovadores a empresas e investidores dispostos a financiar projetos.

Ao perceber o desconforto das mulheres em comparecer a eventos dominados por homens, foi criado o Brasil de Ideias Mulher. Em maio, o Brasil de Ideias Mulher realizou em São Paulo um almoço com o presidente Jair Bolsonaro que contou com a presença de 52 mulheres, entre elas empresárias e executivas de empresas.

RelGov sob a Ótica Feminina

Organizado por Beatriz Gagliardo, será lançado nesta semana o livro “Relações Governamentais sob a Ótica Feminina”. O livro fala dos desafios adicionais das mulheres que atuam em RelGov, traz reflexões sobre equidade de gênero, fala sobre maternidade, coletivos femininos, entre outros temas.

O JOTA esteve no pré-lançamento do livro e conversou com algumas das autoras. Os detalhes serão publicados em reportagem nesta quinta-feira (30/9).

Além disso, na sexta-feira (1/10) será realizada uma live no Instagram do JOTA a partir das 14 horas com a organizadora do livro, Beatriz Gagliardo, e com Suelma Rosa, presidente do IRELGOV.