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Roberto Alvim

Alvim é exonerado por discurso inspirado em ministro nazista

Maia, Alcolumbre, Toffoli e OAB repudiaram discurso do secretário especial da Cultura

Roberto Alvim, secretário especial de Cultura / Crédito: Reprodução

Depois da reação de chefes dos poderes Legislativo e Judiciário, que pediram o afastamento imediato do secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, pelo vídeo em que ele cita trechos idênticos ao de um discurso do nazista Joseph Goebbels, o presidente Jair Bolsonaro exonerou Alvim do cargo.

Em nota, o presidente afirmou que reitera o “repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas” e que manifesta “também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum”.

Alvim afirmou no vídeo de lançamento de um concurso cultural: “”A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”.

Já o  ministro de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, disse num pronunciamento: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”.

O ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, disse que a fala é uma ofensa à sociedade brasileira. “Há de se repudiar com toda a veemência a inaceitável agressão que representa a postagem feita pelo secretário de Cultura. É uma ofensa ao povo brasileiro, em especial à comunidade e judaica”, disse Toffoli em nota.

Horas antes, o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia também havia repudiado a manifestação de Alvim. Em seu Twitter, Maia disse: “O secretário da Cultura passou de todos os limites. É inaceitável. O governo brasileiro deveria afastá-lo urgente do cargo”.

O presidente do Senado Davi Alcolumbre, que é judeu, também divulgou nota de repúdio. “No interior do Amapá, na localidade de Ariri, participando da retomada do programa ‘Luz para Todos’, somente agora tive o desprazer de tomar conhecimento do acintoso, descabido e infeliz pronunciamento de assombrosa inspiração nazista do secretário de Cultura Roberto Alvim, do governo federal”, disse o presidente do Senado.

“Como primeiro presidente judeu do Congresso Nacional, manifesto veementemente meu total repúdio a essa atitude e peço seu afastamento imediato do cargo. É totalmente inadmissível, nos tempos atuais, termos representantes com esse tipo de pensamento. E, pior ainda: que se valha do cargo que eventualmente ocupa para explicitar simpatia pela ideologia nazista e, absurdo dos absurdos, repita ideias do ministro da Informação e Propaganda de Adolf Hitler, que infligiu o maior flagelo à humanidade”, finalizou Alcolumbre.

Após a exoneração de Alvim, o procurador-geral da República Augusto Aras disse, por meio de nota, que “a única ideologia política admissível no Brasil é a democracia participativa que tem como princípio fundante a liberdade de expressão. Ideias nazifascistas são totalitárias e destroem a democracia, daí por que, nesta excepcionalidade, a liberdade de expressão pode ser relativizada, consoante o paradoxo da tolerância de Karl Popper”.

A Diretoria do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também emitiu uma nota de repúdio, e pediu a demissão do secretário. Na nota, a OAB diz que o nazismo “jamais pode ser utilizado como forma de pensamento, referência ou argumento de qualquer governante”, e que fazer isso configura crime previsto na Lei 7.716/1989.

“A fala reproduzida pelo secretário de Cultura evoca referências claras a uma pessoa que promoveu o genocídio, a divisão racial e tantos outros crimes. Diante do ocorrido, a manutenção do referido secretário em cargo de tamanha importância é absolutamente inaceitável”, disse a OAB.

Confira a nota da OAB na íntegra:

“A Diretoria do Conselho Federal da OAB vem manifestar total repúdio e indignação com a fala do secretário da Cultura, Roberto Alvim, que publicou manifestação reproduzindo com absoluta – e pensada – similaridade o discurso nazista de Joseph Goebbels.

O Nazismo – que resultou no Holocausto, com o assassinato de milhões de judeus – foi uma das piores passagens da história da humanidade e jamais pode ser utilizado como forma de pensamento, referência ou argumento de qualquer governante em nosso país, o que inclusive constitui crime previsto na Lei 7.716/1989.

A fala reproduzida pelo secretário de Cultura evoca referências claras a uma pessoa que promoveu o genocídio, a divisão racial e tantos outros crimes. Diante do ocorrido, a manutenção do referido secretário em cargo de tamanha importância é absolutamente inaceitável.

A cultura brasileira, uma das mais ricas e plurais do planeta, que tem suas diretrizes insculpidas no Art. 215 da Constituição Federal, não pode conviver com quem tem pensamento vinculado ao passado sombrio da história da humanidade, razão pela qual se mostra inadmissível e insustentável a permanência do referido secretário no cargo de tamanho relevo para a nossa sociedade.

A Ordem dos Advogados do Brasil, legítima defensora da democracia, das liberdades e da sociedade, entende como necessária a adoção de todas medidas para a retratação pública do mencionado secretário e a sua substituição imediata por quem efetivamente demonstre consciência do papel da cultura e da democracia em nossa sociedade, sem flertar com falas ou pensamentos que são combatidos por todas as pessoas independente de raça, credo, cor ou ideologia.”


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