Análise

Corrida presidencial

Lula acelera acordo com PSB para colocar Alckmin na ‘ponte’ com empresariado e mercado

Queda na vantagem para Bolsonaro e naufrágio da terceira via precipitam ingresso do ex-tucano na campanha petista

Geraldo Alckmin e Lula. Crédito: Ricardo Stuckert (Flickr) @lulaoficial

O avanço de Jair Bolsonaro (PL) nas pesquisas de intenção de voto para as eleições de 2022 e o esvaziamento da terceira via forçaram a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a acelerar as tratativas para a formalização da aliança com Geraldo Alckmin (PSB).

O objetivo do petista é credenciar o ex-governador de São Paulo como interlocutor da campanha em setores nos quais dispõe de algum trânsito —o agronegócio, o comércio e o mercado financeiro.

Quem participa das conversas entre os dois assegura que trata-se de uma decisão de Lula envolver o novo aliado nas conversas sobre o plano de governo.

O cronograma de engajamento de Alckmin na estratégia lulista vem desenhado em etapas. A primeira delas será vencida na próxima sexta-feira (8/4), quando a sigla socialista deve indicar oficialmente o novo integrante como representante na chapa majoritária. O indicativo será o elemento formal na largada do processo interno do PT para a composição.

Petistas entendem que o “timing” de Lula para sacramentar o acordo leva em consideração a derrubada dos últimos focos de resistência ao ex-tucano em alas mais à esquerda no partido. Em conversas com dirigentes petistas, o ex-presidente tem ouvido que é necessário avançar em fases no enfrentamento às críticas de setores do PT que já se envolveram em embates duros com o ex-governador de São Paulo, sobretudo a base social do estado, incluindo movimentos de moradia e de defesa dos direitos humanos e a base sindical ligada, sobretudo, às categorias da educação.

Primeira aparição pública da dobradinha

O primeiro ato público em que Lula e Alckmin devem aparecer já como uma dobradinha eleitoral é o show do Dia do Trabalho, em 1º de maio, organizado pelas principais centrais sindicais. Está prevista para esse evento a “foto oficial” da chapa, a primeira após a imagem registrada no jantar de dezembro passado em São Paulo, articulado pelo grupo de advogados que atuaram na Operação Lava Jato.

Auxiliares de Lula relatam que a ideia do ex-presidente é qualificar Alckmin como “protagonista” do projeto eleitoral e fiador da governabilidade. O ex-governador de São Paulo deve ser escalado para atuar institucionalmente como “moderador” do discurso petista em segmentos específicos.

“O que se pretende é mostrar aos públicos que estão interessados em estabelecer um diferencial entre os projetos que estão na mesa que a parceria Lula-Alckmin não é apenas simbólica. Ela envolve formulação e ação política”, afirma ao JOTA um alta fonte do PT atuante nas negociações.

Esses interlocutores interpretam como positiva a reação do mercado às primeiras conversas do economista Pérsio Arida, um dos pais do Plano Real, com a equipe que prepara o programa de governo na Fundação Perseu Abramo, do PT.

Dada a persistente cobrança de atores do sistema financeiro para que Lula apresente ao menos um esboço de sua plataforma econômica para 2023, essa dinâmica de encontros e rodadas de aproximação tende a ser intensificada a partir do próximo mês.

Uma das preocupações do núcleo jurídico petista, contudo, é evitar a caracterização de campanha eleitoral antecipada, deixando para Alckmin a incumbência de falar genericamente sobre “projetos para o país”.

Também é esperado do ex-tucano um papel de facilitador de conexões com o Legislativo e o Judiciário, para “distensionar” eventuais pontos de conflito com os poderes durante a corrida presidencial.

Desde que se aproximaram, Alckmin e Lula têm conversado quase diariamente, por telefone, sobre os principais temas do programa de governo e também sobre as negociações com partidos aliados e a construção de chapas para a eleição proporcional.

Embora o ex-governador tucano não tenha conseguido atrair nomes expressivos do Legislativo para o PSB, espera-se dele uma atuação ostensiva com os quadros que devem apoiar a aliança —PT, PV, Rede, PSB, PC do B e PSOL— no sentido de organizar uma eventual base de sustentação a um possível terceiro mandato de Lula.