Análise

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Fala de Lula sobre aborto ajuda Bolsonaro a levar ‘pauta de costumes’ para a campanha

Bolsonaristas usam discurso de petista para engajar base; aliados do ex-presidente acham que ‘agenda progressista’ não dá voto

Lula
O ex-presidente Lula - Foto: Ricardo Stuckert (Flickr @lulaoficial)

Além da melhora nas pesquisas, o presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados comemoraram nesta quarta-feira (6/4) o que chamaram de “presente” da campanha do principal rival, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que ajuda o campo governista a arrastar a pauta de costumes para o centro do debate eleitoral, deslocando os temas econômicos para o segundo plano na disputa.

O QG político bolsonarista recebeu até com surpresa uma declaração do adversário petista em que ele se posiciona a favor da legalização do aborto, tratando-o como assunto de saúde pública. A fala de Lula não diverge das anteriores feitas pelo ex-presidente, mas avança algumas casas em direção ao alinhamento com dirigentes da esquerda latino-americana, que tratam da flexibilização das leis antiaborto.

“Aqui no Brasil não faz (aborto) porque é proibido, quando, na verdade, deveria ser transformado numa questão de saúde pública, e todo mundo ter direito e não ter vergonha. Eu não quero ter um filho, eu vou cuidar de não ter meu filho, vou discutir com meu parceiro. O que não dá é a lei exigir que ela precisa cuidar”, disse Lula, oferecendo aos apoiadores de Bolsonaro farta munição para engajamento das bases evangélica e católica que atuam na agenda da “defesa da vida”.

Apesar de tentar esclarecer seu posicionamento um dia depois, dizendo-se “pessoalmente contra o aborto”, o ex-presidente pautou a discussão e mostrou que pode ficar refém do próprio discurso na seara do comportamento.

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A exemplo de 2010, quando o tema dominou o debate eleitoral no segundo turno, forçando candidatos a fazer peregrinações por igrejas na reta final da campanha, o aborto desperta paixões no eleitorado e vem sendo abordado em especial pelos aliados ideológicos do presidente como discurso de resistência a Lula e ao PT.

Na visão desse grupo, estaria em curso uma verdadeira ofensiva para liberar a prática no continente, citando os casos recentes da Argentina, México e Colômbia. Assessores de Bolsonaro falam que o Brasil, a partir de 2023, será o próximo país a reavaliar a legislação — em que pese a decisão caiba ao Congresso, hoje com maioria conservadora, e ao Supremo Tribunal Federal.

‘Equívoco’ logo na largada

Até interlocutores de Lula consideraram o discurso do ex-presidente um “equívoco” da largada da pré-campanha. “Ele não ganhou nenhum voto com isso, mas pode perder. É preciso focar nos problemas concretos da população mais pobre. Esse tema, a rigor, nem é da alçada do Executivo”, afirma um operador da campanha petista ao JOTA.

“Lula já tem o apoio em peso do eleitorado feminino e dos progressistas. Ele precisa expandir seu apoio entre os evangélicos e o caminho mais adequado é o bolso. Os fiéis estão mais pobres, mais necessitados. Quem quer trazer discussões de comportamento para dentro da igreja é Bolsonaro. Nós temos que falar que falta comida no prato”, completa.

A reação ao pronunciamento de Lula promoveu ainda uma rara convergência entre bolsonaristas e lavajatistas. O ex-procurador Deltan Dallagnol, um dos protagonistas da Operação Lava Jato, veio a público questionar o petista. “Lula defende legalização do aborto no Brasil e afirma que o aborto é algo a que todos ‘deveriam ter direito’. Eu digo o que acho: ninguém tem o direito de tirar a vida de um bebê, dentro ou fora da barriga”, escreveu Dallagnol.

Envolvido numa polêmica que pode levar seu nome ao Conselho de Ética da Câmara, Eduardo Bolsonaro fez uma síntese das últimas declarações de Lula, que englobariam, segundo ele “estatização de empresas privatizadas, confisco de armas, regulamentação da mídia, cerco a parlamentares e familiares em suas casas e defesa do aborto”. “Lula não está pensando em eleição num país cristão”, disse o filho do presidente.

Em paralelo, rapidamente a máquina de propaganda comandada por Carlos Bolsonaro resgatou vídeo da campanha de 1989 no qual a ex-namorada de Lula Miriam Cordeiro acusava o então candidato do PT de oferecer dinheiro a ela para abortar um filho do casal, o que agitou a reta final da campanha em que fora derrotado por Fernando Collor de Mello.

Fé & política

Ainda que não tenha dito propriamente uma novidade sobre o aborto, Lula alimenta involuntariamente o plano de transformar a eleição num referendo sobre “fé e política”, que interessa hoje especialmente a Bolsonaro. O presidente quer fazer da disputa com Lula uma guerra ideológica, como já manifestou a diversos setores, sobretudo os dirigentes de denominações evangélicas numerosas.

Bolsonaro associa, inclusive, o “risco PT” a uma ocupação de vagas no STF com vistas a mudanças na legislação contestadas pelos conservadores. O chefe do Executivo prometeu a padres e pastores que vai indicar para a Corte, caso reeleito, dois juristas comprometidos com a “defesa da vida”.