Diálogo

Apoiadores de Bolsonaro e Lula têm opiniões parecidas em meio ambiente e racismo

Pesquisa do JOTA com o IBPAD mostrou convergência de pensamentos; posse de armas e aborto geraram discordância

Manifestantes pró (à direita) e contra (à esquerda) o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) ocupam a Esplanada dos Ministérios durante a votação na Câmara dos Deputados | Foto: Juca Varella/Agência Brasil

O diálogo entre pessoas que votam em candidatos de polos opostos é possível? Esses grupos têm pontos de vista realmente tão distantes quanto pensam? O JOTA e o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD) demonstram que a conversa é possível – além de recomendável – e que temos mais opiniões semelhantes do que imaginamos.

O site Nosso Papo Reto é uma iniciativa do JOTA, com apoio do IBPAD e patrocínio do YouTube, baseada em uma pesquisa nacional com cerca de 5 mil respondentes sobre políticas públicas e temas de interesse nacional. Ela demonstrou que, apesar de haver divergências em alguns tópicos, há muitas preocupações que unem a sociedade.

“Quando olhamos os posicionamentos reais, em detrimento de preconceitos e ideias pré-concebidas, há pontos comuns. O brasileiro pensa próximo em relação a grandes temáticas, como preservação do meio ambiente, sendo de direita ou de esquerda. Ele também está próximo em relação ao combate à desigualdade e ao racismo”, apontou Jaqueline Buckstegge, sócia-diretora do IBPAD, durante evento de lançamento da iniciativa.

A pesquisa, conduzida em março passado, revelou que 90% dos simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro (PL) concordam que “o governo deve adotar políticas enérgicas para combater o desmatamento e preservar o meio ambiente”. O número é parecido com o dos simpatizantes do ex-presidente Lula (PT).

Em relação ao racismo, 81% dos apoiadores de Bolsonaro concordam com a frase “o governo deve ter a obrigação de combater o racismo e a discriminação racial”. A resposta é afirmativa para 91% das pessoas que têm afinidade com Lula. Nos dois temas, os números são parecidos ainda com as respostas de simpatizantes de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB).

Os dados foram revelados por Fernando Mello, cofundador do JOTA e diretor do JOTA Labs, durante o lançamento do projeto. “Muitas vezes, acreditamos que os debates separam mais do que realmente acontece na prática. A própria sociedade tem se mobilizado para diálogos mais abertos, em movimentos cívicos. Política também tem a ver com conversa”, explicou Mello.

Os resultados deram origem a um game em que os participantes são convidados a tentar adivinhar como pensam os apoiadores de outros grupos políticos sobre temas relevantes da agenda nacional. Ao fim, há uma comparação entre a expectativa de resposta e o que o outro grupo respondeu.

Quiz do Nosso Papo Reto pretende incentivar o diálogo ao demonstrar que há mais opiniões que aproximam do que afastam os brasileiros. Clique aqui para jogar! 

Por outro lado, há temas que geram mais divergências, como a flexibilização da posse de armas, a educação em sexualidade nas escolas e a legalização do aborto. “Em muitos temas, há proporções relevantes de eleitores que ainda não sabem se posicionar. Há aí uma oportunidade de conversa, em que o diálogo serve para redução de preconceitos”, disse Buckstegge.

Os temas com maior discordância são, também, alguns dos mais explorados pela guerra política nos últimos anos – as chamadas “pautas de costumes”, como ficaram conhecidos os projetos tratando deles no Congresso.

“Muitas vezes, são os líderes políticos que forçam as pessoas a se posicionar de maneiras opostas. Esse é um sintoma do que estamos vivendo nos últimos 30 anos no Brasil”, avaliou Felipe Nunes, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e CEO da Quaest Pesquisas.

Em uma democracia, há impactos negativos desse tipo de polarização. “Chegamos em um nível muito alto de polarização afetiva, em que as pessoas não se veem mais como opositoras políticas, mas como inimigas. A consequência disso é um aumento de valores autoritários e comportamentos violentos na sociedade”, afirmou Nunes.

E mesmo nos pontos em que se vê que, na realidade, há concordância entre os diferentes grupos na sociedade, isso não se reflete nos espaços de representação política. Esse seria o caso da questão sobre preservação ambiental e combate ao desmatamento – em que foram colhidas opiniões parecidas na pesquisa mas, na política, sobram embates.

“O Brasil é um ícone na questão ambiental. Mas só vamos conseguir tirar partido disso, para construir uma economia verde, se construirmos o consenso que vemos na sociedade, mas não há na política”, afirmou o sociólogo José Cesar Martins, coordenador da iniciativa cívica Derrubando Muros. “Nós temos que resgatar nossa capacidade de ouvir, além de abandonar a ideia de que se eu tenho uma opinião a minha é a certa e é impossível o outro estar correto”, disse.

Por isso, a importância de fortalecer o diálogo para construções coletivas nos temas em que, nos posicionamentos reais, há consenso. “No final do dia, qualquer que seja o governo eleito depois dessa guerra, vamos seguir morando no mesmo Brasil”, disse Buckstegge.