Compliance na Prática

Compliance

Comunicação interna é essencial para construir cultura de conformidade

Engajar colaboradores de forma eficaz é condição necessária para compliance dar certo, dizem especialistas

cultura de conformidade
Mesa Integridade na veia no 2º Encontro de Compliance da J&F / Crédito: Ricardo Godoy/Divulgação J&F

A inércia é uma força poderosa nas organizações, e treinamentos de compliance muitas vezes são pontuais e aplicados apenas para cumprir a lei, sem reflexão profunda e diálogo. Neste cenário, como fazer com que os colaboradores — e a cultura da empresa — incorporem os valores de conformidade?

Essa foi a discussão do debate “Integridade na veia: estratégias para incluir o compliance na cultura organizacional”, durante o 2º Encontro de Compliance do Grupo J&F, na manhã desta terça (7/12). O evento continua com dois debates diários até quinta-feira (9/12). A participação é gratuita, e o JOTA fará a cobertura diária.

“O treinamento convencional — aquele ‘eu falo, você escuta’ — não engaja”, resumiu Gisele Lorenzetti, CEO da LVBA Comunicação. “Muitas vezes o código é feito de cima para baixo, e a base, na hora de cumprir, vê uma série de dificuldades ou não entende aquilo”, ela diz. “O melhor treinamento é o diálogo.”

Para Renato Santos, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Risco Comportamental (IRPC) e sócio da S2 Consultoria, há sete principais erros na produção de conteúdo sobre compliance para colaboradores:

  • Hipocrisia;
  • Falta de foco;
  • Conteúdo infantilizado;
  • Linguagem chata ou datada, juridiquês;
  • Conteúdo centrado apenas nas vantagens para a empresa;
  • Falta de humanização;
  • Conteúdo isolado, sem periodicidade.

“O programa de compliance precisa ter um diagnóstico de cultura”, afirma o especialista. Ele destaca que não pode haver distância entre o discurso e a prática das lideranças. Santos argumenta que produzir conteúdos atraentes aos colaboradores é fundamental para a eficácia dos programas de integridade. “Não é só racionalidade, é uma questão comportamental”, diz.

Desta forma, o diretor do IRPC recomenda que o conteúdo seja produzido a partir de sete antônimos da lista anterior. Ou seja, ele deve ser:

  • Legítimo;
  • Objetivo;
  • Profissional;
  • Envolvente;
  • Orientado às pessoas;
  • Humanizado;
  • Recorrente.

Marcio El Kalay, sócio e diretor de Novos Negócios da LEC, foi além ao trazer aspectos do marketing. Para ele, o colaborador de uma empresa — ou os vários tipos de colaboradores — pode ser definido a partir de uma persona, da mesma forma como o marketing aplica a outros stakeholders, a fim de refinar as mensagens e aumentar a chance de elas serem absorvidas.

“Mais do que simplesmente fazer o básico, colocar as pessoas dentro de uma sala para um treinamento, é necessário construir conteúdos verdadeiramente interessantes para a sua audiência”, ele conclui, recomendando que profissionais de comunicação tenham voz ativa na definição. “A sua comunicação vai embutida em algo que naturalmente interessa à sua audiência.”

Até porque, segundo ele, “o status quo tem uma força muito poderosa chamada inércia: se ninguém fizer nada a respeito, aquilo vai permanecer do mesmo jeito por muito tempo”. E conclui: “O programa de compliance vai lutar contra a inércia.”

Assim, aos poucos, é possível construir uma cultura de conformidade sólida. “Existem treinamentos que engajam quando eles dialogam”, disse Gisele Lorenzetti. “Eu só me engajo com aquilo em que eu me coloco, que eu questiono, em que eu acredito, e em que eu tenho espaço para questionar.”

O importante, segundo Renato Santos, é catalisar um ciclo virtuoso. “A inércia também vai ser poderosíssima quando você conseguir fazer a roda girar”, resume. “Pense nisso como uma bola de neve: o programa de compliance vai entrar na cultura da empresa se você fizer pequenos esforços, todo dia, com muita dedicação. E quando aquela bola de neve começar a rodar vai ser muito difícil fazê-la parar.”

Os participantes da mesa concordaram que o compliance não é mais uma questão de escolha das organizações, ao contrário do que acontecia até alguns anos atrás. “É um único risco, é fatal: a empresa vai deixar de existir”, afirma Lorenzetti. “A reputação é um ativo intangível, não dá mais tempo de errar, foi-se o tempo. A sociedade está demandando comportamentos, não só mais produtos e serviços. Erra-se uma vez só.”