Casa JOTA

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‘Vai criar falsa expectativa’, diz Claudio Lottenberg sobre ampliar uso da cloroquina

Para presidente do conselho deliberativo do Einstein, a prescrição indiscriminada do remédio é ‘um risco tremendo’

Reuquinol (hidroxicloroquina), do laboratório Apsen (Foto: Márcio Pinheiro/SESA)

Em webinar do JOTA realizado nesta quarta-feira (20/5), Cláudio Lottenberg, presidente do conselho deliberativo da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e presidente do Instituto Coalizão Saúde, disse que está se dando à cloroquina “um protagonismo abusivo que vai criar uma falsa expectativa na população”. Na manhã desta quarta-feira (20/5), o Ministério da Saúde divulgou novo protocolo para uso da Hidroxicloroquina e da Azitromicina no estágio inicial da Covid-19, desde que paciente consinta. 

Lottenberg disse que a prescrição off label (indicar um remédio para tratar algo diferente do que consta na bula) sempre existiu, mas “neste momento ganha um caráter de decreto em gabinete como se isso representasse uma prescrição indiscriminada”. Em sua visão, é “um risco tremendo” devido aos efeitos colaterais que o medicamento pode causar. “O que tem de fato é que induz em 30% a arritmia. E isso pode culminar em parada cardíaca, e o paciente pode morrer. Isso não é um complexo vitamínico para a gente distribuir desde as fases iniciais”, disse.

O representante do Einstein disse que o combate à Covid-19 no Brasil poderia estar sendo mais efetivo se houvesse menos politização e mais respeito às visões técnicas. “Motéis e hotéis fechados em São Paulo, pessoas vivendo em comunidades e favelas, aí fala ‘vamos isolar num cômodo’. Mas quantas pessoas têm três cômodos em casa na favela de São Paulo? Quanta coisa poderia ter sido feita de maneira estruturada, que no fundo não foi organizada por conta de politização e falta de aproveitamento das pessoas técnicas”, criticou.

“Eu tive a oportunidade de ir à Anvisa por questões de trabalho. A gente vai lá e fica reclamando que demora, dos processos, mas ninguém pode falar que o processo não é de boa qualidade. Agora, o que a gente pode reclamar é quando de repente quando despenca um paraquedista no meio e quer superar a visão técnica que deve prevalecer”, afirmou. 

O webinar “O futuro do tratamento da Covid-19: pesquisa e desenvolvimento” contou com a participação de Daniela Marreco Cerqueira (Adjunta de Diretora da Anvisa); Claudio Lottenberg (Presidente do Conselho da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein e do Instituto Coalizão Saúde); Elizabeth de Carvalhaes (Presidente Executiva da Interfarma – Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa); Reginaldo Braga Arcuri (Presidente Executivo do Grupo FarmaBrasil); Renato Porto (ex-Anvisa) e Ricardo Fenelon (ex-ANAC).

Lottenberg disse que viu uma “invasão” em suas redes sociais devido à discussão sobre a cloroquina. “São pessoas ignorantes,  mas que se inspiram num exemplo de pessoas que estão discursando também sem o conhecimento devido de um sistema regulatório. Negar aquilo que a ciência preconiza no sentido de montar para aprovar um remédio e ter de fato segurança frente aos pacientes, a gente precisa de um pouquinho mais  do que simplesmente um discurso de alguém que seja popular”, falou.

Daniela Cerqueira, diretora adjunta da Anvisa, disse que há oito estudos clínicos aprovados pela agência sobre cloroquina e azitromicina em andamento, mas que não há resultados que garantam sua segurança e eficácia no tratamento da Covid-19. A cloroquina é um medicamento já aprovado para outras doenças, mas para o tratamento da Covid, ele ainda está em etapa de estudo clínico, então precisam ser gerados dados para este tratamento específico”, contou.

“O medicamento está sendo testado tanto em casos iniciais quanto em pacientes graves, então é preciso ver se o medicamento vai se demonstrar seguro e eficaz. Isso vai ser respondido por meio de estudos clínicos, mas neste momento ainda não temos esses resultados”, disse.

Outro assunto debatido foram as dificuldades logísticas para trazer insumos e medicamentos do exterior para o Brasil, bem como o distribuição no mercado interno. Para Elizabeth de Carvalhaes, presidente da Interfarma, não há previsão de desabastecimento por enquanto, mas há dificuldades que podem piorar de acordo com o agravamento da Covid-19 no Brasil. Ela destacou ainda que o setor farmacêutico tem tido conversas constantes com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para tentar achar soluções.

“Já tivemos sequestro de carga, já tivemos voo cancelado na hora de sair. Os problemas existem, mas têm sido possível solucioná-los. Claro que um lockdown na Índia dificultaria um pouco, porque você tem um polo fornecedor de insumos que estaria interrompido. Mas hoje, uma previsão só da logística, tem sido possível acomodar com dificuldades”, disse.

Já Reginaldo Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, disse que um debate posterior que os países deverão fazer é sobre a concentração de materiais e insumos farmacêuticos em poucos lugares como a China e Índia.

Há uma discussão mundial sobre isso, a história nos mostra que a única certeza que nós temos é que teremos uma próxima pandemia. Isso vai se repetir. É preciso ter estruturas de produção no país mais capacitadas para prever, responder e resolver os problemas da nossa população”, afirmou.

“O Brasil tem um super resultado, apesar de toda a sua necessidade de construção, em duas áreas: uma agência de vigilância de primeira linha no mundo, e um sistema de saúde como o SUS . O SUS durante muito tempo foi uma espécie de Geni, mas se não fosse o SUS nós não teríamos capacidade de responder como estamos respondendo. É preciso fazer uma terceira ponta que é uma capacidade de reagir científica e tecnicamente a essa e as próximas pandemias”, defendeu. 

Os representantes do setor farmacêutico também destacaram a união de diversos laboratórios, no Brasil e no mundo, nas pesquisas para criação de uma vacina ou de um remédio para a Covid-19. Um dos exemplos citados por Carvalhaes foi a parceria da Pfizer com a BioNTech. “É um estudo em que você introduz um RNA mensageiro do vírus justamente através da vacina num organismo, e o sistema imunológico do ser humano vai combater a própria doença. Esses estudos estão avançados, eles podem culminar numa vacina em breve. É importante esse movimento de todos os laboratórios de total união científica”, falou.

Arcuri disse que  o Brasil tem capacidade de criar parcerias entre o setor público e privado para enfrentar a Covid-19. “No Brasil, construiu-se uma capacidade de produzir, de articular as melhores cabeças do setor público e privado da área de hospitais e pesquisa, com uma área focada na inovação, na pesquisa, com grande capacidade de atuação imediata”, concluiu.