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COVID-19

Hábitos criados pela pandemia vieram para ficar, mas ajustes são necessários

Especialistas participaram de webinar que discutiu as novas dinâmicas e hábitos sociais dentro e fora de casa

hábitos, covid-19
hábitos, covid-19 / Foto: Pixabay

Os hábitos forçados que foram adquiridos pela sociedade durante a pandemia da Covid-19, sem dúvida, vieram para ficar. Ainda não se sabe, contudo, como essas novas rotinas sociais e econômicas precisarão ser ajustadas no futuro quando cessarem as limitações de deslocamento e aglomeração.

Esse panorama foi apresentado por participantes de um webinar sobre novas dinâmicas e hábitos sociais dentro e fora de casa realizado pelo JOTA, em parceria com a Claro, nesta quarta-feira (4/11). Participaram Lívia Pozzi, diretora de Operações da 99; Márcio Carvalho, diretor de marketing da Claro; Léo de Biase, fundador da BBL; e Giovani Buchelt, especialista em análise de dados para temas organizacionais e de gestão de pessoas.

“Logo que a começamos a perceber tudo que estava acontecendo sobre a pandemia nos vimos não só lidando com a crise para dentro da organização, mas também entendendo o tamanho da responsabilidade que estava caindo sobre as nossas redes e negócios, à medida que todo mundo passou a trabalhar, estudar e se relacionar à distância. Vimos uma demanda estrondosa das conexões de banda larga”, relatou Carvalho, da Claro.

Segundo o executivo, mais recentemente, com o início de flexibilização, tem sido possível perceber que os hábitos antigos mudaram e a necessidade de conexão constante continua. “Vemos uma demanda de conexão pela rede móvel para os aplicativos que estavam sendo usados em casa. Tudo estava acontecendo remotamente e essa mudança de comportamento parece perdurar”.

“Vivemos agora um período de grande de reflexão sobre o que é essencial e o que é sustentável. Muita coisa acontecia em várias cadeias de valor que não eram sustentáveis. Na pandemia, esses problemas vieram à tona muito rápido”, afirmou Carvalho. Para ele, tudo que está acontecendo exacerbou ainda mais as diferenças do país e, neste momento, todos deveriam começar a entender que “nem tudo que é bom para uma pessoa, vai ser bom para toda a sociedade”.

A percepção de Léo de Biase, fundador da BBL, uma holding especializada em gamers e e-sports, é semelhante. De acordo com ele, inicialmente, a pandemia trouxe um baque para o setor, que vinha se preparando para eventos públicos com milhares de pessoas. Com o passar do tempo, no entanto, houve um alto interesse em entrar nesse mundo tecnológico.

“O esporte tradicional parou. Vimos uma necessidade das pessoas de consumir conteúdos. Tivemos que fazer mudanças à toque de caixa, porque tínhamos a obrigação de entregar horas e horas de conteúdo para as pessoas. A própria Organização Mundial da Saúde que falou no passado sobre adicionar o game como um vício, em 2020, num advento de pandemia, recomendou a prática como a principal forma de entretenimento para conviver durante o isolamento”, afirmou.

Neste mercado, além da popularização forçada pela pandemia, há ainda a expectativa com a chegada do 5G, que tende a mudar ainda mais a maneira de se consumir jogos online no país. “É muito emocionante e vibrante nosso cenário hoje. Vemos uma avenida sensacional pela frente. O movimento do mobile com game realmente revolucionou muito. Hoje fala-se que o mobile trouxe uma questão de inclusão social e classe social que a gente não vê em quase nenhum outro segmento”.

Explorar as possibilidade de oferta de serviço pelo celular também foi um divisor de águas para a empresa 99, de transporte de passageiros. Lívia Pozzi relatou que os impactos com a chegada da Covid-19 foram imediatos na empresa, mas que, depois de organizar todas as estratégias iniciais de segurança sanitária, as inovações e descobertas deslancharam.

“A Covid-19 intensificou mudanças que já iriam acontecer. A maior parte das nossas corridas, por exemplo, já se iniciava fora do centro expandido. Vimos essa tendência se exacerbar. Nas regiões mais ricas tivemos a maior queda de números de corridas, mas na periferia tivemos aumento”, comentou.

Foi essa nova perspectiva que impulsionou a criação de serviços pensando nesse usuário atual, que encontrou no serviço de transporte de passageiro uma alternativa para ter menos contato no transporte público. “Lançamos, por exemplo, o 99 poupa, que é até 30% mais barato em horário fora de pico, o serviço de carona, o de entrega de objetos e, recentemente, lançamos uma solução pelo WhatsApp. O passageiro não precisa nem ter acesso ao aplicativo da 99 para solicitar corridas”.

Em meio às inovações, apontou o especialista Giovani Buchelt, ainda não está claro como essas novidades irão reger as relações de trabalho e sociais depois desse período. “Nas relações trabalhistas, por exemplo, há bastante dicotomias: com um público que é mais de operação, tem havido mais produtividade, mas o contraponto é que o time de executivos e líderes têm preocupações como, por exemplo, como manter funcionários engajados e a cultura organizacional da empresa”.

Para ele, o resumo da ópera é que durante esse processo se aprendeu relativamente rápido a trabalhar e conviver em distanciamento social, mas as relações que eram próximas antes disso ainda não estão bem azeitadas. “Hoje, a maior parte das empresas que temos contato estão experimentando muitas coisas”.

Futuro

O mundo dos gamers e do e-sports brasileiro está hoje em um momento inédito de expansão. Em São Paulo, por exemplo, a BBL fechou um consórcio com o Estádio do Pacaembu para montar a maior arena de e-sports no formato de battle-royale do mundo.

“Estamos em um cenário bem curioso: eu nunca imaginaria que eu gamer, depois de trabalhar tanto nessa indústria, estaria sentado em um comitê do Senado falando sobre regulamentação e legislação. Foi algo muito curioso que aconteceu no ano passado”, disse Biase, acrescentando que pleiteia com o governo reduzir ainda mais as taxas de produtos games.

“O nosso presidente [Jair Bolsonaro] pela segunda vez fez uma intervenção para cortar imposto dos games. É um incentivo com relação a parte de importações, mas não é ainda o número ideal que o mercado gostaria. Estamos fazendo movimentações junto a parlamentares e o próprio governo para baixar ainda mais”.

Já no setor de entretenimento, Carvalho avaliou que o período atual tem sido de reflexão. “Uma das coisas que fizemos envolve nossos teatros, que foram plugados na nossa rede de TV, viraram estúdios e estão prontos para transmitir eventos ao vivo, seminários, o que a gente entender que faz sentido. Virou um palco de reflexões”.

Mas não é só a reflexão que tem sido necessária: uma reforma tributária para o setor de telecomunicações também pode impulsionar ainda mais a conectividade e, consequentemente, o entretenimento.

 “Como indústria habilitadora, para mim, uma questão básica de tudo é a tributária. Temos que entender que banda larga e serviço de conectividade móvel tem a mais alta incidência tributária tão quanto cigarro, bebida, e outras coisas que não têm o mesmo impacto para transformar o país. Acho que tem algo sério e drástico para ser feito”, afirmou Carvalho.